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Há quatro anos, um projeto de turismo de base comunitária conecta ilhas, quilombos e praias em roteiro que prioriza preservação ambiental e geração de renda local em uma rede de comunidades tradicionais no Pará, com protagonismo feminino e foco na preservação ambiental. A Quase Nativa — Expedição Amazônia Paraense promove territórios como Soure, Pesqueiro, Quilombo de Mangueiras, Cotijuba e Algodoal, propondo uma alternativa ao modelo de turismo massivo ao colocar moradores locais no centro da experiência.

A proposta se estrutura a partir de vivências que aproximam visitantes e comunidades, com hospedagem em casas de moradores e atividades conduzidas por quem vive nos territórios. As expedições se diferem das práticas consideradas predatórias porque priorizam o intercâmbio cultural e a valorização dos modos de vida tradicionais, transformando o turismo em instrumento de fortalecimento econômico e social para mulheres negras, ribeirinhas e periféricas.

Oficina de cerâmica marajoara

Ao longo dos últimos anos, o projeto percorreu rotas menos convencionais da Amazônia, firmando parcerias com comunidades que compartilham uma mesma perspectiva de turismo regenerativo. A iniciativa busca devolver ao território mais do que extrai, promovendo práticas que incentivam a conservação ambiental e o reconhecimento de saberes tradicionais como parte de uma economia sustentável.

A próxima expedição já tem roteiro definido e será realizada entre os dias 9 e 14 de novembro, com percurso pela Ilha do Marajó, incluindo passagens por Belém e pela Ilha de Cotijuba. Durante seis dias, participantes terão contato direto com práticas culturais e cotidianas das comunidades, em uma programação que envolve manifestações como o carimbó, a culinária local, banhos de cheiro, plantio de mudas e rodas de conversa. A realização conta com a parceria da Terra Expedição, agência sediada em Alter do Chão.

A condução das atividades é protagonizada por mulheres que atuam como anfitriãs, instrutoras e lideranças locais. Uma das idealizadoras da iniciativa, Júlia Leão Monteiro, destaca que o projeto nasceu da experiência acumulada em viagens e da percepção de desigualdade de gênero no setor. “A Expedição Amazônia Paraense surge dessas vivências de viagem, dentro do Pará, fora do Pará, viagens internacionais, muitas delas mochilando e conhecendo outras mulheres viajando. A gente foi se especializando nessa área, de forma mais profissional, mas sem perder a diversão que também faz parte. O objetivo é entender esse território e trabalhar o turismo de uma forma que respeite as identidades, as raízes, as histórias de quem está aqui. A gente também percebeu que havia muitos homens como protagonistas dentro do turismo e poucas mulheres. Então ocupar esse espaço é fundamental, é importante. E girar essa renda entre mulheres negras, entre mulheres periféricas.”

Em Soure, no Marajó, a instrutora de carimbó e lundu marajoara Fabrícia Marques relata impactos diretos da iniciativa em sua trajetória. “Me dando oportunidade de trabalho, de renda e de poder mostrar para as pessoas que venham conhecer os lugares, a cultura e vivências que só o Marajó tem. Assim posso ajudar minha mãe e ter condições de comprar minhas coisas, sem ficar dependente de alguém.”

Vivência Danças Carimbó com Fabrícia Marques

No Quilombo de Mangueiras, em Salvaterra, a liderança Noemi Barbosa aponta o respeito cultural como elemento central da proposta. “O mais importante é que as pessoas que venham visitar o nosso território respeitem a nossa história, nossas lendas, nossos contos. A gente conta o que nossos antepassados contaram, e é através dessa oralidade que vai passando de geração em geração. Muitas vezes quem vem não acredita em lendas. Mas quem não acredita, que não critique. O respeito é o que não pode faltar: respeito à nossa cultura, à nossa vida, ao nosso modo de vida.”

A expansão do projeto conta com apoio institucional por meio da Chamada Pública Aipê — Aliança pela Inclusão Produtiva, realizada pelo SER em parceria com organizações como BNDES, Fundação Arymax, Fundação Tide Setubal, Instituto Humanize, Instituto HEINEKEN, Instituto Votorantim e Santander. O suporte viabiliza tanto a realização das expedições quanto a formação das participantes em áreas como turismo e língua inglesa, ampliando oportunidades profissionais.

Foto em destaque: Trilha do Algodoal (Na Cuia Assessoria)

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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