0
 

O romance A Hora da Estrela, publicado em 1977, uma das obras máxima de Clarice Lispector, foi escrita pouco antes de sua morte. O romance carrega um sentimento freqüente de despedida, fragilidade e reflexão sobre a existência humana. Naquele período, Clarice já enfrentava um câncer avançado, condição que atravessa silenciosamente a escrita da obra. A narrativa parece ser construída da consciência da finitude. Não por acaso, o romance apresenta personagens marcados pela solidão, pelo abandono e pela dificuldade de existir em um mundo indiferente. O Brasil de 1977 vivia os últimos anos da ditadura militar. Era um período de desigualdade social intensa, migração nordestina para os grandes centros urbanos e crescimento acelerado das cidades. O Rio de Janeiro, ambiente central da narrativa, aparece como uma cidade fria e desigual, onde pessoas pobres sobrevivem à margem da vida social. O olhar atento de Clarice transforma esse contexto em matéria literária. No texto Clarice apresenta uma mulher invisível, pobre, nordestina e solitária. Essa escolha é profundamente política.A protagonista Macabéa talvez seja uma das figuras mais dolorosas da literatura brasileira. Alagoana, órfã e criada por uma tia agressiva, ela se muda para o Rio de Janeiro para trabalhar como datilógrafa. Vive num quarto miserável, alimenta-se mal e possui hábitos extremamente simples. Gosta de ouvir a Rádio Relógio, toma café frio, come cachorro-quente e sonha de maneira tímida. Sua existência parece pequena diante do mundo, entretanto é nessa simplicidade que se revela justamente a grandiosidade escondida na personagem. Macabéa não possui consciência crítica sobre sua própria miséria. Ela vive porque continua respirando. Há um aspecto profundamente humano na construção dessa personagem. Clarice não cria Macabéa para gerar pena fácil. A autora constrói uma mulher marcada pela exclusão social e afetiva. Em trechos do livro, a personagem parece sequer compreender a violência que sofre diariamente. Isso torna sua trajetória ainda mais cruel. Quando o narrador afirma: “Ela era incompetente para a vida”, a frase evidencia o abandono social que moldou sua existência.O narrador Rodrigo S. M. é outro elemento fundamental da obra. Ele não apenas conta a história, ele questiona constantemente o próprio ato de escrever. O romance possui intenso caráter metalingüístico. Rodrigo oscila, sofre e sente culpa ao narrar a vida daquela jovem miserável. Em determinado momento, afirma: “Escrevo porque não tenho nada a fazer no mundo.” Essa frase sublinha um narrador angustiado, consciente de que a literatura talvez não seja capaz de salvar ninguém, mas ainda assim necessária. Clarice cria uma relação intensa entre narrador e personagem. Rodrigo parece observar Macabéa com estranhamento e compaixão. Ele tenta compreender como alguém pode viver com tão pouco. Ao mesmo tempo, percebe que a sociedade sequer enxerga pessoas como ela. Macabéa é invisível. Sua pobreza econômica é simbólica. Ela não ocupa espaço no mundo urbano moderno. A condição da mulher nordestina também ganha centralidade no romance. Macabéa representa milhares de mulheres migrantes que chegaram às grandes cidades brasileiras em busca de sobrevivência. Trabalhadoras anônimas, exploradas e silenciadas. Raramente são protagonistas da literatura brasileira. Clarice rompe esse silêncio. A personagem possui hábitos simples, quase mecânicos, mas esses hábitos sustentam sua existência cotidiana. Ouvir rádio, passar pó no rosto, tomar café e sonhar com artistas de cinema tornam-se pequenos gestos de resistência. O relacionamento de Macabéa com Olímpico de Jesus, seu primeiro e único namorado, revela outra dimensão da violência social. Olímpico deseja ascensão social e vê nela apenas atraso e fracasso. Ele a abandona para ficar com Glória, colega de trabalho mais alinhada aos padrões urbanos e femininos valorizados pela sociedade. A rejeição amorosa reforça a fragilidade emocional da protagonista. Mesmo assim, Macabéa continua existindo sem revolta explícita. Essa ausência de reação incomoda profundamente o leitor contemporâneo.Um dos momentos mais simbólicos da narrativa ocorre quando Macabéa visita a cartomante Madama Carlota. Pela primeira vez, alguém lhe promete felicidade, amor e futuro. A personagem acredita que sua vida finalmente mudará. Clarice constrói essa cena com ironia trágica. Logo após sair cheia de esperança, Macabéa é atropelada por um automóvel. É nesse instante que surge sua “hora da estrela”. A morte torna-se o único momento em que ela ganha centralidade no mundo. O desfecho do romance é aniquilador porque revela a brutalidade da indiferença social. Macabéa morre sem grandes conquistas, sem reconhecimento e sem compreender plenamente a própria existência. Contudo, Clarice transforma essa morte em denúncia. A sociedade que ignora pessoas como Macabéa também produz essa tragédia cotidiana. O romance continua indubitavelmente atual porque ainda existem milhares de vidas invisíveis, ocultas pela pobreza, pelo preconceito geográfico e pela desigualdade.A Hora da Estrela pode ser lido como uma crítica radical à exclusão social e à desumanização urbana. A obra dialoga com debates atuais sobre feminização da pobreza, invisibilidade social e migração nordestina. Para além disso, a personagem Macabea rompe padrões tradicionais de protagonismo feminino. A Humanidade de Macabéa está justamente em sua fragilidade.A escrita de Clarice Lispector alcança enorme profundidade porque transforma o aparentemente banal em matéria existencial. A autora mostra que mesmo uma vida considerada insignificante possui dores, desejos e humanidade. Talvez seja essa a grande força do romance. Macabéa, tão silenciosa e apagada, continua ecoando na literatura brasileira porque representa aqueles que raramente possuem voz. Clarice, já próxima da morte, parece escrever sobre a precariedade da própria condição humana.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

Parceria Undoc, Ufopa e Fiam para garantia de direitos

Anterior

Você pode gostar

Comentários