Publicado em: 28 de abril de 2026
A cinebiografia de Michael Jackson confirma a máxima da indústria do entretenimento audiovisual: programa para toda a família, sem aprofundar tema espinhoso ou polêmico, monitoramento eficaz por parte dos detentores do legado familiar, controle minucioso do que dever ser abordado ou esquecido, direitos de imagem e a continuidade da difusão da obra, no caso, o legado de um dos maiores astros da música pop.
“Michael”, em cartaz em várias salas de cinema numa poderosa campanha de marketing internacional, teve lançamento cercado de expectativas que não se concretizam e acena para a clássica sugestão de que na 2ª parte do filme, já anunciada nos momentos finais da projeção, a produção sequencial finalmente se encoraje para humanizar o mito fabricado, consagrado e por fim cancelado pela mídia em denúncias de abuso de menores, o processo de branqueamento da pele, o casamento com Lisa Presley, cirurgias plásticas e comportamentos considerados esquisitos, excêntricos demais.
A direção de Antoine Fuqua se rende à armadilha fácil da simplificação de tipos apresentados de forma rápida, para dar conta dos sucessivos acontecimentos que se revezam num desfile de celebridades que marcaram presença na carreira de Michael Jackson, desde a infância com o grupo Jackson Five, passando pela carreira solo, clips e os álbuns “Off the Wall”, “Thriller” e “Bad”.
O roteiro esquemático, previsível, aposta na mitificação do talentosíssimo pobre menino negro e rico (Juliano Valdi/Jaafar Jackon), sob as garras o pai sádico e perfeccionista (Colman Domingo), numa relação complexa sustentada por um processo criativo obsessivo, que deixou marcas e fragilidades num gigante da música popular mundial.
As alusões a Peter Pan (personagem criado por J. M. Barrie em “The Little White Bird”, que se recusa a crescer com aventuras mágicas), e ao “Pequeno Príncipe” (de Antoine de Saint-Exupéry), assim com a figura do pai carrasco e a sequência de racismo notório da primeira fase da MTV americana, são tão óbvias que pouco resta para o espectador adentrar sobre perda do controle da vida pessoal do artista.
Porém, os números musicais são impecáveis e contagiantes, perfeitos na recriação de “I will be there”, “Never can say goodbye”, “Human Nature”, “Ben”, “Don’t stop til get enough”, “Beat it”, “Billie Jean”, entre outras pérolas do pop.
Em que pese a maquiagem pesada, a atuação de Jaafar Jackson consegue o tom exato na composição de jovem astro delicado, deslocado do real cotidiano e que esbanja controle de palco e interpretação de sua música.
Os números musicais são tão bem dirigidos que fica a sensação de querer mais em canções que ficaram de fora do longa-metragem, como “One day in your life”, “Music” e “Got be there”.
Ao final da projeção, sob os aplausos da plateia, fica a sensação de que a experiência coletiva do cinema agradece ao que realmente permanece: o suingue único e as belas canções de Michael Jackson.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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