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Reunimo-nos hoje para celebrar um marco de grande relevância: os 126 anos de história da Academia Paraense de Letras. Mais do que uma data comemorativa, este momento representa a reafirmação de um compromisso contínuo com a cultura, a literatura e a identidade do povo paraense, da Amazônia.
Fundada em 03 de maio de 1900, por iniciativa de Domingos Antônio Raiol, o Barão de Guajará, cuja sessão ocorreu no Teatro da Paz e presidida pelo então governador Paes de Carvalho. A Academia nasceu do ideal de um grupo de intelectuais que vislumbrava a valorização do patrimônio linguístico e literário da nossa terra. Desde então, consolidou-se como uma das mais antigas e respeitadas instituições culturais do Brasil, guardiã da memória e promotora do pensamento crítico.
Ao longo de sua trajetória, a Academia Paraense de Letras tem desempenhado papel essencial na preservação da cultura regional, incentivando a produção literária, promovendo encontros, debates, conferências e reconhecendo o talento de escritores que ajudam a contar a história do Pará e da Amazônia. Sua biblioteca, seus eventos e sua presença institucional são testemunhos vivos de sua missão. Reafirma assim os seus Estatutos e Regimento de outrora, inclusive dos documentos aprovados em 6 de abril de 1955, tendo como bibliotecário e Arquivista o ilustre Bruno de Menezes.

Celebrar o passado, contudo, é também assumir a responsabilidade com o presente e com o futuro. Hoje, a Academia é formada por 40 acadêmicos, entre os quais destacamos a presença de 7 mulheres — Maria Betânia de Carvalho Fidalgo Arroyo (cadeira 02), Márcia Duailibe Forte (cadeira 13), Maria de Nazaré de Mello e Silva Uchôa (cadeira 16), Maria Edy-Lamar Gonçalves de Oliveira (cadeira 20), Nelly Cecília Paiva Barreto da Rocha (cadeira 23), Sarah Castelo Branco Monteiro Rodrigues (cadeira 28) e Maria Franssinete de Souza Florenzano (cadeira 29) — que, ao lado dos demais ilustres membros, honrosos homens das letras da Amazônia paraense que enriquecem o debate intelectual e fortalecem a diversidade de vozes em nossa instituição.

Permitam-me, neste momento, dedicar esta homenagem às mulheres, não apenas como integrantes da Academia, mas como protagonistas indispensáveis da construção cultural do Pará. A opção por esta singela homenagem é uma resposta a um cenário que tem sido marcado por dores e sangue produzido numa escalada de violência sem igual sobre as mulheres e neste mês de maio, em que mães são celebradas, é um tempo de clamar por justiça e pelo direito de existência das mulheres tradutoras de amor ao gerarem vidas.

Durante muito tempo, a presença feminina nos espaços de produção intelectual foi limitada por barreiras históricas e sociais. Ainda assim, as mulheres escreveram, ensinaram, resistiram e transformaram. Nossa primeira mulher a ocupar uma cadeira na APL foi a pioneira Guille Furtado Bandeira, seguida das ilustres Dalcinda Camarão, Maria Annunciada Chaves, Silvia Helena Tocantins, Lucy Gorayeb e Maria Izabel Benone. Essas mulheres foram imortalizadas, abriram caminhos e hoje podemos nos orgulhar: Mulheres, suas histórias são memórias vivas presentes entre nós!

As acadêmicas aqui presentes representam mais do que nomes em cadeiras, representam trajetórias de dedicação ao conhecimento, à palavra e à cultura. Cada uma delas carrega consigo a força de muitas outras mulheres que, ao longo da história, contribuíram, muitas vezes de forma silenciosa, para o desenvolvimento da literatura e do pensamento amazônico.
Homenagear essas 7 mulheres em especial é, portanto, reconhecer uma presença que precisa continuar crescendo. É afirmar que a literatura paraense se fortalece quando incorpora múltiplas vozes, olhares e experiências. É compreender que não há futuro cultural pleno sem equidade, sem inclusão e sem o reconhecimento efetivo do papel das mulheres na produção do saber.

Se é verdade que as questões de gêneros são fundamentais para a garantia do futuro da humanidade, pois matando as mulheres, literal e simbolicamente, não teremos onde chegar, faz -se fundamental que outras questões também sejam refletidas, como do local de onde falamos, no nosso caso a AMAZONIA.
Vivemos um tempo em que a Amazônia se encontra no centro das atenções globais. O ano de 2025, marcado pela realização da COP 30 em nossa região, trouxe ao mundo um olhar atento sobre os desafios ambientais, sociais e econômicos que enfrentamos. Não podemos permitir que esse momento histórico se perca. Pelo contrário, cabe a nós transformá-lo em reflexão permanente e em ação concreta.

Nesse contexto, a Academia Paraense de Letras é chamada a exercer um protagonismo ainda maior, passando, necessariamente, pela formação de leitores e leitoras críticos, sensíveis, capazes de compreender o mundo e de intervir nele com consciência e responsabilidade.

Formar leitores não é apenas ensinar a decifrar palavras. É despertar consciências. É abrir horizontes. É oferecer instrumentos para que cada indivíduo compreenda a si mesmo, o outro e o mundo que o cerca. Um leitor é, antes de tudo, um sujeito capaz de interpretar a realidade, de questionar verdades estabelecidas e de participar ativamente da vida social.

Por isso, a literatura assume um papel central. A literatura amazônica, ao retratar nossas paisagens, nossas vozes e nossas contradições, fortalece o sentimento de pertencimento. A literatura brasileira amplia nossa identidade nacional. E a literatura universal nos conecta com a experiência humana em sua totalidade. Ler é, portanto, um ato de construção de cidadania.

A literatura, seja ela amazônica, brasileira ou universal, é instrumento fundamental para a construção desses sujeitos. Por meio dela, a realidade é interpretada, questionada e ressignificada. A arte literária nos permite enxergar além do imediato e compreender a urgência de construir alternativas mais justas, sustentáveis e humanas.
Mas essa formação não ocorre de maneira espontânea, exige intencionalidade, continuidade e compromisso institucional. É nesse ponto que a Academia Paraense de Letras pode e deve ampliar sua atuação.

É preciso transformar a Academia em um polo irradiador de práticas leitoras. Promover ações com o objetivo de levar a literatura para além dos espaços tradicionais, alcançando escolas, comunidades, territórios muitas vezes afastados dos bens culturais.
E aqui se estabelece um elo fundamental: a relação entre a Academia e a ação educativa nas escolas. A escola é o espaço privilegiado de formação de leitores. No entanto, ela não pode estar sozinha nessa missão. A aproximação entre a Academia Paraense de Letras e as redes de ensino, públicas e privadas, pode gerar uma transformação profunda. Acadêmicos podem atuar como conferencistas, patronos de projetos de leitura, orientadores de jovens escritores. Obras de autores paraenses podem ser incorporadas de forma mais sistemática aos currículos escolares. Professores podem ser apoiados com formação continuada voltada à mediação de leitura e à valorização da literatura regional.

Mais do que formar leitores, trata-se de formar sujeitos pensantes, capazes de intervir no mundo com sensibilidade, criticidade e responsabilidade. E essa formação é essencial diante dos desafios contemporâneos, especialmente aqueles que dizem respeito à Amazônia.

Se queremos um futuro sustentável, justo e equilibrado, precisamos de cidadãos que compreendam a complexidade do nosso tempo. E essa compreensão passa, inevitavelmente, pela leitura, pela cultura e pela educação.

Diante disso, este aniversário deve ser também um chamado à ação, um ponto de inflexão. Que a Academia Paraense de Letras fortaleça sua presença na vida educacional do Pará, promovendo um verdadeiro movimento de letramento cultural e social. Que construa pontes sólidas com escolas, universidades, professores e estudantes. E que se consolide, cada vez mais, como uma instituição viva, atuante e comprometida com a formação intelectual e humana de nossa sociedade.

Que possamos formar gerações de leitores que não apenas apreciem a literatura, mas que sejam capazes de transformar a realidade em que vivem.
Assim, ao celebrarmos estes 126 anos, celebramos também a continuidade de um projeto que ultrapassa o tempo: o projeto de pensar, de criar, de preservar e de transformar. Essa nossa celebração de hoje me recordou Epístola sobre o Jardineiro e o Rei de nosso ilustre poeta e escritor João de Jesus Paes Loureiro. Assim sensivelmente escreveu e aqui leio alguns fragmentos dessa Epístola icônica:
Certa vez, num país de sol, o Rei tentou proibir que se plantassem flores e que o s pássaros cantassem.

Não fora, apenas, o fato de ser ingênuo proibir plantar-se flores e aos pássaros cantar, o Rei – todo poderoso – determinou o encarceramento dos jardineiros desobedientes.
E mais nenhuma rosa se fez… Morreram tantos beija-flores nesse país de sol, que houve um crepúsculo ao meio-dia só de pássaros agonizantes…
O Rei, Coroado com a fúria dos tiranos, submeteu o jardineiro ao mais severo processo que se tem notícia nesse país de sol:
– Jardineiro, de que vivem os pássaros? – De flores e de cânticos…
– Jardineiro, de que vivem as flores? – De perfumes e cuidados…
– Jardineiro, Quem plantou essas flores? – Os pássaros, Que vivendo delas, plantaram-se roseiras e quando mortos, foram sementes sonoras de outras rosas!
E o Rei percebeu que havia alguma coisa que ele não podia fazer e se tornou tirano, porque se viu mais fraco. Compreendeu que podia esmagar o homem, não a sua obra.
Ordenou, novamente, que encarcerassem o jardineiro, que poderia ter plantado aquelas flores… e nem percebia que nos campos de seu reino começava a ser verdade a primavera.

A Academia Paraense de Letras seguirá escrevendo sua história como o jardineiro, semeando palavras, escrevivências, memórias e bonitezas. Nessa história mais que centenária, atravessamos tempos fecundos e de intempéries. O que importa é que a nenhum tempo deterão a nossa primavera.

Que a Academia Paraense de Letras siga firme em sua missão, honrando seu passado, atuando com vigor no presente e construindo, com sabedoria, o futuro.

Muito obrigada.

* Discurso proferido como oradora oficial da sessão solene da APL alusiva ao seu 126° aniversário de fundação.

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