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A Cosanpa abriu nada menos que seiscentos buracos imensos nos bairros mais movimentados de Belém, infernizando a vida de todo mundo com engarrafamentos e causando graves riscos de acidentes, principalmente porque chove sempre, e quando as ruas alagam os buracos…

O Procurador-Geral de Justiça César Mattar Jr. inaugurou nesta quinta-feira, 16, o Núcleo Eleitoral do Ministério Público do Estado do Pará, que vai funcionar na sede das Promotorias de Justiça de Icoaraci, distrito de Belém. O coordenador será o promotor…

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A Comissão da Verdade do Estado do Pará

Amanhã, às 18h, no Espaço Cultural São José Liberto, em Belém, o governador
Simão Jatene instala oficialmente a Comissão Estadual da Verdade do Pará.
Merece ser destacado o ineditismo de sua iniciativa ao conceder assento ao
Sindicato dos Jornalistas entre os nove integrantes da Comissão. Mas esta não
foi uma decisão aleatória. O Sinjor-PA foi um dos poucos – e mais atuantes –
sindicatos da categoria que criou a sua Comissão da Verdade, o único do País a realizar
audiências públicas, com transmissão on line, documentadas em notas taquigráficas
e gravação audiovisual, já enviou relatório que compõe o relatório da Federação
Nacional dos Jornalistas –Fenaj e também fará parte do relatório da Comissão Nacional
da Verdade. Como presidente da Comissão da Verdade do Sinjor-PA, represento os
jornalistas parauaras na Comissão Estadual da Verdade.
É preciso curar as feridas, promover o
encontro do cidadão com a História, depois de muitos anos de silêncio. Temos a
responsabilidade de apurar, com ética e serenidade, as violações de direitos
humanos cometidas durante a ditadura militar e a onda de violência e
perseguição implantada pelo regime, que atingiu os princípios mais básicos da Democracia,
a liberdade de expressão e o livre pensamento, a fim de que nunca mais se
repita a república da dor, cujos atores são o pau-de-arara, a cadeira-do- dragão,
a geladeira e o soro da verdade, que junto com espancamentos, afogamentos, choques
elétricos e outros instrumentos de tortura, marcaram esse período sombrio do
nosso País.
Apresento drops do relatório da Comissão da Verdade do Sinjor-PA:
Ouvimos o jornalista Lúcio Flávio Pinto. Apesar de ele não ter
sofrido sob o regime militar, destacou alguns jornalistas que foram perseguidos
no Pará.
“Por
exemplo, o Hélio Gueiros e o Neuton Miranda não podiam assinar nada, mas eles
escreviam o Repórter 70. Então, não podiam aparecer. O Ruy Barata usou vários
pseudônimos. O Ruy, o Benedito Monteiro e o Jesus (Paes Loureiro) eram de um
grupo de hóspedes compulsórios do nosso governo militar. Toda vez que vinha
aqui uma autoridade, como o Presidente da República, eles eram recolhidos à V
Companhia de Guardas. O Ruy já tinha a maletinha dele prontinha.
(…)
O jornalista
Renato Tapajós talvez tenha sido o jornalista que mais sofreu perseguição aqui.
Ele foi embora para São Paulo e foi preso lá. Era um sujeito de uma valentia
incrível, provavelmente ele ia morrer de espancamento, até que alguém na
redação da Veja – a Veja há pouco tempo estava funcionando – disse que o
carcereiro cobraria um pedágio para permitir a fuga do Renato. Houve a coleta,
foi comprada a liberdade dele e ele fugiu para a França. Mas, é como eu disse:
foram casos localizados em um período específico. E depois eu não o vi mais.”
O jornalista Paulo Roberto Ferreira atuava como gerente da gráfica
Suyá, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos e editor chefe do
jornal Resistência, quando foi invadida de forma truculenta pela PM.
“Eles
chegaram sem mandado judicial e o Luiz Maklouf Carvalho, que era editor do
jornal, interceptou-os quando se apresentaram e disse que não poderiam entrar
por não terem mandado e houve uma reação quando disseram que entrariam na
marra. O Maklouf tentou impedi-los e eles começaram a agredir o João(Vital), o
(Carlos) Boução, e o Daniel Veiga, que também era membro da SDDH”.
Paulo Roberto chegara à gráfica, após o intervalo para o almoço, e
fora avisado por uma pessoa conhecida e que trabalhava em frente: “tem uns
homens aí batendo no Maklouf”. Antes de entrar, avisou os advogados da SDDH.
“Eu já sabia
o que me esperava. Quando entrei, estavam lá, além dos que já citei aqui,
algemados, espancados, visivelmente abatidos. O Oberdan Batista, que era o
gerente da gráfica, algemado junto com o Arlindo que era um gráfico impressor e
várias pessoas que tinham ido para lá (…)
(…) foi
perguntado quem era o responsável. Quando me apresentei, eles então me fizeram
assinar um documento e fui levado para a Polícia Federal junto com a secretária
da gráfica. Lá, eu assinei um documento com tudo que foi apreendido. Eles então
quando chegou-se à Polícia Federal apresentaram um outro documento, infiltrando
documento como se tivesse sido encontrado dentro da gráfica. Um documento do PC
do B. Eu não assinei o documento porque já tinha assinado outro em que não
constava isso. O inquérito foi arquivado depois de algum tempo, não prosperou.
O auditor militar não aceitou, mas eu cheguei a ser, em função disso, junto com
outros companheiros, enquadrado na Lei de Segurança Nacional”.
Convocações para depoimentos e esclarecimentos sobre reportagens
publicadas eram comuns, principalmente quando no periódico “Olha o Passarinho”,
que publicava fotos dos agentes do regime.
“Foi o Olha
o Passarinho 1, Olha o Passarinho 2, que eram fotos sobre os canas, os agentes
que nos espionavam. Eles nos fotografando e nós os fotografando. Publicamos
isso numa série de título que o próprio Luiz Maklouf criou”.
O clima de perseguição era uma constante na vida de Paulo Roberto
e de muitos do “Resistência”. Locais onde havia reuniões ou eram ligados a um
deles, como a Igreja de Nossa Senhora Aparecida e a Livraria Jinkings,
apareciam pichados com as letras CCC (Comando de Caça aos Comunistas), ou com
marcas de tiros na fachada.
“Nós
vivíamos um tempo de intimidação. Durante muito tempo eu saía da minha casa
para trabalhar e todo dia eu via uma pessoa em uma moto, ao meu lado, atrás de
mim, e eu julguei por muitos anos que era um vizinho, que morava ali próximo,
já era uma pessoa do meu convívio, não sabia o nome. Só vim saber que essa
pessoa era um agente, ‘cana’, quando ele estava no dia da invasão da nossa gráfica
Suyá. Vivíamos um medo permanente, vivíamos muita insegurança em função de ter
feito uma opção democrática, de lutar pela Democracia.”
O hoje professor doutor Manuel Dutra foi detido para
esclarecimentos em Santarém, em 1972, quando, ao testar uma máquina de
impressão, usando o esboço de um jornal, o regime soube que tinha conteúdo “do
contra”. O jornal nunca seria publicado. Mesmo assim, passou um dia inteiro no
quartel no 8º BEC.
“Eu não fui
para as grades, foi uma detenção. Eu estava com o plano de um jornal, este
tinha o apoio do Bispo, que tinha conseguido trazer dos Estados Unidos umas
impressoras velhas. E nós estávamos consertando aquilo, que na verdade nunca iria
imprimir coisa nenhuma, como não imprimiu. Eram máquinas defasadas
tecnologicamente. Então, correu a conversa de que um grupo de jovens estava
fazendo um jornal, e este jornal seria ‘do contra’. Então fui levado pelo
tenente do Exército chamado “Nelito”, e um Policial Militar que não recordo o
nome.
(…)
Eu me lembro
de também ficar sentado ali, o gabinete era grande. E todas as pessoas que ele
atendia, eu estava lá dentro também, e ele fazia menção à minha presença,
sempre assim desfazendo – “Esse pessoal que não está percebendo que o Brasil
está crescendo fica falando mal do Exército”. Eu não falava mal do Exército,
não falava bem, mal também não. Lembro-me que no fim da tarde fui embora, mas
com a recomendação de que eu estava advertido. Então, assim, coercitivamente,
essa foi a única vez”.
Manuel Dutra foi chamado muitas outras vezes para prestar esclarecimentos,
principalmente na Polícia Federal, e ouviu várias advertências. Uma delas foi
por uma entrevista com Geisel com gravador escondido, cujo conteúdo foi
publicado sem autorização.
“Agora, na
Polícia Federal, também teve episódios assim muito graves, mas era uma
intimidação. Não me lembro de eles terem – só uma vez – terem um objeto
específico, era sempre uma ação que não sabíamos bem o que era, intimidatória,
que era chamar. Lembro-me de cinco vezes em que eu estive na Polícia Federal,
isso já mais na época em que eu era diretor da rádio, para falar coisas assim,
dizer: “Olha, estamos escutando a rádio de vocês, estão fazendo isso, fazendo
aquilo e tal’, e invasão. Invasão teve duas, de eu estar sentado no escritório
e de repente chegar um funcionário e dizer: “olha, a Polícia Federal está lá
dentro do estúdio”. Era bem em frente do nosso prédio, ficava exatamente em
frente, eles só faziam atravessar a rua. (…). Isso aí por 78, 79. Calculo de
79 a 81, por aí.”
Perseguições a jornalistas como Benedito Monteiro,
Haroldo Sena e a tentativa de homicídio contra Elias Pinto foram destacados por
Manuel Dutra, que em seu depoimento comentou os impactos da ditadura militar na
sua vida profissional e pessoal.
“Às vezes
fico pensando: será que não teria feito melhores trabalhos como jornalista se
não fosse aqui? Ou, às vezes, fico pensando: Será que as coisas boas que fiz,
dentre tantas coisas medíocres que a gente faz, não foi também produto do
momento histórico de pressão? Porque a gente vivia com medo. Eu tive sorte de
trabalhar em “O Liberal” numa época em que a gente tinha uma cobertura. Um
apoio do dono do jornal. Eu cito, mesmo, o nome dele, o Romulo Maiorana, o pai.
A gente tinha uma certa segurança. Eu não me lembro, a não ser uma, eu sei lá,
chego a falar de milhares de reportagens que eu fiz. Eu não sei se alguma vez
alguma minha se desencaminhou e sumiu, aquela coisa toda de dentro de redação.
Fora isso não.”
Já o jornalista Manoel Bulcão, hoje aos
81 anos, contou que entre 1964 e 1971 foi preso “por umas cinco ou seis vezes”.


“A primeira
vez, eu passei do dia 1º ao dia 13 de abril. Fui preso em abril de 1964. Fiquei
na 5ª Companhia (atual Casa das 11 Janelas) até meados de maio. Sei que nesse
tempo fiz até um desfile, aí na Praça (da República), às 11 da manhã. A 5ª
Companhia não tinha transporte para me levar ao QG, e eu tive que ir a pé, com
a patrulha do Exército de metralhadora nas minhas costas, às 11 horas da
manhã.”
(…)
“O problema
das prisões, o problema de eu ser alvo realmente de um movimento militar que
houve, foi dos artigos que eu escrevia no Flash. Esses artigos foram o que
realmente acabou me marcando como um perigoso subversivo”.
Na primeira vez que fui
preso, me levaram pra uma sala, uma visão boa da Baía (do Guajará) e dentro
dessa sala tinha uma porta aonde se encontrava preso o Jinkings, Raimundo
Jinkings, ele estava na cela realmente. Em abril de 64, foi logo depois que
ocorreu o golpe”.
Processado por subversão, Bulcão, durante um período, era obrigado
a fazer visitas periódicas a Fortaleza, no Ceará.
“Esse
processo me obrigou em certa época a todo mês ir para Fortaleza, porque o
processo foi desaforado daqui em função do impedimento do Promotor e nós éramos
obrigados a todo mês ir para Fortaleza em função das audiências. Nisso ia eu,
Bené Monteiro, o Jinkings, Ruy Barata, fazíamos uma reunião todo mês em
Fortaleza e por nossa conta, diga-se de passagem.”
A acusação era “subversão. E o pior era que nesse processo,
inclusive, tenho cópia da sentença que absolveu todos os indiciados.” Documento
este que entregou à Comissão da Verdade do Sinjor-PA.
O episódio da invasão da gráfica Suyá, ganha mais detalhes na voz
de Boução. Segundo ele, o delegado Moisés de Souza foi responsável pela ação e
registros, e foram violentamente espancados.
“O evento
aconteceu todo dentro do espaço da Suyá onde era impresso o jornal Resistência.
(…) Foram seis pessoas algemadas, eu e o Maklouf, o Daniel Veiga que era o
diretor da gráfica com outro jornalista, o João Vital, e os dois gráficos, o
Alberdan Batista e mais outro que agora não recordo o nome, e mais outras
pessoas acabaram sofrendo a pressão psicológica porque estavam no ambiente. Lá
reuniam jornalistas, gráficos, clientes em geral da gráfica. Foi uma situação
em que apanhamos muito, fomos literalmente espancados. Ao final do processo
eles nos expuseram o ponto de vista de que o que estávamos fazendo era uma
bagunça generalizada porque na época ia ser rezado o Círio aonde ia haver
manifestação contra a prisão dos padres Aristides (Camio) e Padre Francisco (Gouriou)
e mais três posseiros. Havia um movimento de libertação desses presos e a
gráfica estaria produzindo material para divulgação, o que poderia ser feito,
porque não era uma gráfica pública, poderia ser contratada para fazer um
trabalho legal de divulgação de qualquer material. Quer dizer, essa foi a
motivação e alegação que os policiais, e esse delegado em particular, fizeram
aos quatro ventos para todos que estavam presentes, tentando desqualificar as
pessoas, em tese, presas e algemadas, batidas, forçadas a se sentir como
bandidos ou como pessoas estranhas no momento político do País.
Miguel Chikaoka, na época, foi o primeiro jornalista a fazer
fotografia engajada na luta política, as primeiras fotos sobre movimento
social, de denúncia sobre violação de direitos humanos, queimadas e outras
coisas mais.
Na sentença que condenou o Brasil pelos
crimes do Araguaia, a Corte Interamericana ordenou que “o Estado deve conduzir eficazmente, perante a jurisdição ordinária, a
investigação penal dos fatos do presente caso [graves violações aos direitos
humanos durante a Guerrilha do Araguaia] a fim de esclarecê-los, determinar as
correspondentes responsabilidades penais e aplicar efetivamente as sanções e
consequências que a lei preveja
”. A decisão deve ser obedecida, até porque
o País aderiu ao sistema interamericano de direitos humanos. Vale frisar que a
responsabilidade é do Estado brasileiro. Mas a criação da Comissão da Verdade
do Estado do Pará é, sim, da maior importância, haja vista que o Pará foi uma
das unidades da Federação mais impactadas pela ditadura.

Nada trará de volta as vítimas do
regime, tampouco o equilíbrio aos que sofreram toda ordem de violência física e
psicológica, causando traumas irreparáveis. Mas a Comissão fortalece os valores
democráticos e traz esperança às famílias dos desaparecidos de que cheguem ao
fim os intermináveis momentos de angústia e incertezas que se espraiam desde a
época do terror. E as novas gerações precisam ter conhecimento de que milhares
de pessoas pagaram o preço da luta pela construção de uma sociedade mais justa com
a tortura e a morte.



Colaboração do jornalista Luis Nassif: o nome correto do jornalista paraense que trabalhava na revista Veja, preso e torturado em São Paulo, é Renato Soares.

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