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As trajetórias, obras e a revolução paradigmática de seis mulheres fundamentais para a sustentabilidade e a preservação da teia vital.

Donella Meadows, Elinor Ostrom, Jane Goodall, Rachel Carson, Vandana Shiva e Wangari Maathai 

Há uma tessitura silenciosa, profunda e quase tectônica que atravessa a longa e conturbada história do pensamento ecológico, uma teia complexa que se recusa terminantemente a se alinhar aos binarismos fáceis e redutores estabelecidos pela modernidade ocidental, tais como as falsas dicotomias entre razão e emoção, ciência e intuição, técnica e poesia. Trata-se da emergência histórica e conceitual do feminino como uma força epistemológica e ontológica irrefreável, não concebida aqui sob a ótica de uma essência biológica limitante ou de um determinismo de gênero essencialista, mas sim como uma postura ética, filosófica e metodológica diametralmente oposta ao paradigma da dominação. É uma disposição ancestral, subversiva e revolucionária para escutar, para nutrir e para tecer redes de interdependência onde a racionalidade mecanicista, em sua marcha predatória, fragmentária e utilitarista, enxergou apenas partes isoladas e recursos inertes a serem extraídos, quantificados e mercantilizados. O feminino, nesta acepção ampliada, cósmica e profunda, revela-se como uma potência relacional que o paradigma cartesiano e baconiano sistematicamente silenciou, subjugou e expulsou dos centros de produção do saber hegemônico, mas que jamais deixou de germinar, mesmo nos solos mais áridos, hostis e dogmáticos da ciência oficial e das academias patriarcais. Quando examinamos a genealogia do movimento ambientalista global com a devida acuidade histórica e sensibilidade interpretativa, descobrimos que algumas de suas vozes mais fundadoras, lúcidas e corajosas emergiram precisamente dessa sensibilidade integradora e holística. São mulheres que, munidas de um rigor acadêmico inquestionável e de uma empatia radical pela intrincada e frágil teia da vida, reescreveram as regras do nosso engajamento com o planeta Terra. Elas não apenas diagnosticaram a febre de uma civilização doente, inebriada pela ilusão fáustica do domínio absoluto sobre a natureza, mas ofereceram os remédios conceituais e práticos para a sua cura, provando de maneira cabal e definitiva que a verdadeira inteligência ecológica exige a integração indissociável entre o rigor analítico da ciência de ponta e a reverência poética pelo sagrado natural.

Neste panteão de mentes visionárias que ousaram desafiar os dogmas inquestionáveis de sua época, a figura da cientista ambiental, biofísica e pensadora sistêmica Donella Meadows ergue-se como um farol de lucidez matemática e sabedoria ecológica incomparáveis. Habitando com maestria as fronteiras porosas e interdisciplinares entre a ecologia, a economia, a dinâmica de sistemas e a espiritualidade, Meadows foi a principal arquiteta e a voz mais ressoante do relatório que abalaria irrevogavelmente as fundações do otimismo industrial e do produtivismo cego do século vinte. Em sua obra seminal e monumental intitulada Limites do Crescimento, publicada no emblemático ano de 1972 sob os auspícios do Clube de Roma, ela e seus coautores utilizaram a modelagem computacional avançada do programa World3 para demonstrar uma premissa que, embora logicamente irrefutável, era tratada como heresia profana pelo establishment: a impossibilidade matemática e termodinâmica da manutenção de um crescimento econômico e populacional exponencial e infinito no interior de um planeta cujos recursos biofísicos, sumidouros ecológicos e capacidades de regeneração são estritamente finitos. A recepção da obra nos círculos acadêmicos e políticos foi tempestuosa e frequentemente hostil, marcada pela negação veemente de economistas ortodoxos que, apegados à fé inabalável na substituição tecnológica e na magia autorreguladora dos mercados, rotularam o estudo de alarmista, neomalthusiano e metodologicamente falho. Contudo, o tempo, esse juiz implacável e silencioso das arrogâncias humanas, encarregou-se de vindicar as projeções de Meadows, cujas curvas de colapso simuladas há mais de meio século alinham-se assustadoramente com as atuais trajetórias de degradação climática, exaustão de recursos e perda de biodiversidade que testemunhamos no Antropoceno.

O legado de Donella Meadows, entretanto, transcende de maneira formidável a mera constatação de um colapso civilizatório iminente; ela não foi uma profetisa do apocalipse, mas uma pedagoga magistral da complexidade. Em seu brilhante e influente livro Pensando em Sistemas, publicado postumamente, ela nos legou uma gramática indispensável para compreender e intervir na complexidade do mundo, ensinando que o pensamento sistêmico é, em sua essência mais pura, uma disciplina rigorosa para enxergar a totalidade, os padrões de comportamento ao longo do tempo e as interconexões invisíveis que governam a realidade material e social. É neste contexto que Meadows introduz sua contribuição mais genial e transformadora: a teoria dos pontos de alavancagem (leverage points) — locais específicos dentro de um sistema complexo onde uma pequena mudança em uma variável pode produzir transformações massivas, estruturais e duradouras no comportamento de todo o sistema. Meadows hierarquizou esses pontos de intervenção com uma precisão cirúrgica, demonstrando que a humanidade gasta a maior parte de sua energia política e econômica nos pontos de menor alavancagem, como o ajuste de parâmetros numéricos (taxas de juros, impostos, cotas de emissão), que pouco alteram a estrutura fundamental do colapso.

Para Meadows, a verdadeira revolução ecológica não reside em consertar os números de um sistema quebrado, mas em ascender na hierarquia da alavancagem. Ela nos ensinou que intervir nos atrasos de informação (delays), nas estruturas de realimentação positiva e negativa (feedback loops) e nas regras do sistema possui um poder transformador infinitamente maior. Contudo, o ápice de sua teoria, o ponto de alavancagem supremo, reside na capacidade de transcender paradigmas. Ela argumentava com brilhantismo que as intervenções humanas mais profundas ocorrem quando somos capazes de alterar o paradigma subjacente — a visão de mundo, as crenças não questionadas — a partir do qual o sistema inteiro, seus objetivos, regras e estruturas de realimentação são concebidos. Se o paradigma atual dita que o crescimento econômico é o objetivo supremo da sociedade, todas as regras e parâmetros servirão a esse fim destrutivo. Mudar o paradigma significa reconhecer que a economia é um subsistema da biosfera, e não o contrário. E, no nível mais elevado de iluminação sistêmica, Meadows nos convida a manter a flexibilidade de abandonar qualquer paradigma, reconhecendo a impermanência de nossas construções mentais. Para ela, a ecologia não era apenas uma ciência da sobrevivência material, mas uma prática diária de cidadania global e de transformação interior profunda, onde a compreensão sistêmica nos convida a abandonar a obsessão pela maximização do capital em prol de uma vida pautada pela suficiência, pela equidade e pelo respeito inegociável aos limites biofísicos que nos sustentam e nos abraçam.

Paralelamente à desconstrução magistral do mito do crescimento ilimitado perpetrada por Meadows, a economista e cientista política Elinor Ostrom dedicou a totalidade de sua prolífica e rigorosa vida acadêmica a desmantelar outro dogma igualmente paralisante, ideologicamente carregado e amplamente aceito: a célebre e fatalista tragédia dos comuns. Durante décadas, a narrativa acadêmica hegemônica, cristalizada pelo ensaio de Garrett Hardin em 1968, ditava como verdade absoluta, quase como uma lei natural inquebrantável, que os recursos naturais compartilhados, tais como florestas comunitárias, bacias hidrográficas, sistemas de irrigação tradicionais e vastas áreas de pastagem, estariam inexoravelmente fadados à ruína, à superexploração e ao esgotamento devido ao egoísmo intrínseco e à racionalidade maximizadora de curto prazo dos indivíduos. Diante desse cenário sombrio e mecanicista, a ortodoxia econômica e política prescrevia apenas duas tábuas de salvação, ambas excludentes e frequentemente violentas: a privatização draconiana dos recursos, entregando-os à lógica fria e excludente do mercado, ou o controle estatal coercitivo e centralizado, operado por burocratas distantes da realidade local e ecológica. Elinor Ostrom, contudo, munida de uma curiosidade etnográfica inesgotável, de uma desconfiança saudável em relação aos modelos teóricos de gabinete e de um rigor analítico inigualável, recusou-se a aceitar essa dicotomia reducionista e provou, através de exaustivos estudos de campo empíricos, que a teoria dominante estava fundamentalmente equivocada e politicamente enviesada.

Em sua obra magna, revolucionária e meticulosamente fundamentada, Governando os Comuns: a evolução das instituições para a ação coletiva, publicada em 1990, Ostrom documentou de forma irrefutável como comunidades locais reais ao redor de todo o globo — desde os aldeões suíços gerindo pastagens alpinas até os agricultores japoneses administrando florestas comunitárias, passando por sistemas de irrigação milenares nas Filipinas e na Espanha — desenvolveram, ao longo de gerações de tentativa, erro e adaptação, arranjos institucionais complexos, adaptáveis e altamente resilientes para gerir seus bens comuns de forma sustentável e equitativa, sem a necessidade de intervenção externa de mercados predatórios ou governos centrais autoritários. Ao mapear os oito princípios de design dessas instituições de governança bem-sucedidas — que incluem a definição clara de fronteiras físicas e sociais, a congruência entre regras de apropriação e as condições locais, a participação democrática e inclusiva dos usuários na modificação das regras operacionais, o monitoramento mútuo e a existência de mecanismos de resolução de conflitos de baixo custo e fácil acesso —, Ostrom reabriu a imaginação política da humanidade para as vastas possibilidades da ação coletiva autogestionada. 

Sua consagração histórica como a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel de Economia, no ano de 2009, não representou apenas o justo reconhecimento de uma carreira acadêmica brilhante e de uma tenacidade intelectual rara, mas a legitimação definitiva de uma economia da cooperação, da solidariedade e da inteligência distribuída. Ela nos ensinou, com a força inegável dos dados empíricos e a clareza de uma mente brilhante, que a inteligência coletiva, quando profundamente enraizada na confiança mútua, na reciprocidade, no conhecimento ecológico tradicional e na capacidade humana de criar regras justas, é perfeitamente capaz de florescer e proteger a estrutura da vida. O trabalho de Ostrom desafia frontalmente o cinismo antropológico, o determinismo trágico e o individualismo metodológico que fundamentam o modelo econômico predatório contemporâneo, provando que os seres humanos não são prisioneiros indefesos de seus próprios impulsos egoístas, mas arquitetos capazes de construir instituições que honram a vida em comum e garantem a perpetuidade dos recursos que nos mantêm vivos.

Enquanto Elinor Ostrom redefinia os contornos da governança humana e da economia política, a primatóloga britânica Jane Goodall redefinia, nas densas florestas da África, a própria fronteira ontológica do que significa ser humano, dissolvendo séculos de arrogância antropocêntrica. Chegando às margens remotas do Lago Tanganica, na atual Tanzânia, no alvorecer da década de 1960, armada apenas com binóculos, um caderno de anotações, uma intuição aguçada e uma paciência quase infinita, a jovem Goodall imergiu de corpo e alma no mundo complexo e fascinante dos chimpanzés selvagens da reserva de Gombe. Suas observações pioneiras e revolucionárias, posteriormente detalhadas com lirismo e rigor em obras clássicas e atemporais como Na sombra do homem e o monumental tratado científico The Chimpanzees of Gombe: Patterns of Behavior (1986), estilhaçaram de uma vez por todas o pedestal de exclusividade biológica e cultural sobre o qual a humanidade ocidental se havia orgulhosamente colocado desde o Iluminismo. Antes de Goodall, a ciência definia o Homo sapiens como o único ser capaz de fabricar ferramentas, o único detentor de cultura e o único possuidor de uma vida emocional complexa; após suas descobertas, essa muralha conceitual ruiu irremediavelmente. 

Goodall documentou, para o assombro da comunidade científica internacional, a fabricação intencional e o uso de ferramentas por chimpanzés para a captura de cupins, a formação de laços afetivos profundos e duradouros entre mães e filhos, a transmissão intergeracional de culturas locais de forrageamento e, de forma mais sombria, a eclosão de conflitos territoriais brutais e guerras primitivas entre grupos rivais. Ao tomar a decisão metodologicamente subversiva de dar nomes próprios aos chimpanzés que estudava, em vez de lhes atribuir números frios de identificação, Goodall introduziu a empatia e o reconhecimento da individualidade não-humana como ferramentas científicas válidas e necessárias, enfrentando com bravura a resistência feroz de um establishment acadêmico profundamente patriarcal que fetichizava a objetividade distante e repudiava qualquer traço de antropomorfismo. Sua transição gradual, porém firme, de cientista observadora para ativista global incansável pela conservação da biodiversidade e pelo bem-estar animal reflete a profunda coerência ética de sua filosofia de vida: a premissa inegociável de que o conhecimento verdadeiro e profundo da natureza inevitavelmente engendra o amor, e que o amor autêntico exige, como consequência moral, a ação protetora urgente. Jane Goodall encarna, assim, o feminino que se aproxima da alteridade radical não com o intuito de dominar, subjugar ou dissecar em laboratórios, mas para comungar e compreender, lembrando-nos diariamente, com sua voz serena e olhar penetrante, de que somos parte integrante, e não senhores absolutos, de um continuum vital deslumbrante, interconectado e terrivelmente frágil.

Essa mesma urgência visceral em proteger a fragilidade da vida e em denunciar a arrogância tecnológica pulsava nas veias de Rachel Carson, a bióloga marinha e escritora cuja prosa lírica e precisão científica inabalável despertaram, de forma definitiva, a consciência ecológica do mundo moderno. Antes de se tornar o maior pesadelo da poderosa indústria química global, Carson já havia encantado o público leitor com sua trilogia oceânica, culminando no aclamado best-seller O mar que nos cerca, obra na qual ela traduzia os mistérios insondáveis das profundezas marinhas em uma poesia acessível, cultivando no imaginário popular um senso de maravilhamento e respeito pelos ecossistemas aquáticos. No entanto, foi com a publicação de sua obra máxima, Primavera silenciosa, no ano de 1962, que Rachel Carson alterou irrevogavelmente o curso da história ambiental e política do século vinte. Com uma coragem intelectual e moral inabalável, Carson expôs a devastação silenciosa, insidiosa e onipresente causada pelo uso indiscriminado de pesticidas sintéticos na agricultura, notadamente o DDT, revelando ao grande público como esses venenos se bioacumulavam de forma letal nas estruturas tróficas, aniquilando populações inteiras de aves, contaminando rios, lençóis freáticos e solos, e ameaçando gravemente a saúde humana. 

A reação do complexo corporativo e agroindustrial foi virulenta, misógina e implacável. Carson foi publicamente atacada, ridicularizada e tachada de mulher histérica, alarmista, anticientífica e até mesmo de simpatizante comunista que desejava frear o progresso americano. Grandes corporações tentaram censurar o livro e destruir sua reputação, mas a solidez irrefutável de seus dados empíricos, combinada com a eloquência arrebatadora de seu apelo moral, prevaleceram sobre a máquina de propaganda da indústria. Primavera silenciosa não apenas catalisou a criação de agências governamentais de proteção ambiental e impulsionou a proibição de substâncias químicas altamente tóxicas em diversos países, mas inaugurou uma nova ética de responsabilidade planetária e precaução tecnológica. Carson demonstrou, com o sacrifício de sua própria saúde, que a ciência, quando aliada a uma reverência poética pela natureza e a um compromisso inegociável com a verdade, possui o poder transcendente de dissipar a ignorância complacente e de convocar a humanidade a atuar como guardiã cuidadosa, e não como algoz inconsequente, da sinfonia da vida. Ela é, com inteira justiça, reverenciada como a mãe fundadora do movimento ambientalista moderno, uma voz que se recusou a ser silenciada para que os pássaros pudessem continuar a cantar.

A denúncia veemente e fundamentada da violência corporativa e química contra a teia da vida, inaugurada por Carson, encontra uma continuidade feroz, filosófica e profundamente articulada na figura singular de Vandana Shiva, física quântica de formação, pensadora ecofeminista de vanguarda e ativista indiana incansável. Shiva teve a audácia intelectual de expandir a crítica ecológica tradicional para abarcar as dimensões sombrias do neocolonialismo, da biopirataria, do imperialismo genético e da opressão patriarcal, demonstrando como essas forças operam em uníssono para subjugar tanto a natureza quanto os povos marginalizados do Sul global. Em sua obra contundente e desmistificadora, The Violence of the Green Revolution: Third World Agriculture, Ecology and Politics (1991), ela desmascarou com precisão cirúrgica o mito do milagre agrícola propagandeado pelas agências de desenvolvimento internacionais, demonstrando de forma irrefutável como a imposição arbitrária de monoculturas dependentes de pacotes tecnológicos intensivos — baseados em agrotóxicos tóxicos, fertilizantes sintéticos e sementes patenteadas de alto rendimento — destruiu a rica biodiversidade agrícola, endividou cronicamente os pequenos camponeses, exauriu os lençóis freáticos e desertificou os outrora férteis solos da Índia. Através de livros seminais e profundamente teóricos como Staying Alive: Women, Ecology and Development (1988) e Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento, Shiva articula uma visão ecofeminista robusta onde a exploração predatória da Terra e a marginalização sistemática das mulheres são compreendidas como faces inseparáveis da mesma moeda mecanicista e reducionista, herdeira direta da Revolução Científica europeia. 

Em resposta a essa devastação sistêmica, ela fundou o movimento Navdanya, uma rede vibrante de guardiões de sementes e promotores da agroecologia, cujo propósito é resgatar a soberania alimentar e genética, celebrando o conhecimento tradicional e ancestral das mulheres camponesas como a verdadeira base da segurança alimentar e da resiliência climática planetária. Para Shiva, a semente não é, e jamais poderá ser reduzida a um mero código genético a ser manipulado em laboratórios, patenteado por corporações transnacionais e mercantilizado nas bolsas de valores; ela é, antes de tudo, um repositório sagrado de evolução milenar, um bem comum da humanidade e um símbolo supremo de resistência política contra o imperialismo biológico. Sua voz trovejante e inabalável nos convoca a abandonar o paradigma ilusório da escassez fabricada e da extração contínua, abraçando o que ela denomina de democracia da Terra — um modelo civilizatório que reconhece os direitos intrínsecos de todas as espécies à existência e a dignidade inalienável dos povos que, com sabedoria e reverência, cultivam a vida com as próprias mãos, em harmonia com os ciclos cósmicos e telúricos.

Essa práxis revolucionária de cultivar a vida com as próprias mãos e de transformar a paisagem degradada através da ação direta encontrou sua expressão mais sublime, material e mobilizadora na trajetória extraordinária de Wangari Maathai, a bióloga queniana que elevou o ato aparentemente simples e ancestral de plantar árvores à categoria de uma complexa revolução política, social e espiritual. Sendo uma das primeiras mulheres da África Oriental a obter um cobiçado doutorado em ciências e, posteriormente, a primeira mulher africana a ser laureada com o prestigioso Prêmio Nobel da Paz no ano de 2004, Maathai compreendeu visceralmente, a partir de sua própria vivência e observação atenta do território, a intersecção trágica e indissolúvel entre a degradação ambiental severa, a pobreza crônica feminina e a opressão autocrática do Estado. Ao fundar o Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde) no ano de 1977, em resposta direta aos apelos desesperados das mulheres rurais que viam seus rios secarem, suas colheitas minguarem e suas terras tornarem-se estéreis devido ao desmatamento desenfreado impulsionado por monoculturas de exportação, ela mobilizou milhares de cidadãs para reflorestar suas paisagens exauridas. Esse movimento devolveu-lhes não apenas o acesso vital à lenha para cocção e à água limpa para subsistência, mas, sobretudo, resgatou a autonomia econômica, a dignidade pessoal e a consciência cívica de uma população historicamente silenciada e marginalizada pelas heranças do colonialismo e pelas falhas do Estado pós-colonial. 

Em sua comovente e poderosa autobiografia, traduzida para o português como Insubmissa: uma autobiografia, Maathai narra com uma altivez inquebrantável e uma franqueza desarmante as perseguições implacáveis, as prisões arbitrárias e as violências físicas e psicológicas que sofreu ao ousar enfrentar o regime ditatorial e cleptocrático de Daniel arap Moi, tudo para proteger as florestas públicas e os espaços verdes urbanos, como o emblemático Parque Uhuru em Nairóbi, da privatização corrupta e da especulação imobiliária desenfreada. Ela nos legou a compreensão profunda, sistêmica e incontornável de que a paz sustentável e duradoura é uma quimera inatingível sem a gestão equitativa, transparente e ecológica dos recursos naturais, e sem a participação democrática e ativa das bases populares na formulação de seu próprio destino. Maathai provou, com o suor de seu rosto e a terra sob suas unhas, que o ambientalismo não é, de forma alguma, um luxo estético ou uma preocupação exclusiva e diletante das elites do Norte global, mas sim uma questão premente de sobrevivência física, cultural e moral para os povos do Sul. Cada uma das mais de trinta milhões de árvores plantadas pelas mãos calejadas das mulheres de seu movimento ergue-se hoje como um monumento vivo, verde e respirante à resiliência indomável do espírito humano e à força transformadora de um ativismo que está profundamente enraizado no amor incondicional pelo território, pela ancestralidade e pela comunidade.

A tessitura intrincada dessas seis biografias monumentais compõe um mosaico de esperança radical e de sabedoria absolutamente indispensável para a encruzilhada civilizatória e existencial em que nos encontramos neste alvorecer do século vinte e um. Donella Meadows, Elinor Ostrom, Jane Goodall, Rachel Carson, Vandana Shiva e Wangari Maathai não compartilharam apenas o gênero em uma época em que a academia e a política eram bastiões quase impenetráveis da dominação masculina; elas compartilharam uma recusa categórica, visceral e intelectual em aceitar a fragmentação do mundo, a coisificação da natureza e a mercantilização da vida. Elas nos ensinaram, cada qual em seu campo de atuação e com sua metodologia singular, lições que a humanidade não pode mais se dar ao luxo de ignorar. Meadows evidenciou que os limites biofísicos inegociáveis do planeta exigem urgentemente a transição para uma economia da suficiência e do cuidado, abandonando a ilusão do crescimento infinito. Ostrom demonstrou que os bens comuns, longe de serem tragédias anunciadas, prosperam sob os cuidados meticulosos da cooperação comunitária e da governança local, refutando o egoísmo como destino humano. Goodall revelou que a barreira ontológica erguida entre humanos e animais é uma ilusão arrogante que nos cega para a nossa própria animalidade e para o nosso parentesco evolutivo com a teia da vida. Carson provou que o silêncio mortífero imposto pelos venenos industriais e pela ganância corporativa deve ser rompido com a luz implacável da verdade científica e da indignação moral, custe o que custar. Shiva articulou que a soberania das sementes e a preservação do conhecimento tradicional feminino são a base inalienável da liberdade, da saúde dos povos e da resistência contra a biopirataria. E Maathai, por fim, materializou a verdade de que o plantio de uma árvore é, simultaneamente, um ato de regeneração ecológica profunda e de resistência democrática inabalável.

O legado imensurável dessas mulheres transcende amplamente as disciplinas acadêmicas que elas revolucionaram e os movimentos sociais que ajudaram a fundar e a nutrir ao longo de décadas de luta; ele constitui, em sua essência mais profunda e filosófica, um convite ontológico para habitarmos a Terra não mais como conquistadores exilados, alienados de nossa própria morada e obcecados pelo controle, mas como membros reverentes, humildes e responsáveis da vasta e maravilhosa comunidade da vida. Em um tempo histórico sombrio, assombrado pelo espectro aterrorizante do colapso climático, da acidificação dos oceanos, do esgotamento dos solos e da sexta extinção em massa de espécies, a voz uníssona e polifônica dessas pioneiras ecoa através das décadas como um cântico de alerta severo, mas também como uma promessa luminosa. É a promessa de que, ao abraçarmos a ética inegociável do cuidado, a sabedoria ancestral da interdependência e a coragem indomável da ação coletiva, ainda seremos capazes de reflorestar o futuro, curar as feridas purulentas do mundo e garantir que a primavera, em toda a sua exuberância, diversidade e beleza indescritível, jamais volte a silenciar. O feminino que elas corporificam — rigoroso, poético, combativo, amoroso e profundamente enraizado na materialidade do mundo — não é apenas uma nota de rodapé na história da ciência; é a própria condição de possibilidade para a continuidade da aventura humana neste pálido ponto azul que chamamos de lar.

NOTA

Cumpre registrar, contudo, em uma menção de incontornável justiça histórica, que o panteão ecológico feminino não se esgota nestas seis vozes monumentais. A constelação de mulheres que forjaram a consciência ambiental global é vasta e multifacetada, e faz-se imperativo evocar a memória e a contribuição de ao menos três outras figuras cujas trajetórias são igualmente fundamentais e inesquecíveis para a sustentabilidade da Terra. A primeira delas é Gro Harlem Brundtland, médica e ex-primeira-ministra norueguesa, que elevou a ecologia ao ápice da diplomacia internacional ao presidir a comissão da ONU que publicou o relatório Nosso Futuro Comum em 1987, cunhando e imortalizando o conceito de desenvolvimento sustentável. A segunda é a lendária oceanógrafa norte-americana Sylvia Earle, carinhosamente conhecida como Sua Profundeza, que dedicou sua vida à exploração e à defesa incansável dos oceanos, lembrando-nos de que sem a preservação do coração azul do planeta, nenhuma vida terrestre é viável. E a terceira, representando a urgência da luta decolonial e o sacrifício supremo na defesa dos territórios do Sul Global, é a líder indígena hondurenha Berta Cáceres. Assassinada por defender os rios sagrados de seu povo contra o extrativismo corporativo, Cáceres encarna a resistência física, espiritual e ancestral das comunidades originárias, provando que a ecologia, em sua forma mais verdadeira, é uma luta travada não apenas em laboratórios e conferências, mas com o próprio sangue na defesa inegociável da Mãe Terra.

REFERÊNCIAS 

CARSON, Rachel. O mar que nos cerca. São Paulo: Cultrix, 1994.

CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2010.

GOODALL, Jane. Na sombra do homem. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

GOODALL, Jane. The Chimpanzees of Gombe: Patterns of Behavior. Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press, 1986.

MAATHAI, Wangari. Insubmissa: uma autobiografia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.

MEADOWS, Donella H. et al. Limites do crescimento: um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade. São Paulo: Perspectiva, 1973.

MEADOWS, Donella H. Pensando em sistemas. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

OSTROM, Elinor. Governando os comuns: a evolução das instituições para a ação coletiva. São Paulo: Editora Senac, 2022.

SHIVA, Vandana. Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 2001.

SHIVA, Vandana. Staying Alive: Women, Ecology and Development. Londres: Zed Books, 1988.

SHIVA, Vandana. The Violence of the Green Revolution: Third World Agriculture, Ecology and Politics. Londres: Zed Books, 1991.

Foto em destaque: 6 grandes mulheres sustentáveis



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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