Publicado em: 2 de maio de 2026
O Modelo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro possui uma contradição fundamental que reside, de forma cristalina e incômoda, na abissal distância entre o nosso Produto Interno Bruto (PIB) e o nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Ao mesmo tempo em que nos consolidamos como uma das nações que mais trabalha e produz no mundo — ocupando atualmente a 11ª posição no ranking do PIB global, com projeções de retorno ao top 10 —, amargamos a modesta 84ª posição no ranking do IDH da Organização das Nações Unidas (ONU). Este índice, vale ressaltar, é o indicador oficial que mais se aproxima de medir, com precisão metodológica, a real qualidade de vida das nações.
Esses dados macroeconômicos e sociais não são meras abstrações estatísticas; eles evidenciam, de maneira insofismável, um crônico vazamento da riqueza que já geramos. Trabalhamos exaustivamente, produzimos riquezas em escala global, mas, contraditoriamente, não usufruímos da correspondente melhoria na qualidade de vida de nossa nação. A riqueza escorre pelos ralos de um modelo econômico estruturalmente excludente.
Contudo, é quando direcionamos nosso olhar para a região Norte, e mais especificamente para o estado do Pará, que a perversidade desse modelo se revela em sua face mais cruel. A mais contundente evidência desse vazamento de riqueza no nosso estado materializa-se nos alarmantes dados da informalidade do trabalho. Enquanto no cenário nacional a informalidade atinge cerca de 37,5% da população ocupada, o Pará enfrenta uma realidade ainda mais drástica.
O Pará convive com uma das maiores taxas de informalidade trabalhista do Brasil, só perde para o Maranhão. Em 2025, o estado registrou uma taxa anual de 58,5%, a segunda maior do país. São milhares de paraenses que enfrentam a instabilidade diária da renda, destituídos de direitos fundamentais como férias, 13º salário, seguro-desemprego ou proteção previdenciária. Em capitais como Belém, o mercado de trabalho informal afeta cerca de 40% da força de trabalho, atingindo historicamente, com maior gravidade, mulheres, pretos e pardos.
Avançando na análise destas contradições, deparamo-nos com um paradoxo estritamente amazônico e paraense: o Pará apresentou um crescimento robusto do PIB, atingindo 4,51% em 2025 — quase o dobro da média nacional de 2,29%. No entanto, esse formidável salto na produção de riquezas em solo paraense convive com um aumento da informalidade, hoje cerca de 50% maior que a média nacional. Este cenário reforça a tese de que o modelo de desenvolvimento econômico adotado em nosso estado aparta, de forma sistemática, o crescimento da riqueza produzida da qualidade de vida da população.
Na prática, isso significa um enfraquecimento estrutural da economia interna paraense. Com a perda da capacidade de consumo das famílias, impulsionada pela precarização do trabalho, prejudicam-se diretamente os negócios e os empresários que atuam no mercado interno, em particular aqueles do setor varejista. A riqueza gerada em nossas terras, a partir dos nossos recursos, não circula localmente; ela é exportada, deixando para trás apenas os passivos sociais e ambientais.
Estudos aprofundados realizados por pesquisadores da Universidade da Amazônia (UNAMA) e da Universidade Federal do Pará (UFPA), identificaram a raiz desse processo no Pará. O protocolo comercial internacional criado pelos grandes compradores de insumos brutos para suas indústrias, denominado genericamente de Commodities, estabelece referências predatórias. Tais referências exigem que insumos extraídos do nosso solo, como minério de ferro, soja e outros grãos, sejam exportados sem qualquer beneficiamento, concorrendo no mercado externo baseados única e exclusivamente pelo preço baixo, sem a agregação de valor local.
É esta condição perversa que nos força, no Pará e no Brasil, a exportar minério de ferro e importar aço, exportar soja e importar lecitina. A conta não fecha. E o silêncio nacional e regional em torno disso é ensurdecedor.
Para sustentar essa redução contínua de preços no mercado internacional, os produtores de produtos enquadrados como commodities são subordinados a obedecer a uma lógica implacável. Passam a cumprir o papel de principal sujeito econômico-político que esvazia o consumo interno, exercendo forte e constante pressão para a redução dos salários e a supressão dos postos de trabalho formal. Além disso, essa mesma lógica pressiona o Estado por recursos públicos, na forma de subsídios e isenções, para financiar o acesso a insumos produtivos, principalmente máquinas e fertilizantes importados.
Mais grave ainda, este modelo estimula que setores menores e periféricos dessa cadeia busquem se sustentar, em nossas fronteiras amazônicas, através de práticas criminosas, como a exploração do trabalho análogo à escravidão e a grilagem de terras. Essa dinâmica marginal não apenas violenta os direitos humanos, mas também diminui a segurança jurídica e econômica de todos, inclusive dos produtores sérios que tentam atuar dentro da legalidade no mesmo setor.
Por fim, é imperativo concluir que esta lógica econômica também deprecia e corrói a nossa democracia. Ela atua na produção artificial de uma polarização política rasa, desprovida de base em dados científicos, cujo principal objetivo é impedir que os pesquisadores consigam fazer com que suas análises sobre a realidade paraense e nacional cheguem à opinião pública.
Esta semana, vivenciei pessoalmente esta dinâmica. Fui entrevistado por uma rede nacional de televisão brasileira, para uma matéria no principal telejornal da emissora, justamente sobre o porquê do crescimento da informalidade no Brasil e na nossa região. Dos 15 minutos de entrevista, nos quais me dediquei a explicar, com rigor acadêmico, o que as pesquisas científicas leram das evidências estatísticas oficiais, foram veiculados meros 5 segundos de uma frase solta e, assim, quase sem sentido.
A censura econômica é um fato. Ela opera silenciosamente, esvaziando não apenas a nossa riqueza paraense através da exportação primária, mas também sufocando a liberdade de expressão e o debate qualificado sobre o projeto de estado e de país que queremos construir.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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