Publicado em: 2 de julho de 2026
O uso do machismo como ferramenta política revela um projeto autoritário global que busca restringir a participação feminina e corroer as bases das democracias liberais.
O recente episódio em que o influenciador e empresário bolsonarista Paulo Figueiredo declarou publicamente que mulheres “votam estatisticamente muito mal” transcende a mera provocação de internet ou o embate paroquial com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Esta formulação misógina, que sugere que mulheres solteiras são incapazes de escolhas políticas racionais e que as casadas deveriam ser apêndices eleitorais de seus maridos, é a ponta do iceberg de um projeto político transnacional altamente sofisticado. Longe de ser um pensamento isolado ou um deslize retórico, a fala de Figueiredo opera como uma correia de transmissão de uma ideologia forjada, testada e atualmente em franca expansão nos Estados Unidos: o nacionalismo cristão, amalgamado com os instintos mais reacionários da chamada direita alternativa, ou “alt-right”. Para compreender a gravidade desse fenômeno e o risco existencial que ele impõe às democracias contemporâneas, é imperativo descer às raízes históricas desse movimento nos Estados Unidos, analisar sua simbiose com o Partido Republicano, sua ascensão ao núcleo do poder na era de Donald Trump e, finalmente, os mecanismos pelos quais essa guerra cultural é exportada e adaptada para o solo brasileiro, encontrando terreno fértil no crescente poderio político de setores evangélicos ultraconservadores. Como argumentam os sociólogos Philip S. Gorski e Samuel L. Perry em sua obra fundamental The Flag and the Cross: White Christian Nationalism and the Threat to American Democracy, o nacionalismo cristão não é primariamente uma religião, mas uma ideologia política e cultural que funde o nativismo, o autoritarismo e o patriarcalismo sob o verniz da linguagem religiosa, criando uma estrutura de poder que exclui e subjuga aqueles que não se enquadram em seu molde estrito.
A gênese do atual nacionalismo cristão estadunidense remonta às profundas fraturas sociais das décadas de sessenta e setenta, período marcado pelas conquistas do movimento pelos direitos civis, pela revolução sexual e pela segunda onda do feminismo. A reação conservadora a essas transformações começou a ganhar contornos institucionais com a formação da “Maioria Moral” (Moral Majority), liderada pelo pastor Jerry Falwell e pelo estrategista político Paul Weyrich no final dos anos setenta. Até aquele momento, grande parte dos evangélicos americanos mantinha uma postura de distanciamento da política partidária, considerando-a uma esfera mundana e corrupta. No entanto, decisões da Suprema Corte que proibiram a oração obrigatória em escolas públicas, a legalização do aborto com o julgamento do caso Roe v. Wade em 1973 e a iminência da aprovação da Emenda de Direitos Iguais (Equal Rights Amendment – ERA) serviram como catalisadores para a politização em massa desse grupo demográfico. O historiador Benjamin A. Cowan, em Moral Majorities across the Americas: Brazil, the United States, and the Creation of the Religious Right, demonstra como essa articulação não foi um fenômeno isolado, mas parte de uma rede transnacional de conservadores que viam na emancipação feminina e na secularização ameaças diretas à civilização ocidental. Figuras como Phyllis Schlafly lideraram o movimento contra a igualdade de gênero nos Estados Unidos, argumentando que a emancipação destruiria a família tradicional, obrigaria mulheres a servirem nas forças armadas e aboliria os papéis divinamente ordenados para homens e mulheres. Esse foi o embrião da politização da misoginia sob um manto de proteção moral e religiosa, estabelecendo a premissa de que o avanço dos direitos das mulheres representava uma ameaça direta à ordem cristã e à própria identidade da nação americana.
Ao longo das décadas seguintes, essa direita religiosa consolidou-se como uma base eleitoral indispensável para o Partido Republicano, mas sua natureza ideológica passou por uma mutação profunda e alarmante. O que antes era um movimento focado em pautas morais específicas, como a oposição ao aborto e ao casamento homoafetivo, radicalizou-se em direção a uma visão teocrática e identitária. Andrew L. Whitehead e Samuel L. Perry, ao analisarem o fenômeno no livro Taking America Back for God: Christian Nationalism in the United States, explicam que essa vertente ideológica não busca apenas influenciar políticas públicas com base em valores cristãos, mas defende a crença fundamental de que os Estados Unidos foram fundados como uma nação explicitamente cristã e que o governo federal deve tomar medidas ativas para manter e impor essa herança cultural e religiosa. Nesse arcabouço, a separação entre Igreja e Estado é vista como uma anomalia histórica ou uma conspiração secularista. O nacionalismo cristão funde a identidade religiosa com o nativismo branco e o patriarcalismo estrito, criando uma narrativa de vitimização na qual o homem cristão, conservador e heterossexual estaria sob ataque constante das forças do progressismo, do feminismo e do globalismo. Essa narrativa exige não apenas resistência, mas uma reconquista agressiva das instituições, justificando o uso de táticas antidemocráticas para preservar o que consideram ser a verdadeira essência da nação.
A ascensão de Donald Trump à presidência em 2016 e a subsequente consolidação de seu controle absoluto sobre o Partido Republicano representaram o ápice desse processo de aparelhamento institucional. Embora Trump não possuísse um histórico de devoção religiosa ou moralidade tradicional, ele ofereceu ao nacionalismo cristão um pacto transacional que nenhum outro político conservador havia entregado com tamanha eficácia e crueza. Em troca de apoio eleitoral incondicional, Trump prometeu e entregou a nomeação de juízes ultraconservadores para cortes federais e, crucialmente, para a Suprema Corte, culminando na reversão histórica de Roe v. Wade em 2022. Essa vitória monumental para a direita religiosa enriqueceu o capital político do trumpismo e demonstrou que as pautas mais extremas do movimento poderiam, de fato, ser convertidas em política de Estado. Durante seu governo e nas campanhas subsequentes, a retórica do Partido Republicano abandonou o conservadorismo fiscal tradicional para abraçar integralmente a guerra cultural, transformando o combate aos direitos reprodutivos, à teoria de gênero e à autonomia feminina no núcleo de sua plataforma política. A aliança entre o trumpismo e o evangelicalismo radical provou que a moralidade pessoal do líder era irrelevante desde que ele atuasse como um instrumento de força para impor a agenda teocrática sobre a totalidade da população americana.
Dentro desse ecossistema radicalizado, a “alt-right” e a chamada “manosphere” (machosfera) encontraram um ponto de convergência perfeito com o nacionalismo cristão: a restauração do patriarcado como pilar inegociável da ordem social. É nesse contexto específico que o discurso sobre o “voto feminino” ressurge não como um debate marginal de fóruns obscuros, mas como uma pauta política articulada e vocalizada por figuras públicas. Influenciadores da extrema direita americana, como o supremacista Nick Fuentes e outros ideólogos do movimento “America First”, passaram a questionar abertamente a 19ª Emenda da Constituição dos EUA, que garantiu o sufrágio feminino em 1920. A tese central desses grupos é que a entrada das mulheres na política corrompeu o sistema democrático, pois, segundo eles, as mulheres seriam inerentemente mais propensas a votar com base em emoções, a apoiar o Estado de bem-estar social e a rejeitar políticas de força, hierarquia e autoridade. Estudos recentes, como o conduzido por James R. Piazza, intitulado Christian nationalism, apocalypticism, outgroup hate, and support for violent extremism, demonstram como a adesão a essas crenças extremistas está diretamente correlacionada com a hostilidade contra grupos externos e com a aceitação da violência política. Paralelamente, o fenômeno das “TradWifes” (esposas tradicionais) ganhou tração nas redes sociais, promovendo uma estética romantizada da submissão feminina e da domesticidade dos anos cinquenta, servindo como ferramenta de propaganda para convencer mulheres mais jovens de que o feminismo as enganou e que a verdadeira realização reside na subserviência inquestionável ao marido provedor.
A exportação dessa arquitetura ideológica para o Brasil não ocorre por acaso, inércia ou mera coincidência cultural; ela é o resultado de um esforço deliberado de articulação transnacional da extrema direita, que enxerga o mundo como um tabuleiro global de guerra cultural. Figuras como Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, há muito tempo identificaram o Brasil como um laboratório crucial para o populismo de direita. O bolsonarismo, desde sua ascensão, estabeleceu canais diretos de comunicação e cooperação com o movimento MAGA (Make America Great Again), importando não apenas estratégias de marketing digital e táticas de desinformação em massa, mas também o núcleo duro de suas pautas reacionárias. Paulo Figueiredo, operando a partir dos Estados Unidos e possuindo trânsito livre entre as alas radicais do conservadorismo americano e a base bolsonarista no Brasil, atua como um tradutor e amplificador dessas narrativas. Ao afirmar que “mulher vota estatisticamente muito mal”, ele não está formulando um pensamento original, mas reciclando a exata retórica da “alt-right” americana para o público brasileiro. O objetivo dessa importação é testar os limites da Janela de Overton — o espectro de ideias aceitáveis no discurso público — e tentar normalizar a misoginia estrutural como uma posição política legítima e defensável. O fato de essa agressão ter sido direcionada a Michelle Bolsonaro, uma figura proeminente da própria direita, revela que o patriarcalismo extremista não tolera a autonomia feminina nem mesmo quando exercida por suas aliadas ideológicas; a mulher, nessa visão de mundo, deve permanecer invariavelmente em posição de subordinação.
No Brasil, essa narrativa importada encontra um terreno singularmente fértil devido ao crescimento exponencial e à profunda transformação política do segmento evangélico, em especial as denominações neopentecostais. O antropólogo Ronaldo de Almeida, em sua análise sobre a onda conservadora no livro A onda quebrada: evangélicos e conservadorismo, detalha como a participação evangélica na política brasileira era historicamente pautada por um pragmatismo fisiológico, focado na defesa de interesses corporativos das igrejas, como isenções fiscais e concessões de rádio e televisão, frequentemente aliando-se a governos de diferentes matizes ideológicos. Contudo, a partir da década de 2010, e consolidando-se de forma hegemônica na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, a Frente Parlamentar Evangélica e as grandes lideranças religiosas do país adotaram uma postura de beligerância ideológica total. O discurso da “teologia do domínio”, que prega que os cristãos devem ocupar e governar todas as esferas da sociedade (incluindo a política, a mídia, a arte e a educação), passou a dar o tom das campanhas eleitorais e da atuação parlamentar. A pauta moral, centrada na oposição feroz aos direitos LGBTQIA+, na criminalização absoluta do aborto e na defesa de uma visão patriarcal e excludente de família, tornou-se o principal motor de mobilização de milhões de eleitores, fundindo a fé religiosa com o extremismo político de direita.
A convergência entre o bolsonarismo e o nacionalismo cristão de matriz americana cria uma tempestade perfeita para a estabilidade da democracia brasileira. Quando líderes de opinião com vasta audiência começam a propagar impunemente que mulheres solteiras são eleitoras disfuncionais e que mulheres casadas devem ser tuteladas politicamente por seus maridos, o objetivo não é apenas ofender, gerar engajamento nas redes sociais ou polemizar; o objetivo central é deslegitimar a autonomia cívica de mais da metade do eleitorado nacional. Esse tipo de discurso ataca o princípio basilar da democracia liberal: a premissa inegociável de que todos os cidadãos são dotados de igual capacidade e direito de participar da formação da vontade política do Estado. A misoginia, nesse contexto específico, deixa de ser apenas um preconceito individual ou uma herança cultural anacrônica e passa a operar como um projeto de poder autoritário. Se a premissa de que certos grupos “votam mal” for aceita e normalizada no debate público, o passo seguinte na escalada autoritária é a formulação de justificativas para a restrição dos direitos políticos desses mesmos grupos, seja por meio de barreiras institucionais, seja pela intimidação, coerção social e violência política.
O risco de que o Brasil siga o caminho de retrocessos institucionais já observados nos Estados Unidos e em outras partes do mundo é severamente agravado pela fragilidade histórica de nossa cultura democrática e pela polarização crônica que paralisa o país. Como alertam os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as democracias morrem, o colapso dos regimes democráticos contemporâneos raramente ocorre por meio de golpes militares clássicos, mas sim pela erosão gradual das normas não escritas de tolerância mútua e reserva institucional, frequentemente perpetrada por líderes eleitos que utilizam as próprias instituições para subvertê-las. Nos Estados Unidos, o aparelhamento do Partido Republicano pelo nacionalismo cristão demonstrou que instituições democráticas seculares podem ser capturadas por dentro. A reversão de direitos reprodutivos, a censura sistemática de livros em escolas públicas e a proliferação de legislações estaduais que visam restringir o acesso ao voto de minorias são provas cabais de que a extrema direita não se contenta em vencer debates no campo das ideias; ela busca alterar a estrutura legal para perpetuar sua hegemonia de forma irreversível. O filósofo Marcos Nobre aponta, em Ponto-final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia, que o projeto bolsonarista sempre teve como horizonte a destruição do pacto constitucional de 1988. A tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023 evidenciou a disposição de setores radicalizados de romper violentamente com a ordem constitucional. A injeção contínua de pautas misóginas e teocráticas nesse caldo de radicalismo serve para manter a base mobilizada, fanatizada e pronta para rejeitar qualquer resultado eleitoral ou decisão judicial que não confirme sua visão de mundo excludente.
Reagir a esse cenário de obscurantismo crescente exige uma compreensão profunda de que não estamos lidando com adversários políticos tradicionais dispostos a negociar dentro das regras do jogo, mas com um movimento reacionário que rejeita as premissas fundamentais da modernidade, do iluminismo e dos direitos humanos universais. A defesa da democracia não pode se limitar à retórica institucional vazia ou a notas de repúdio; ela requer uma ação enérgica, coordenada e multifacetada da sociedade civil, da imprensa investigativa, do sistema de justiça e das forças políticas progressistas e moderadas. Em primeiro lugar, é imperativo reafirmar e proteger a laicidade do Estado de forma intransigente e pedagógica. A separação entre religião e política não é um ataque à fé ou à liberdade religiosa, mas a única garantia institucional de que cidadãos de todas as crenças, ou de nenhuma, possam coexistir pacificamente sob o império da lei. A tolerância complacente com discursos que utilizam dogmas religiosos para justificar a supressão de direitos civis, especialmente os das mulheres e das minorias sexuais, é o caminho mais curto e perigoso para a instauração de uma tirania teocrática.
Além da defesa institucional, é urgente promover uma contraofensiva robusta no campo da educação política e da comunicação de massa. A extrema direita tem sido extraordinariamente hábil em utilizar as redes sociais e os algoritmos de engajamento para criar câmaras de eco impenetráveis, onde a desinformação, o machismo estrutural e o fanatismo religioso se retroalimentam diariamente. Desconstruir essas narrativas tóxicas exige expor publicamente suas origens estrangeiras, seus financiadores ocultos e seus objetivos políticos reais. Quando figuras como Paulo Figueiredo atacam o voto feminino, a resposta pública deve ir muito além da justa indignação moral; deve evidenciar com clareza didática como esse discurso serve a um projeto calculado de concentração de poder nas mãos de uma elite patriarcal, branca e autoritária. O fortalecimento de lideranças femininas na política institucional, a garantia de paridade de gênero em todos os espaços de decisão pública e privada, e o apoio irrestrito a movimentos sociais que defendem a igualdade substantiva são antídotos vitais contra a tentativa de invisibilizar e silenciar as mulheres na esfera pública.
O momento histórico atual exige uma vigilância cívica constante e ininterrupta. O avanço do nacionalismo cristão e da misoginia politizada nos Estados Unidos, com suas vitórias nas cortes e sua captura de um dos principais partidos políticos do país, serve como um espelho assustador do que pode se consolidar no Brasil se não houver uma resistência democrática à altura do desafio. A democracia não é um estado natural das sociedades humanas, tampouco é garantida de forma permanente por decretos constitucionais; ela é uma construção cultural e institucional frágil que demanda defesa ativa e renovação diária. O combate ao obscurantismo que tenta calar a voz das mulheres nas urnas e relegá-las à submissão doméstica é, em sua essência mais profunda, a luta pela sobrevivência do próprio Estado Democrático de Direito. Aceitar retrocessos nos direitos civis femininos sob o pretexto de respeitar tradições religiosas, costumes conservadores ou a pluralidade de opiniões divergentes seria o primeiro e fatal passo para a capitulação total diante do autoritarismo. A resposta a esse projeto de poder não pode ser a moderação acovardada, mas sim a radicalização da própria democracia, garantindo que ela seja cada vez mais inclusiva, plural, igualitária e absolutamente inegociável em seus princípios de dignidade humana.
Referências
ALMEIDA, Ronaldo de. A onda quebrada: evangélicos e conservadorismo. Campinas: Editora Unicamp, 2019.
COWAN, Benjamin A. Moral Majorities across the Americas: Brazil, the United States, and the Creation of the Religious Right. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2021.
GORSKI, Philip S.; PERRY, Samuel L. The Flag and the Cross: White Christian Nationalism and the Threat to American Democracy. Nova York: Oxford University Press, 2022.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
NOBRE, Marcos. Ponto-final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia. São Paulo: Todavia, 2020.
PIAZZA, James R. Christian nationalism, apocalypticism, outgroup hate, and support for violent extremism. Defence and Peace Economics, 2026.
WHITEHEAD, Andrew L.; PERRY, Samuel L. Taking America Back for God: Christian Nationalism in the United States. Nova York: Oxford University Press, 2020.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










Comments