Publicado em: 21 de maio de 2026
As eleições começam a fervilhar. Dentro deste tema, não sei se faço bem em escrever sobre populismo e polarização política no Brasil. Há assuntos que parecem grandes demais para as mãos de uma pessoa só; outros, porém, são tão repetidos que acabam parecendo pequenos. Estes pertencem às duas categorias.
Falam deles os jornais, as universidades, os candidatos, os convictos e até os que fingem neutralidade: o pessoal da pílula vermelha, espécie particularmente brasileira de gente que se declara isenta, mas sempre pende para algum lado. Ainda assim, ouso tratar do tema. Se errar, que me corrijam os mortos ilustres, pois os vivos corrigem sempre com excessiva paixão, e estou tentando racionalizar a cobertura do assunto.
A polarização política no Brasil não nasceu ontem, embora o século XXI possua o dom de acreditar que inventou todos os pecados antigos. As redes sociais apenas iluminaram uma enfermidade velha, dando-lhe velocidade elétrica. Muito antes do algoritmo, já existiam facções morais; antes das plataformas digitais, já havia o exercício nacional de dividir o país entre salvação e ruína. Porém, o viés algorítmico nos dá a impressão de que todos os velhos assuntos acabaram de nascer.
Creio mesmo, e aqui o leitor me permita a imprudência, que a polarização acompanha a própria formação do Estado brasileiro. Talvez não como ideologia sistemática, dessas que os europeus gostam de catalogar, mas como disposição afetiva da vida pública. O Brasil sempre pareceu oscilar entre extremos sentimentais: ordem e rebelião, conciliação e ruptura, autoridade e paternalismo. Nosso equilíbrio político nunca foi exatamente uma virtude; foi, quando muito, uma fadiga crônica.
Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, viu na formação brasileira a permanência de uma lógica patrimonialista em que o Estado frequentemente se confundia com os interesses privados das elites dominantes. Não é pequena observação. A República brasileira nasceu moderna nos decretos e antiga nos hábitos. A chamada Primeira República, ou República Velha, organizou-se sob o domínio das oligarquias agrárias, particularmente São Paulo e Minas Gerais, nesse casamento administrativo que ficou conhecido como política do “café com leite”. Não sei se havia leite suficiente para todos; café, seguramente, havia para poucos.
O sistema sustentava-se pelo coronelismo, pelo clientelismo e pelo voto de cabresto. A democracia existia, mas com a mesma consistência das cortinas de teatro: escondia mais do que revelava. Victor Nunes Leal, em Coronelismo, Enxada e Voto, descreveu admiravelmente essa engrenagem de favores entre o poder local e o Estado central. O cidadão votava menos por convicção do que por dependência; e talvez a dependência seja a forma mais duradoura de governo neste país.
Nesse período, a polarização ainda não possuía a linguagem ideológica que ganharia depois. Não havia ainda a abundância de rótulos modernos. Existia, contudo, o conflito entre os donos do poder e os que tentavam entrar na história pela porta dos fundos: movimentos populares, revoltas messiânicas, levantes tenentistas. O país parecia uma casa grande cheia de quartos fechados, enquanto alguns batiam às portas com desesperada insistência.
Também aí surgem as primeiras formas do populismo brasileiro, embora os historiadores prefiram situá-lo mais adiante, na Era Vargas. Discordo parcialmente deles, o que é uma ousadia confortável, porque muitos já morreram e não podem responder-me. O coronel da República Velha exercia um poder simbólico. Era pai, juiz, credor, protetor e ameaça; mediava a relação entre o povo e o Estado. Em certas regiões, o Estado chegava apenas montado no cavalo do coronel.
Sérgio Buarque de Holanda perceberia nisso, em Raízes do Brasil, a permanência da pessoalidade brasileira, essa dificuldade nacional de separar as relações públicas das inclinações privadas. O homem cordial talvez tenha sido menos cordial do que íntimo; e a intimidade, quando invade a política, costuma gerar fidelidades mais profundas que as leis.
A Revolução de 1930 rompeu parcialmente o sistema oligárquico e inaugurou uma nova etapa. Getúlio Vargas compreendeu o que poucos haviam compreendido antes: o povo urbano precisava ser incorporado à cena política, ainda que sob vigilância. Surgia então o populismo moderno brasileiro.
Vargas construiu a figura do “pai dos pobres”, expressão que possui alguma ternura e muita estratégia. Aproximou-se das massas trabalhadoras, ampliou direitos sociais, fortaleceu a intervenção estatal e modernizou parte da economia nacional. Ao mesmo tempo, concentrou poder, controlou sindicatos e limitou liberdades políticas. Eis o paradoxo brasileiro: o autoritarismo frequentemente distribuía benefícios para legitimar o próprio poder.
Francisco Weffort, em O Populismo na Política Brasileira, entendeu o populismo brasileiro precisamente como resultado da crise oligárquica e da necessidade de integrar politicamente as massas urbanas produzidas pela industrialização. O povo entrava na política, mas pela mão do líder. Não era emancipação plena; era tutela modernizada.
Na década de 1930, as disputas internacionais entre fascismo, liberalismo e comunismo repercutiram intensamente no Brasil. Integralistas, comunistas e liberais transformaram o país num laboratório febril de antagonismos ideológicos. Vargas utilizou essas tensões para legitimar o Estado Novo, instaurado em 1937. A ditadura surgiu com o velho argumento das ditaduras: salvar a nação dela mesma.
Boris Fausto observou, em História do Brasil, que a Era Vargas promoveu uma modernização conservadora. Julgo a expressão perfeita. Modernizava-se a economia sem democratizar inteiramente o poder. O Brasil avançava industrialmente enquanto permanecia emocionalmente preso ao mando pessoal.
Após 1945, o populismo consolidou-se como linguagem dominante da política nacional. O rádio transformou líderes em vozes familiares, a propaganda produziu imagens messiânicas, os partidos passaram a depender mais do carisma de seus homens do que da consistência de suas ideias.
Carlos Lacerda elevou o antipopulismo ao nível da cruzada moral. Juscelino Kubitschek vendeu progresso com a elegância otimista dos que prometem acelerar o tempo histórico. “Cinquenta anos em cinco” não era um plano administrativo, mas uma fantasia nacional de modernidade.
Entretanto, o país continuava desigual, fragmentado e socialmente tenso. João Goulart aprofundou esse cenário ao defender reformas estruturais voltadas à redistribuição social. O medo cresceu nas elites econômicas, militares e empresariais. A Guerra Fria fornecia o vocabulário perfeito para transformar conflitos sociais internos em ameaça civilizacional.
René Armand Dreifuss demonstrou, em 1964: A Conquista do Estado, como o golpe de 1964 resultou da articulação entre setores empresariais, militares e interesses internacionais. O anticomunismo tornou-se a gramática oficial da ruptura democrática.
A ditadura militar instaurou censura, repressão e perseguição política. Contudo, e aqui talvez resida uma ironia nacional, os militares também recorreram a instrumentos populistas. O nacionalismo econômico, a propaganda patriótica, o slogan do “Brasil Grande”, tudo isso buscava produzir adesão emocional das massas. Mudava-se o uniforme; conservava-se a necessidade de falar diretamente ao imaginário popular.
Elio Gaspari mostrou, em A Ditadura Envergonhada, que o regime combinou modernização econômica com aprofundamento da violência institucional. Crescimento material e sufocamento político caminharam juntos, como dois cavalheiros que fingem não se conhecer.
Com a redemocratização de 1985, acreditou-se que o Brasil finalmente alcançaria estabilidade republicana. O país não a alcançou. A inflação, a crise econômica e o desgaste institucional abriram espaço para novas lideranças personalistas.
Fernando Collor surgiu com o slogan de “caçador de marajás”: criatura perfeitamente televisiva. O combate à corrupção convertia-se em espetáculo moral. A política brasileira passava a depender cada vez mais da mídia de massa.
Marilena Chaui identificou, em Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, a permanência de um autoritarismo social profundamente ligado à desigualdade histórica brasileira. Talvez ela tenha razão. O brasileiro deseja frequentemente líderes fortes porque vive em instituições fracas.
A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, reorganizou completamente o eixo político nacional. Lula construiu uma liderança popular baseada na conciliação, na expansão das políticas sociais e na incorporação econômica das classes historicamente excluídas. Produziu-se uma narrativa coletiva de ascensão social.
Mas toda inclusão produz reações. O antipetismo cresceu associado à ideia de corrupção, aparelhamento estatal e ameaça ideológica. O país passou a dividir-se afetivamente entre duas bandeiras: salvação popular e decadência moral.
As manifestações de 2013, a Operação Lava Jato e o impeachment de Dilma Rousseff aceleraram brutalmente esse processo. O Brasil ingressou numa fase de hiperpolarização digital, impulsionada pelas redes sociais, pela lógica algorítmica e pelos ciclos globais de contestação política.
Jair Bolsonaro emergiu das profundezas desse ambiente combinando nacionalismo, conservadorismo moral, antipetismo e confronto permanente contra instituições tradicionais. Seu populismo de direita apoiou-se intensamente nas redes sociais, na comunicação direta e na fabricação contínua de antagonistas, com um verniz messiânico até vocabular.
Lilia Moritz Schwarcz interpreta, em Sobre o Autoritarismo Brasileiro, que essa radicalização resulta da permanência histórica do autoritarismo brasileiro, do personalismo e da dificuldade nacional de consolidar uma cultura democrática plural. Inclino-me a concordar com ela, embora a concordância completa seja um estado perigoso do espírito. Deixo margem estatística para dúvidas.
A polarização contemporânea revela, portanto, uma longa continuidade histórica. Em diferentes épocas, líderes carismáticos construíram vínculos emocionais diretos com as massas, frequentemente enfraquecendo mediações institucionais e intensificando divisões sociais.
Naturalmente, o conceito de populismo permanece controverso entre historiadores e cientistas políticos, variando conforme a tradição teórica utilizada. Entretanto, reduzir o populismo à mera manipulação ou sedução política das massas seria ingenuidade. O populismo também expressa fragilidades reais da democracia brasileira: desigualdade estrutural, exclusão histórica e baixa representatividade institucional. Onde as instituições não conseguem produzir pertencimento, surge o líder prometendo encarnar sozinho a própria nação.
Talvez seja essa a tragédia recorrente do Brasil: procurar constantemente homens providenciais para resolver problemas que pertencem às estruturas.
Mas não quero terminar pessimista. O pessimismo absoluto possui algo de vaidade intelectual. O Brasil continua sendo uma experiência histórica singular, contraditória, diversa e profundamente plural. Caminha lentamente para algum tipo de maturidade republicana, embora às vezes pareça andar em círculos.
E talvez caminhar em círculos seja apenas o modo brasileiro de seguir adiante.
Referências
FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2019.
GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o Autoritarismo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
WEFFORT, Francisco. O Populismo na Política Brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.
DREIFUSS, René Armand. 1964: A Conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.
CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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