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Entre matrizes indígenas, africanas e europeias, a utopia trágica de uma nação em gestação — e a promessa de uma modernidade mestiça por realizar

Darcy Ribeiro emerge como um desses raros intelectuais cuja obra não descreve um país, mas o convoca; não interpreta uma nação, mas a inaugura; não oferece uma teoria, mas um gesto fundador. Seu pensamento se constitui como um sopro inaugural, uma interpelação dirigida à própria matéria viva da brasilidade. Ele escreve como quem escava e como quem semeia, simultaneamente; como quem encontra ruínas e como quem ergue pilares; como quem recolhe cacos e, no próprio gesto de recolhêlos, funda uma estética do estilhaço. Sua obra inteira é atravessada por uma convicção que não é apenas intelectual, mas visceral: o Brasil está por nascer. Essa frase, que em muitos poderia soar como metáfora vazia, em Darcy se torna chave conceitual, eixo epistêmico, princípio ontogenético.

O país, ao contrário do que proclamam as elites que tentaram encarcerálo em uma narrativa de atraso, não é um equívoco histórico nem um acidente mal resolvido: é possibilidade aberta, promessa latente, potência em elaboração. A nação não se apresenta como entidade consolidada, mas como devir civilizatório. Esse devir não é entendido de modo leve ou superficial; ele é trágico, denso, atravessado por violência e metamorfose, por fraturas e ressurgências. Entretanto, é justamente a partir desse reconhecimento — da dor, da ruptura, da ausência de garantias — que Darcy tece sua esperança profunda, uma esperança que não é conforto, mas combate. O Brasil, diz ele, não terminou de se formar; por isso mesmo, pode vir a ser.

No cerne dessa visão está o conceito de povo em ser, talvez a formulação antropológica mais inovadora já produzida no Brasil. O povo em ser não designa uma população que falta; designa uma população que transborda. Não é categoria do déficit, mas da latência. Somos um povo que ainda não chegou a si mesmo porque não herdou uma forma estável. Somos povo que se faz enquanto caminha, que inventa seus sentidos enquanto improvisa a própria sobrevivência. O povo brasileiro é, segundo Darcy, a única grande coletividade do Ocidente que ainda está se formando; não por incapacidade, mas por privilégio histórico. A incompletude não é falha: é possibilidade.

Esse processo de formação contínua só pode ser compreendido quando se encara a mestiçagem não como simples hibridismo biológico, mas como dinâmica civilizatória. Darcy dedica grande parte de sua obra — especialmente em O Povo Brasileiro e O Processo Civilizatório — à demonstração de que a mestiçagem é força produtora, motor histórico, máquina de mundos. A mestiçagem brasileira não é, em sua visão, conciliação harmônica ou mito pacificador. É tensão, conflito, abrasão. É choque entre matrizes indígenas, africanas e europeias, mas um choque que, longe de gerar destruição absoluta, produz sínteses inesperadas, invenções culturais, cosmologias híbridas, sensibilidades próprias. É encontro que fere, mas cria; que destrói, mas recria; que rasga, mas fertiliza.

A violência que marcou essa mestiçagem — escravidão, genocídio indígena, colonização missionária, etnocídios em série — não impede que dela surja algo novo. Darcy insiste que a mestiçagem não é apaziguamento; é memória do trauma transformada em fábula. Suas obras recorrem constantemente a metáforas orgânicas, geológicas, biológicas, para expressar esse processo: somos magma social, somos rio turvo que carrega sedimentos de mundos inteiros, somos floresta que renasce sobre os troncos carbonizados de incêndios seculares. A mestiçagem brasileira, assim entendida, não é apagamento: é invenção.

Daí sua formulação da “nova Roma”. O Brasil não seria uma nova versão do capitalismo atlântico, nem uma cópia tardia das metrópoles europeias, nem uma imitação periférica da modernidade ocidental. O Brasil seria — ou poderia vir a ser — uma nova Roma mestiça: uma civilização tecida de restos e reinvenções, de culturas derrotadas que se reerguem subterraneamente, de povos violentados que se recusam a desaparecer. A nova Roma darcyana não tem colunas de mármore nem templos monumentais; ela tem becos, terreiros, aldeias, favelas, quilombos, rios, florestas. Tem samba, capoeira, toré, maracatu, carimbó. Tem corpos que dançam, rezam, resistem, inventam. É a Roma dos vencidos que se recusam à derrota.

Essa recusa se manifesta com especial intensidade nos que Darcy chamou de ninguéns, habitantes da ninguendade. A ninguendade é categoria que condensa, de modo brutal e poético, a história de extermínio e exclusão a que foram submetidos indígenas, negros, mestiços pobres, sertanejos, subproletários urbanos, trabalhadores precarizados. Eles foram transformados em ninguém pelas estruturas de poder, apagados dos registros oficiais, silenciados nos arquivos coloniais, omitidos dos currículos escolares. Contudo, e é esse o ponto crucial, são eles que criam o Brasil. São os ninguéns que reinventam a língua com ginga, que reinventam a comida com miséria e abundância, que reinventam a fé com sincretismos plurais, que reinventam a cidade com ocupações insurgentes. A ninguendade é, na leitura de Darcy, a zona de mais alta intensidade inventiva do país.

Há aqui um princípio antropológico decisivo: as elites não produzem civilização; o povo produz. A elite brasileira, herdeira direta da casagrande, permanece presa a uma visão de feitoria: extrair, lucrar, exportar. Seu horizonte é estreito; seu imaginário, colonizado. Essa elite sofre do que Darcy chama de estrabismo epistemológico — uma incapacidade profunda de ver o Brasil tal como ele é. Ela identifica atraso onde há originalidade, identifica ameaça onde há criatividade, identifica caos onde há invenção. Para ela, o Brasil autêntico é erro que deve ser corrigido. Para Darcy, é potência que deve ser celebrada.

Essa potência se revela com particular força quando Darcy se aproxima das cosmologias indígenas. Convivendo com os UrubuKaapor, com os Xavante, com os Kadiwéu e outros povos que atravessaram sua vida, ele descobre formas de estar no mundo que desafiam totalmente o antropocentrismo ocidental. Ali, o humano não ocupa o centro; ocupa um entrelugar. A floresta é sujeito. O rio é sujeito. O espírito é sujeito. O cosmos é rede de relações vivas, não estrutura de objetos manipuláveis. Darcy aprende com esses mundos que a diversidade não é obstáculo ao pensamento; é sua própria condição. Ele aprende que os povos indígenas não são prémodernos; são pósmodernos antes do tempo. Eles encarnam uma sabedoria planetária que a modernidade industrial — cega para si mesmo — tentou destruir.

É desse encontro com ontologias outras que nasce sua visão da Amazônia como coração civilizatório. A Amazônia, para Darcy, não é reserva de recursos, nem fronteira agrícola, nem “vazio demográfico”, como quiseram classificála os projetos desenvolvimentistas. A Amazônia é futuro. É arquivo profundo de saberes que, se levados a sério, poderiam reorientar a própria trajetória civilizatória global. Darcy afirma, muito antes da crise climática atingir o centro do debate planetário, que a floresta é indispensável não apenas ao equilíbrio ecológico, mas ao equilíbrio ontológico. Ela oferece ao Brasil — e ao mundo — a possibilidade de imaginar uma modernidade que não seja antinatureza, antissacralidade, antirelação. Ali, nas aldeias e rios, nas folhas largas e nos ventos úmidos, repousa a maior inteligência do país.

Essa intuição se liga diretamente à sua visão da educação como “máquina de fazer gente”. Darcy concebe a escola não como aparelho burocrático, mas como espaço civilizatório de germinação humana. Os CIEPs, com sua proposta de educação integral, eram tentativa concreta de romper a lógica da desigualdade que a elite perpetuou por séculos. Não se tratava apenas de ensinar conteúdos, mas de criar ambientes de cuidado, proteção, afeto e futuro. Darcy sabia que uma criança com fome não aprende, e que um país que não alimenta suas crianças está condenado a repetir ciclos de barbárie. A escola deveria ser, portanto, território de refundação do Brasil. O fracasso desse projeto — derrotado por interesses políticos e econômicos mesquinhos — foi uma das dores que Darcy carrega ao final da vida.

É nesse ponto que sua célebre confissão ganha densidade existencial: “Fracassei em tudo. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras e não consegui. Tentei proteger os índios e não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e não consegui. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e não consegui. Mas os fracassos são as minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Essa confissão, longe de ser derrota pessoal, é afirmação ética. Darcy sabia que falhou porque enfrentou estruturas seculares, porque lutou contra poderes gigantescos — e porque lutou por algo maior do que si mesmo. Sua biografia não é história de um vencedor; é história de um insurgente. E é exatamente essa insurgência que confere ao seu pensamento sua densidade poética. Darcy é herói trágico, não porque sucumbe, mas porque combate sabendo que talvez não veja a aurora que sonha. Sua utopia não é escapismo; é método. Ele pensa o Brasil para tornálo possível.

A utopia trágica darcyana opera como ethos e como método. Não se trata de recusar a realidade, mas de elevála à sua potência máxima. Darcy sabe que o Brasil é país fraturado, sangrado por desigualdades profundas, mutilado por elites que agiram como feitores por séculos. Mas sabe também que o povo brasileiro, apesar dessa história brutal, jamais deixou de criar beleza, solidariedade, ritualidade, festa, linguagem. A festa — essa capacidade de transformar dor em dança, miséria em canto, desastre em riso — é, em sua antropologia, uma categoria política. Não é alienação; é sobrevivência estética. Não é fuga; é resistência.

Nesse ponto, Darcy se aproxima de uma noção de potência spinoziana que atravessa toda a filosofia da vida. O povo brasileiro tem potência porque cria relações, afecções, mundos. Porque afeta e é afetado. Porque inventa formas de sociabilidade onde o Estado só deixou ruínas. Porque cria alegria onde só havia carência. Essa criatividade vital — esse sopro de mundo que brota das periferias, dos quilombos, dos terreiros, das aldeias — é aquilo que Darcy chama de “civilização brasileira”. Não somos civilização porque temos instituições modernas, mas porque temos povos que criam mundos.

É essa compreensão que permite a Darcy afirmar que somos obra aberta. A identidade brasileira não está congelada; está em processo. O país não deve repetir modelos; deve inventar o seu próprio. Essa visão da história como abertura, da sociedade como travessia, do povo como gerador de mundo, é o que faz de Darcy um pensador singular. Ele se recusa a olhar o Brasil com os olhos do colonizador. Ele busca olhar o Brasil com os olhos do Brasil — isto é, com olhos mestiços, plurais, trágicos, inventivos.

Essa reinvenção do olhar é também reinvenção da narrativa. Darcy entende que há uma batalha simbólica em curso: a batalha pelos sentidos do Brasil. A elite tentou controlar essa narrativa, apagando contribuições indígenas, reduzindo a África à escravidão, transformando o Nordeste em problema, as favelas em ameaça, as periferias em silêncio. Darcy, em contrapartida, escreve para devolver o país a seu povo. Sua literatura antropológica não registra apenas fatos; registra pulsações, ritmos, caminhos, sombras, clarões. Ele reescreve o Brasil como quem reescreve um poema interrompido.

E, no entanto, sua esperança não é utopia vazia. É esperança trágica. Darcy acredita que o país pode ser “nova Roma”, pode ser civilização inédita — mas isso exigirá combate, transformação profunda, consciência histórica, projeto coletivo. Exigirá que a educação deixe de ser privilégio, que a Amazônia deixe de ser saque, que os povos indígenas deixem de ser estorvo, que a população negra deixe de ser estatística de morte, que a mestiçagem deixe de ser caricatura. Exigirá que o Brasil reconheça sua própria grandeza.

A grandeza, para Darcy, está justamente em nossa capacidade de invenção. Ele vê no Brasil não uma falta, mas um excesso: excesso de mundos, excesso de práticas, excesso de sentidos. Somos país de muitos tempos, muitos povos, muitas cosmologias. Somos simultaneamente arcaicos e futuristas, ancestrais e inventores. Somos país que canta na beira do abismo. País que transforma lama em poema, ruína em rito, violência em sobrevivência estética. País que dança porque precisa viver. País que vive porque precisa resistir.

Essa dialética entre ruína e invenção, entre tragédia e esperança, entre violência e criação, é o que dá ao pensamento de Darcy sua densidade epistêmica e sua força literária. Ele escreve como quem registra o nascimento contínuo de uma civilização. E essa civilização — por mais que a elite queira negar — já existe. Ela pulsa no corpo do povo, nas falas quebradas, nos vocabulários reinventados, nas festas, nos cultos, nos cantos, nas ruas. Ela está nas mãos que constroem, nas mãos que cuidam, nas mãos que lutam.

O Brasil por vir, assim, não é horizonte distante; é presença latente. Ele está contido no Brasil que já existe, mas que ainda não foi reconhecido. Está contido nos povos indígenas que resistem há cinco séculos. Nos quilombos que sobreviveram aos palmitos de aço. Nas favelas que transformam escassez em estética. Nas periferias que inventam ritmos que o mundo todo dança. Nas florestas que armazenam futuros. Nas crianças que Darcy quis educar integralmente e que, mesmo sem seus CIEPs, continuam capazes de sonhar.

O pensamento de Darcy Ribeiro, em sua inteireza, é uma convocação: concluir o Brasil. Não no sentido de encerrálo, mas de libertálo de suas formas coloniais. Concluir o Brasil significa permitir que o povo em ser tornese povo se sendo — povo que, consciente de sua potência, assume seu próprio destino histórico. Significa reconhecer que a modernidade brasileira não será cópia; será invenção. Será modernidade mestiça, tropical, plural, amazônica, popular, indígena, negra, favelada, sertaneja, ribeirinha. Será tudo aquilo que a elite tentou suprimir e que, no entanto, nunca deixou de pulsar.

Darcy Ribeiro deixa, como legado, uma tarefa profunda: imaginar o Brasil não como país fracassado, mas como civilização em elaboração. Civilização que nasce do trauma, mas não se reduz a ele. Civilização que emerge da ferida, mas não se conforma com ela. Civilização que reconhece a tragédia, mas insiste no canto. Civilização que transforma violência em energia vital. Civilização que encontra no povo não apenas sua base demográfica, mas seu princípio ontológico.

O Brasil por vir — esse Brasil que Darcy nos pede para vislumbrar — não será feito pelas elites. Será feito pelos ninguéns. Pelas mãos anônimas que carregam água, que varrem ruas, que cozinham, que tecem, que rezam, que cantam, que plantam, que sonham. Será feito pelos que sobrevivem apesar da fome, apesar da violência policial, apesar do racismo, apesar do abandono. Será feito pelos que insistem em viver. Porque viver, no Brasil, é ato político.

Ao final, a poesia trágica de Darcy Ribeiro não é canto de derrota; é canto de luta. Seu “fracassei em tudo” não é epitáfio; é clarim. É chamado. É convite. É anúncio de que, embora ele tenha sido derrotado em várias batalhas, sua causa permanece viva. É anúncio de que seu fracasso é, na verdade, semente. E sementes, como ele bem sabia, são coisas que só revelam sua força no tempo certo.

O Brasil por vir está plantado. Cabe ao povo fazêlo florescer.

Referencias Essenciais de Darcy

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 3. ed. São Paulo: Global, 2015.

RIBEIRO, Darcy. Os brasileiros: 1. Teoria do Brasil. 2. ed. São Paulo: Global, 2006.

RIBEIRO, Darcy. Os brasileiros: 2. O povo brasileiro (etnografia do povo brasileiro). 2. ed. São Paulo: Global, 2006.

RIBEIRO, Darcy. O processo civilizatório: etapas da evolução sociocultural. 8. ed. São Paulo: Global, 2014.

RIBEIRO, Darcy. As Américas e a civilização: processo de formação e causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. 6. ed. São Paulo: Global, 2017.

RIBEIRO, Darcy. A universidade necessária. 5. ed. São Paulo: Global, 2019.

RIBEIRO, Darcy. Ensaios insólitos. 2. ed. São Paulo: Global, 2016.

RIBEIRO, Darcy. Testemunho. 3. ed. São Paulo: Global, 2017.

RIBEIRO, Darcy. Diários íntimos. 2. ed. São Paulo: Global, 2019.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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