Publicado em: 3 de junho de 2026
O espanhol Pedro Almodóvar é um dos poucos cineastas no mundo que, mesmo já podendo desfrutar de fama e legado artístico, se arrisca e acerta na direção de filmes que questionam a crise do processo criativo e suas implicações desconfortáveis junto aos colaboradores e outras relações pessoais, que podem reivindicar invasão de privacidade, quebra de confiança e apropriações de informações não autorizadas. É o que podemos observar e contemplar como obra de arte em “Natal Amargo”, em cartaz no circuito comercial de Belém.
Para isso, o diretor de vale da metalinguagem (o filme dentro do filme) a serviço do melodrama revestido da trilha sonora envolvente de Alberto Iglesias e atuações impecáveis de Bárbara Lennie (Elsa), Leonardo Sbaraglia (Raúl Durán), Aitana Sánchez-Gijón (Mónica) e Victoria Luengo (Patricia).
Como a ação do filme se passa durante a celebração natalina, a narrativa se desenrola em duas histórias ambientadas em Madri e a paisagem deslumbrante de Lazarote, nas ilhas Canárias, para adentrar sobre temas fortes como o uso indiscriminado de medicamentos para o tratamento de síndrome de pânico, depressão e tentativa de suicídio em procedimentos narrativos complexos, o que exige do espectador uma atenção redobrada para acompanhar as reviravoltas do roteiro e os finais abertos que apontam para interpretações livres que marcam o encerramento dos filmes almodovarianos.

Assim, o filme dialoga com obras autobiográficas metalinguísticas como “Fellini Oito e Meio” (de Federico Fellini), “All That Jazz” (de Bob Fosse), “A Noite Americana” (de François Truffaut) e de filmes anteriores de Almodóvar (“A Lei do Desejo”, “Má Educação”, “Dor e Glória”).
Em “Natal Amargo” há um avanço temático que se propõe a questionar a incorporação de dramas alheios para a solução de uma crise criativa que se instala no momento em que a carreira de um respeitado diretor de cinema ainda se encontra no auge, em meio às propostas para a realização de filmes mais acessíveis para o gosto comum das plataformas digitais, o que é uma ironia, já que a maioria dos filmes produzidos pela El Deseo estão disponíveis na íntegra e sem concessões ao clicar nos dispositivos de streaming.

O roubo ou vampirização dos dramas de pessoas mais próximas para turbinar páginas encalhadas de um primeiro roteiro sem muito entusiasmo pode gerar grandes filmes, o que lança luzes sobre os limites de autoralidade, direitos inalienáveis, afetos abalados e a crença profissional de que o show deve continuar; discussão que estava presente lá atrás, em 1941, com a pedra fundamental do cinema moderno em “Cidadão Kane” e a maldição de rosebud, o que deixou marcas desafiadoras na carreira de Orson Welles.
Felizmente, “Natal Amargo” não é sobre autocomplacência e sim sobre humanidades e desumanidades, omissões e tentativas desastradas de reparos que fazem parte do processo criativo artístico, em especial do cinema de autor contemporâneo, que coloca em exposição a competição, a guerra de egos e produtos finais que mais tarde podem ou não ser inseridos, a depender das instâncias legitimadoras, na história da cinematografia mundial.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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