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Alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Padre José Nicolino de Souza, de Oriximiná, conquistaram reconhecimento nacional na edição 2026 da MILSET Brasil e garantiu participação em duas exposições científicas internacionais após o desempenho de equipes estudantis nas áreas de Ciências Humanas e Ciências Agrárias. Os projetos, desenvolvidos a partir de questões ligadas à diversidade cultural amazônica e ao acesso à água de qualidade em comunidades vulneráveis, renderam premiações no Prêmio Abric de Incentivo à Ciência e credenciais para eventos no Chile e no Paraguai ainda neste ano.

O resultado projeta uma escola pública do interior amazônico para circuitos internacionais de educação científica justamente por pesquisas que dialogam com desafios locais. Na área de Ciências Humanas, uma equipe foi premiada com o terceiro lugar no Prêmio Abric de Incentivo à Ciência e conquistou credencial para representar o Brasil na Expociência Nacional do Chile, que ocorrerá entre 27 e 31 de outubro de 2026, em Santiago. Já o grupo da área de Ciências Agrárias alcançou o quarto lugar na mesma premiação e obteve vaga para a Muescientec, em Assunção, no Paraguai, prevista para os dias 6 a 8 de outubro.

O projeto de Ciências Humanas, desenvolvido por Isabella Soares Farias e Amanda Sophia Portilho da Cunha sob orientação de Andreza Maria Santos de Oliveira, nasceu da observação das dinâmicas socioculturais de Oriximiná e das relações históricas entre populações indígenas e quilombolas no Alto Trombetas. Intitulado “Modelo Comparativo”, o trabalho desenvolveu um Modelo Comparativo Intercultural voltado à valorização das culturas indígena Waiwai e quilombola da região como ferramenta de fortalecimento de uma educação antirracista, inclusiva e conectada às especificidades territoriais amazônicas.

A investigação adotou abordagem qualitativa, aplicada e participativa, combinando levantamento teórico, pesquisa de campo, entrevistas, rodas de conversa e construção de um modelo analítico organizado a partir de eixos culturais compartilhados, entre eles território, organização social, transmissão de saberes, educação tradicional e relação com a natureza. Embora os grupos pesquisados tenham trajetórias históricas distintas, o estudo identificou elementos convergentes relacionados à ancestralidade, oralidade, organização coletiva e forte vínculo territorial.

A pesquisa também extrapolou o campo acadêmico e passou a ser utilizada em atividades pedagógicas, produzindo efeitos observados dentro da própria escola. Segundo o estudo, a aplicação do modelo elevou o interesse dos estudantes pelas culturas locais, fortaleceu sentimentos de pertencimento e ampliou o respeito à diversidade cultural. Como desdobramento, os pesquisadores elaboraram um Guia Pedagógico Intercultural reconhecido como tecnologia social educacional com potencial de replicação em outros contextos culturais. O projeto defende a educação intercultural como instrumento de valorização dos saberes tradicionais, de promoção dos direitos humanos e de implementação de práticas pedagógicas alinhadas às diretrizes da educação antirracista e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A aluna Isabella Soares Farias e a professora Andreza Maria Santos de Oliveira

Na área de Ciências Agrárias, a pesquisa premiada partiu de uma preocupação concreta: a dificuldade enfrentada por populações amazônicas, especialmente ribeirinhas, quilombolas e indígenas, para monitorar a qualidade da água consumida diariamente. Intitulado “Papel Inteligente Biodegradável Produzido com Biomassa Amazônica para Monitoramento Visual de pH da Água”, o trabalho foi desenvolvido por Giulia Cabral Guerreiro, Marcos Vinícius Santos de Oliveira e Matheus William Jordão Rodrigues, sob orientação de Andreza Maria Santos de Oliveira e coorientação de Silvana Maria Cabral Guerreiro.

A pesquisa partiu da constatação de que, em muitos territórios amazônicos, famílias dependem de rios, igarapés e poços artesianos sem acesso a análises laboratoriais capazes de aferir parâmetros básicos da água, como o potencial hidrogeniônico (pH), indicador importante para a segurança do consumo humano. A proposta consistiu no desenvolvimento de uma tecnologia acessível, biodegradável e de baixo custo capaz de permitir monitoramento simplificado por meio de mudanças cromáticas perceptíveis a olho nu.

O papel inteligente foi produzido com biomassa regional, incluindo folhas de bananeira e resíduos de açaí, materiais abundantes no território e aproveitados como base fibrosa para a fabricação artesanal do suporte biodegradável. Paralelamente, os pesquisadores utilizaram extratos ricos em antocianinas, obtidos de repolho roxo e açaí, substâncias responsáveis pela alteração visual de cor diante de diferentes níveis de acidez e alcalinidade.

Os experimentos foram conduzidos no laboratório da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), campus Oriximiná, e no Laboratório Municipal de Análise de Água do município. Após processos de higienização, trituração, cocção, moldagem e secagem natural da biomassa, as folhas biodegradáveis passaram por impregnação com os pigmentos naturais, tornando-se sensíveis às variações químicas da água.

Nos testes, as respostas foram consideradas satisfatórias. Em soluções ácidas, o papel apresentou tonalidades avermelhadas e rosadas; próximo à neutralidade, assumiu coloração roxa; e em meios alcalinos, exibiu tons azulados e verde-azulados. Os resultados mostraram comportamento semelhante ao de fitas indicadoras comerciais de pH, enquanto análises conduzidas pela UFOPA e pelo laboratório municipal confirmaram correspondência com equipamentos laboratoriais especializados.

Além da precisão observada, os pesquisadores verificaram estabilidade visual após armazenamento, resistência satisfatória à umidade moderada e potencial de aplicação em contextos educacionais e comunitários. O trabalho propõe ainda reaproveitamento de resíduos vegetais amazônicos, incentivo à economia circular, fortalecimento da ciência cidadã e ampliação da educação ambiental em comunidades com acesso limitado a estruturas laboratoriais.

Giulia Cabral Guerreiro, Marcos Vinícius Santos de Oliveira e as professoras Andreza Maria Santos de Oliveira e Silvana Maria Cabral Guerreiro

As duas premiações inserem a Escola Estadual Padre José Nicolino de Souza em um circuito internacional de intercâmbio científico promovido pela MILSET Brasil, braço nacional do Movimento Internacional para o Lazer Científico e Técnico, organização sem fins lucrativos dedicada à promoção da educação STEAM — ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática — entre jovens e estudantes.

Conhecida pela realização da Expo Nacional MILSET Brasil, a iniciativa funciona como uma grande feira científica que conecta projetos estudantis a mais de 30 exposições e competições internacionais. Entre seus objetivos estão o incentivo à pesquisa aplicada com impacto social, a integração cultural entre estudantes de diferentes territórios e o estímulo à formação científica por meio de fóruns, palestras, empreendedorismo e intercâmbio educacional.

Por trás das pesquisas premiadas está a professora Andreza Maria Santos de Oliveira, responsável pela orientação dos projetos e pelo estabelecimento de uma rotina de iniciação científica na Escola Estadual Padre José Nicolino de Souza. Licenciada em Biologia e Química pela Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e em Pedagogia pela Faveni, Andreza acumula especializações em Metodologia do Ensino de Biologia e Química, Coordenação Pedagógica, Administração Escolar e Planejamento, Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional, Neuropsicanálise Clínica e Educação Quilombola. Atualmente, também cursa bacharelado em Ciência de Dados e Inteligência Artificial na UFOPA. Sua trajetória profissional foi construída em estreita relação com comunidades quilombolas e indígenas da região amazônica, onde atuou em diferentes etapas da educação pública municipal e estadual desde 2008.

Entre 2008 e 2015, trabalhou como professora do ensino fundamental pela Prefeitura de Oriximiná em territórios quilombolas e indígenas. Depois, passou pela rede estadual de ensino do Pará em iniciativas voltadas à educação de jovens e adultos e à interiorização do ensino, como o projeto “Saberes da EJA”, entre 2015 e 2016, e o projeto Mundiar, de 2017 a 2018, quando atuou como unidocente em comunidade quilombola no município. Entre 2019 e 2020, foi professora de Química no Sistema Organizado Modular de Ensino (Some), atendendo comunidades quilombolas em Óbidos. Em 2021, assumiu a chefia da Divisão de Educação Escolar Quilombola da Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná, passando depois por funções de coordenação pedagógica e gestão do ensino fundamental. Desde outubro de 2023, atua como professora de Química e Biologia na Escola Estadual Padre José Nicolino de Souza e, em 2025, também passou a integrar o corpo docente da Escola Estadual Dr. Almir Gabriel, como professora de Química.

Na avaliação da docente, projetos de iniciação científica no ensino médio cumprem uma função que ultrapassa a dimensão escolar e ajudam a redefinir a relação dos estudantes com o conhecimento. “Desenvolver projetos de iniciação científica com alunos do Ensino Médio possui uma importância enorme, especialmente em contextos como o da Amazônia, porque vai muito além de ‘fazer um trabalho para feira’. Na minha visão, esse tipo de projeto transforma o aluno em protagonista do próprio conhecimento. Ele deixa de apenas reproduzir conteúdos e passa a investigar problemas reais, construir soluções, argumentar, testar hipóteses e compreender que a ciência está diretamente ligada à vida cotidiana.”

A prática construída por Andreza na escola pública se desenvolve, porém, sob limitações financeiras. Segundo a professora, a participação na MILSET Brasil ocorreu praticamente sem apoio institucional. “Nenhum. Todos recursos próprios, apenas a prefeitura de Oriximiná nos deu o transporte até Santarém. Eram quatro equipes, cada uma com três alunos. Foram duas, porém, uma com dois alunos e a outra apenas com uma aluna. Faltou recurso, apoio”, afirma.

Ao lado da professora na orientação dos trabalhos está a biomédica e professora de Biologia e Química Silvana Maria Cabral Guerreiro, coorientadora do projeto “Papel Inteligente Biodegradável Produzido com Biomassa Amazônica para Monitoramento Visual de pH da Água”. Docente da Escola Estadual de Ensino Médio Padre José Nicolino de Souza, em Oriximiná, Silvana acompanha diretamente a trajetória dos estudantes nas pesquisas científicas desenvolvidas na instituição. Casada com um também professor e mãe de quatro filhos, ela afirma encontrar motivação no envolvimento dos jovens com a investigação científica e no reconhecimento obtido pelas equipes em eventos competitivos de alcance regional e nacional. O desempenho dos estudantes em feiras científicas tornou-se, segundo a professora, um indicador do potencial existente nas escolas públicas amazônicas, frequentemente invisibilizado pela escassez de recursos e oportunidades.

Para a educadora, a iniciação científica desempenha um papel decisivo na formação estudantil ao deslocar o aluno da posição de mero receptor de conteúdo para um papel ativo na construção do conhecimento. “Os projetos de iniciação científica nas escolas públicas são importantes porque transformam o aluno de ser passivo em protagonista do conhecimento. Eles permitem que estudantes da rede pública desenvolvam pensamento crítico, curiosidade investigativa e habilidades práticas em ciência e tecnologia, mesmo com recursos limitados”, afirma. Silvana sustenta que a pesquisa escolar também produz impacto social mais amplo, ao aproximar conteúdos acadêmicos da realidade cotidiana das comunidades amazônicas e ampliar horizontes educacionais e profissionais para adolescentes da rede pública.

Na avaliação da professora, experiências como as feiras científicas ajudam a demonstrar que a produção de conhecimento não está restrita a grandes centros ou instituições de elite. “Além de aproximar a sala de aula da realidade, esses projetos ampliam horizontes: mostram que a ciência também é feita na periferia, revelam talentos que seriam ignorados e abrem portas para a universidade, feiras nacionais e carreiras técnicas. No fundo, é uma forma concreta de democratizar o acesso ao conhecimento e reduzir desigualdades”, defende. Silvana associa os resultados conquistados em Oriximiná a uma perspectiva de valorização da educação pública como espaço legítimo de produção científica, inovação social e formação de futuros pesquisadores.

Os estudantes da Escola Padre José Nicolino vêm acumulando resultados expressivos em eventos científicos. Antes da MILSET, as equipes conquistaram premiações na Feira Municipal de Ciências de Oriximiná (Femcor), na Feira de Ciência, Tecnologia e Inovação do Baixo Amazonas (Fecitba), em Santarém, e na Femalec, em Imperatriz, no Maranhão, além de participação na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), em São Paulo. “Já temos vários prêmios de participação em feiras. FEMCOR – em Oriximiná: dois primeiros lugares, dois prêmios. Fecitba – em Santarém, dois primeiros lugares e um prêmio. Femalec – em Imperatriz no Maranhão – dois primeiros lugares e um prêmio. Participamos da Febrace, em São Paulo e agora os da MILSET Brasil, em Fortaleza”, relata a professora Andreza.

A experiência acumulada na escola também resultou em uma agenda de pesquisas voltadas à realidade amazônica, especialmente nas áreas de Química Verde, sustentabilidade, bioeconomia e monitoramento ambiental. Além do papel biodegradável indicador de pH premiado em 2026, Andreza orienta estudos sobre reaproveitamento de biomassa regional, energias alternativas e soluções ambientais de baixo custo. Entre os projetos desenvolvidos estão uma tinta solar fotovoltaica produzida com pigmentos naturais amazônicos, como urucum, jenipapo e clorofila vegetal, para geração acessível de energia em territórios com baixa cobertura elétrica; pesquisas sobre reaproveitamento sustentável do caroço do açaí como estratégia de economia circular e bioeconomia; além da criação de sensores biomiméticos de baixo custo para monitoramento ambiental e educação científica.

Aluna do 2º ano do ensino médio e integrante da equipe de Ciências Agrárias, Giulia Cabral Guerreiro afirma que a participação em feiras científicas representa muito mais do que uma competição escolar, funcionando como espaço de formação cultural, científica e pessoal. “Minha equipe é a do projeto ‘Papel Inteligente Biodegradável Produzido com Biomassa Amazônica para Monitoramento Visual de pH da Água’. Participar de feiras científicas, em especial a Expo Milset, é sempre uma experiência única. Conhecemos novas culturas, tanto do nosso próprio país quanto dos outros países que vieram participar. Tudo foi muito especial e importante, e acredito que a experiência que eu e meus colegas tivemos ao longo desse tempo vamos levar para a vida toda”, relata.

A estudante associa o reconhecimento conquistado ao amadurecimento científico de jovens oriundos da escola pública amazônica, destacando o significado simbólico de representar a região em espaços internacionais de conhecimento. “Poder viajar pelo mundo levando ideias que podem revolucioná-lo é algo muito especial, e me enche de orgulho ver o quanto evoluímos ao longo do tempo. Ver que é possível fazer ciência, mesmo sendo alunos de escola pública e vivendo em uma região afastada, como o interior da Amazônia”, afirma. Para Giulia, o objetivo do trabalho ultrapassa o ambiente escolar e conecta pesquisa, responsabilidade social e perspectivas de futuro. “Meu sonho é que nosso projeto possa ajudar as pessoas para as quais ele foi criado e que possamos viajar cada vez mais longe, levando na mala todos os conhecimentos que adquirimos nessa trajetória.”

Giulia Cabral Guerreiro e Marcos Vinícius Santos de Oliveira

Apesar das conquistas, professoras e estudantes dividem a tristeza pelo fato de nem todos os integrantes das equipes terem podido participar integralmente da feira em Fortaleza. Na equipe de Ciências Agrárias, um dos estudantes não teve condições financeiras de viajar, assim como uma integrante da equipe de Ciências Humanas, que também precisou renunciar à participação por falta de recursos, evidenciando o contraste entre o mérito acadêmico alcançado e a ausência de financiamento suficiente para garantir igualdade de acesso às oportunidades.

É extremamente necessário garantir condições para que professoras e estudantes da Escola Padre José Nicolino consigam representar Oriximiná, o Pará, a Amazônia e o Brasil nos eventos científicos previstos para outubro, no Paraguai, e entre outubro e novembro, no Chile. A participação exige custos com deslocamento, hospedagem, alimentação, documentação e logística que ultrapassam a capacidade financeira das famílias e coordenadoras. Diante do reconhecimento já alcançado pelos alunos em feiras regionais, nacionais e agora internacionais, cresce a expectativa de apoio institucional do Governo do Estado para viabilizar a presença das equipes, em um investimento que extrapola a experiência individual dos estudantes e projeta a produção científica amazônica em espaços globais de intercâmbio educacional.

Aqui da redação, apelamos à governadora Hana Ghassan para que o Governo do Pará contribua com a permanência desses jovens no circuito científico internacional, bem como à iniciativa privada, especialmente empresas instaladas na região e setores vinculados à mineração, logística, bioeconomia e educação, cuja atuação territorial pode ser acompanhada de incentivo concreto à formação científica de estudantes da Amazônia. O apoio às delegações têm um significado profundo de reconhecer a capacidade de inovação produzida na escola pública e ampliar oportunidades para jovens pesquisadores oriundos de territórios historicamente periféricos do investimento em ciência.

 

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

O desafio de produzir pensamento crítico a partir da Amazônia 

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