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sobre as três escolas de psicoterapia de Viena, suas rupturas teóricas, suas relações biográficas e as dimensões temporais da psique no crepúsculo do Império Austro-Húngaro

A Viena do final do século XIX e alvorecer do século XX erguia-se como um verdadeiro cadinho de contradições, um palco crepuscular onde o esplendor do Império Austro-Húngaro dançava sua última valsa à beira do abismo histórico. Era uma metrópole de efervescência intelectual ímpar, cujos cafés esfumaçados abrigavam mentes que reescreveriam os destinos da arte, da filosofia, da música e, de modo indelével, da compreensão da alma humana. Enquanto Gustav Klimt adornava a lona com o erotismo dourado de sua secessão, e Gustav Mahler compunha sinfonias que ecoavam a angústia de uma era em transição, a capital imperial respirava um ar saturado de repressão moral vitoriana e fervilhante inquietação existencial. Neste exato epicentro geográfico e espiritual, o Zeitgeist vienense fertilizou o terreno para o surgimento das três grandes escolas de psicoterapia, forjadas por três titãs do pensamento cujas vidas e obras se entrelaçaram nas ruas de paralelepípedos da mesma cidade: Sigmund Freud, Alfred Adler e Viktor Frankl. 

A convivência entre esses três arquitetos da psique não é um mero capricho da historiografia, mas uma realidade tangível, tecida por encontros, correspondências, discipulados e rupturas dramáticas. Sigmund Freud, o patriarca inconteste, inaugurou o que viria a ser conhecido como a Primeira Escola Vienense de Psicoterapia: a Psicanálise. Em 1902, Freud reuniu ao seu redor um seleto grupo de intelectuais na célebre Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, cujos encontros ocorriam na sala de espera de seu consultório, na Berggasse 19. Entre os primeiros convidados a cruzar aquela porta estava um jovem e brilhante médico chamado Alfred Adler. Durante quase uma década, Adler caminhou lado a lado com Freud, absorvendo a atmosfera psicanalítica, embora sua mente já germinasse as sementes de uma dissidência inevitável. A ruptura ocorreu em 1911, quando as divergências teóricas se tornaram irreconciliáveis, levando Adler a renunciar à presidência da Sociedade Psicanalítica de Viena e a fundar a Segunda Escola Vienense: a Psicologia Individual. Mais tarde, o destino teceria o terceiro fio dessa tapeçaria com Viktor Frankl. Nascido em 1905, Frankl era apenas um adolescente brilhante quando iniciou uma correspondência por cartas com o já consagrado Freud. Impressionado com o intelecto do jovem, Freud enviou um dos manuscritos de Frankl para publicação no Jornal Internacional de Psicanálise em 1924. Contudo, o espírito inquieto de Frankl logo o afastou do determinismo freudiano, atraindo-o para o círculo de Alfred Adler. Frankl tornou-se um membro ativo da sociedade adleriana, mas, repetindo o ciclo de parricídio intelectual que caracteriza a evolução do pensamento, também foi expulso do grupo de Adler em 1927, por ousar questionar os limites da Psicologia Individual e propor uma visão que transcendesse o mero aspecto social e psicológico, adentrando a esfera espiritual e filosófica. Assim, nascia o embrião da Terceira Escola Vienense: a Logoterapia.

Para compreender a magnitude dessas três abordagens, é imperativo mergulhar na arqueologia da mente proposta por Sigmund Freud, cuja teoria ancorou-se de forma inexorável na dimensão do passado. Na visão freudiana, o ser humano é, em grande medida, um prisioneiro de sua própria história, uma criatura cujos fios invisíveis são puxados por traumas de infância, desejos reprimidos e pulsões biológicas que habitam o vasto e sombrio oceano do inconsciente. A psicanálise freudiana é um exercício de escavação retrospectiva. O presente do indivíduo é visto como um sintoma, uma repetição disfarçada de conflitos não resolvidos que jazem soterrados sob as camadas da civilização e da censura moral. Freud postulou que a força motriz primordial da existência humana é a Vontade de Prazer, impulsionada pelas pulsões de vida (Eros) e, posteriormente em sua obra, pelas pulsões de morte (Thanatos). O sofrimento, a neurose e a histeria — tão prevalentes na sociedade vienense da época, que exigia uma fachada de decoro enquanto ocultava desejos inconfessáveis — nasciam do choque violento entre os instintos primitivos do Id e as severas restrições punitivas do Superego. 

Em suas obras monumentais, como “A Interpretação dos Sonhos” e “O Mal-Estar na Civilização”, Freud delineou uma visão de mundo onde o homem é essencialmente um campo de batalha de forças obscuras e irracionais. A cura, portanto, residia na catarse e na tomada de consciência, no doloroso processo de olhar para trás, deitar-se no divã e, através da associação livre, permitir que os fantasmas do passado emergissem à luz do presente para serem exorcizados. O tempo freudiano é o tempo do “já ocorrido”; o sujeito é um produto de sua ontogenia, determinado por complexos edípicos e fases psicossexuais que moldaram seu caráter antes mesmo que ele pudesse articular sua própria vontade. A genialidade de Freud consistiu em revelar que não somos senhores em nossa própria casa, mas sua limitação, aos olhos de seus sucessores, foi aprisionar o homem em uma masmorra determinista, onde o olhar está perpetuamente voltado para o retrovisor da existência, buscando nas sombras da infância a explicação para todas as dores do agora.

Foi exatamente contra esse peso esmagador do passado e esse reducionismo biológico e sexual que Alfred Adler ergueu a sua voz, promovendo uma revolução copernicana na forma de conceber a psique humana. Se Freud olhava para as profundezas do que fomos, Adler voltou o seu olhar telescópico para o horizonte do que desejamos ser. 

Se a psicanálise freudiana se erigiu sobre a premissa da causalidade, buscando nos porões da infância os fantasmas que assombram a vida adulta, Alfred Adler inaugurou a era da teleologia na psicologia. Para o fundador da Psicologia Individual, o homem não é um mero joguete de suas pulsões biológicas ou um prisioneiro de seu passado, mas um arquiteto de seu próprio destino, inexoravelmente puxado pelas metas que estabelece para o seu futuro. A genialidade de Adler consistiu em compreender que a chave para decifrar a alma humana não reside naquilo de que fugimos, mas naquilo em direção a que corremos. Em sua obra magna, “O Caráter Neurótico”, publicada em 1912, logo após sua dolorosa cisão com o círculo freudiano, Adler delineou a tese de que todo indivíduo nasce em um estado de profunda desvantagem biológica e social. A criança, frágil e dependente, experimenta o mundo a partir de uma posição de inferioridade. Contudo, longe de ser uma patologia, esse sentimento de inferioridade é, para Adler, o motor universal do desenvolvimento humano. É a centelha que acende a “Vontade de Poder” — ou, em traduções mais precisas de seu pensamento maduro, a “Vontade de Superação” e a busca pela perfeição. 

Neste intrincado balé psíquico, o passado perde sua soberania tirânica e cede lugar ao futuro como a verdadeira força gravitacional da psique. Adler, profundamente influenciado pela filosofia do “Como Se” de Hans Vaihinger, postulou que os seres humanos criam “finalismos fictícios”, objetivos ideais e muitas vezes inconscientes que orientam cada ação, pensamento e emoção no presente. O indivíduo neurótico, na concepção adleriana, é aquele cujo objetivo de superioridade tornou-se rígido, egoísta e descolado da realidade, uma supercompensação desesperada por um complexo de inferioridade mal resolvido. A cura, portanto, não se dá pela escavação de traumas reprimidos no divã, mas pela reeducação do paciente frente a si mesmo e à sociedade. A psicoterapia de Adler era notavelmente diferente da de Freud: face a face, em um diálogo igualitário, o terapeuta adleriano buscava desvendar o “estilo de vida” do paciente, revelando como suas metas futuras estavam sabotando sua existência presente. Mais do que isso, Adler introduziu uma dimensão até então negligenciada pela psicanálise clássica: o contexto social. Para ele, a saúde mental era indissociável do Gemeinschaftsgefühl, o sentimento de comunidade ou interesse social. O homem é, em sua essência, um ser relacional, e a verdadeira superação não se encontra no triunfo narcísico sobre os outros, mas na contribuição útil e cooperativa para a teia da humanidade. Assim, a Segunda Escola Vienense deslocou o eixo da psicologia do determinismo biológico para a responsabilidade social, e do peso do passado para a promessa do futuro.

Contudo, a marcha implacável da história e as inquietações do espírito humano exigiam um passo além. Se Freud explicou o homem como um ser impulsionado pela busca do prazer e Adler o definiu como um ser puxado pela busca de poder e pertencimento, foi Viktor Frankl quem percebeu que, mesmo quando o homem alcança o prazer e conquista o poder, ele ainda pode ser assombrado por um abismo aterrorizante: o vazio existencial. Frankl, que havia caminhado pelos corredores da psicanálise e militado nas fileiras da psicologia individual antes de ser expulso por sua audácia filosófica, fundou a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, a Logoterapia, sobre o pilar da “Vontade de Sentido”. Para Frankl, a motivação primária e mais nobre do ser humano não é a satisfação de instintos nem a adaptação social, mas a busca incessante por um significado para a própria existência. Em uma Viena que logo seria engolida pelas trevas do nazismo, Frankl desenvolveu uma ontologia dimensional que resgatava a dimensão espiritual — noética, em seus termos, desprovida de conotação estritamente religiosa — do ser humano, devolvendo-lhe a dignidade que o reducionismo psicológico ameaçava usurpar.

A psicoterapia frankliana opera uma revolução temporal ao ancorar a salvação do homem no presente, o único tempo onde a liberdade e a responsabilidade podem ser exercidas. Enquanto Freud dissecava o passado e Adler projetava o futuro, Frankl afirmava que o sentido da vida não é uma abstração distante nem um trauma a ser superado, mas um chamado concreto que a vida nos faz a cada instante, no aqui e no agora. Em sua obra mais universalmente aclamada, “Em Busca de Sentido”, escrita após sua libertação dos campos de extermínio de Auschwitz e Dachau, Frankl não apenas narrou o horror indizível do Holocausto, mas ofereceu a prova empírica e definitiva de sua teoria. Nos campos da morte, onde todo prazer foi aniquilado e todo poder foi reduzido a cinzas, aqueles que mantiveram a chama de um propósito — fosse o amor por um ente querido, uma obra inacabada a escrever ou a simples decisão de manter a dignidade diante dos algozes — encontraram a força para sobreviver. A Logoterapia ensina que o homem é incondicionalmente livre para escolher sua atitude frente a qualquer circunstância, mesmo aquela que não pode alterar. O sofrimento inevitável, quando iluminado pelo sentido, deixa de ser desespero e converte-se em sacrifício e triunfo humano.

A relação entre esses três gigantes, portanto, transcende a mera geografia vienense; ela forma a dialética fundamental da psicologia moderna. Freud, o arqueólogo da mente, ensinou-nos que não podemos ignorar as fundações obscuras de nosso passado, pois as pulsões reprimidas cobrarão seu preço na forma de neuroses. Ele nos deu a profundidade. Adler, o arquiteto social, demonstrou que somos seres em devir, moldados pelas metas futuras que escolhemos e pela nossa capacidade de tecer laços de solidariedade com nossos semelhantes. Ele nos deu a direção e a amplitude. Frankl, o filósofo da existência, revelou que, independentemente das feridas do passado ou das incertezas do futuro, o homem é convocado, no altar do presente, a responder às perguntas que a vida lhe faz, descobrindo sentido na criação, no amor e na coragem diante da dor. Ele nos deu a transcendência. 

Nesta Viena de valsas melancólicas e cafés literários, o pensamento humano foi dissecado em suas três dimensões temporais e existenciais. O determinismo freudiano, o finalismo adleriano e o existencialismo frankliano não são, em última análise, verdades mutuamente exclusivas que se anulam, mas sim espelhos dispostos em ângulos distintos, refletindo a inesgotável complexidade da condição humana. O homem é, simultaneamente, o herdeiro de sua infância, o construtor de seu amanhã e o único responsável pelo significado que atribui ao seu hoje. A herança dessa tríade vienense permanece como um farol inextinguível, lembrando-nos de que a psique humana é um território vasto demais para ser contido em uma única teoria, exigindo sempre o olhar corajoso daqueles dispostos a descer aos seus abismos, projetar-se em seus horizontes e, sobretudo, encontrar a luz do sentido no efêmero milagre do presente.

REFERÊNCIAS

ADLER, Alfred. O caráter neurótico. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. 

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2019.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1999. 

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin Classics / Companhia das Letras, 2011. 

VAIHINGER, Hans. A filosofia do como se: sistema das ficções teóricas, práticas e religiosas do ser humano. São Paulo: Edições 70, 2021. 

Foto em destaque: a tríade Freud, Adler e Frankl.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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