Publicado em: 12 de maio de 2026
Entre o cheiro da farinha recém-torrada, o barulho das marés que avançam pelos manguezais e o silêncio ancestral das canoas deslizando pelos rios amazônidas, a exposição é, ao mesmo tempo, memória, denúncia, celebração e resistência. O Polo Amazônico de Gastronomia, no Parque da Cidade, sedia o evento Comida Cabocla: pertencimento e resistência na Amazônia Atlântica, transformando a comida em narrativa cultural e em instrumento de reflexão sobre o modos de vida amazônida.
Idealizada e curada pelo antropólogo e pesquisador Miguel Picanço, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, a mostra surgiu como desdobramento de sua tese de doutoramento, marcada por forte caráter etnográfico. Resultado de imersões em campo realizadas, sobretudo, na comunidade de Araí, em Urumajó, no nordeste paraense, junta fotografias, objetos da cultura material alimentar e registros sensíveis das práticas cotidianas de populações caboclas amazônicas.
“O que comemos, como comemos, quando comemos e com quem comemos diz muito sobre o nosso lugar no mundo. A comida é linguagem, é memória, é pertencimento”, afirma Miguel Picanço. A frase, fio condutor da exposição, ajuda a compreender que os alimentos ultrapassam a dimensão biológica: comunicam identidades, afetos e territorialidades.
Artefatos que remetem aos universos da roça, dos rios e das marés: casas de farinha, fogões de barro, tipitis, paneiros, remos, canoas, redes de pesca e de dormir, cada objeto carregando marcas do tempo e das mãos que o produziram, revelam tecnologias tradicionais construídas a partir da relação íntima entre os povos amazônicos e a natureza.
Mais do que utensílios, esses elementos contam histórias. De famílias que sobrevivem da mandioca, do pescado, do açaí e dos frutos dos quintais; de mulheres que preservam os saberes do beiju, do mingau, do chibé e da farinha; de homens que atravessam rios ao amanhecer em busca do peixe que sustentará a casa. Em cada fotografia há uma narrativa silenciosa sobre dignidade, trabalho e resistência.
“A comida cabocla funciona como uma espécie de carteira de identidade alimentar dos povos amazônidas”, destaca Picanço. “Ela comunica modos de existir, formas de sentir o mundo e maneiras próprias de construir a vida coletiva.”
A exposição, vinculada ao ALERE – Grupo de Pesquisa em História da Alimentação e do Abastecimento na Amazônia (UFPA/CNPq) e ao projeto Itinerâncias dos Sabores e Saberes da Cultura Alimentar Amazônica (PNAB/SECULT/2025), também funciona como ação de valorização do patrimônio cultural alimentar amazônida, frequentemente invisibilizado pelas narrativas oficiais da cultura brasileira.
Em tempos marcados pela industrialização dos alimentos e pela padronização global dos gostos, Comida Cabocla representa, ainda, gesto político e contra-hegemônico, a romper simbolicamente com a ideia histórica de que os espaços de arte pertencem apenas às elites urbanas.
Ao trazer para o centro do debate as práticas alimentares dos caboclos amazônida, a mostra reposiciona saberes tradicionalmente marginalizados e reafirma a potência cultural das populações ribeirinhas e rurais.
“O que está em jogo aqui não é apenas comida”, observa Miguel Picanço. “Estamos falando de modos de vida ameaçados, de conhecimentos ancestrais e de formas de resistência cotidiana diante de um mundo que tenta uniformizar os corpos, os hábitos e os gostos.”
Essa resistência se expressa no preparo artesanal da farinha, no café compartilhado ao amanhecer, no açaí tomado com peixe frito, no chibé levado para a roça, no saber transmitido entre gerações. São práticas que insistem em permanecer vivas, apesar das pressões econômicas, das transformações urbanas e da crescente descaracterização cultural.
Aberta à visitação pública até o dia 30 de junho, a exposição também dialoga especialmente com a comunidade escolar de Belém, convidando estudantes, professores e visitantes a refletirem sobre alimentação, memória, identidade e patrimônio cultural.
No próximo dia 11, das 18h30 às 20h30, haverá uma sessão de autógrafos dos livros “Itinerâncias dos sabores e saberes da cultura alimentar amazônica” e “Comida cabocla: uma questão de identidade na Amazônia”, de Miguel Picanço.
Na ocasião, haverá imersão gustativa, experiência unindo conversa, sabores e memória afetiva em torno da culinária amazônida. A atividade será conduzida por Miguel Picanço e contará com uma mesa posta regada a açaí com farinha baguda, chibé com charque, camarão e café com farinha de coco — alimentos que atravessam gerações e sintetizam parte importante da experiência alimentar amazônida.
Um chamado para perceber que, entre panelas de barro, cuias de açaí e casas de farinha, existem mundos inteiros sendo produzidos cotidianamente.















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