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Na crônica anterior mencionava minha percepção de que a Cidade Proibida, em Pequim, pode ser lida por meio de uma gramática de poder que teria cinco elementos, cinco classes gramático-retóricas: os prédios, os símbolos, as passagens, os vazios e a espiral do entorno. Tudo envolvido na mística de um universo fechado e com regras cosmológicas siderantes.

Nessa gramática, os prédios atuam como sujeitos. A Cidade Proibida é organizada em duas grandes áreas: a Corte Exterior, ao sul, com função cerimonial e política, e a Corte Interior, ao norte, espaço da vida privada do imperador. Na primeira delas se localizam o Salão da Suprema Harmonia, destinado a abrigar cerimônias importante, como coroações e casamentos imperiais; o Salão da Harmonia Central e o Salão da Preservação da Harmonia. Na segunda, encontram-se o Palácio do Imperador, os Quartos da imperatriz, as Residências das concubinas, o Palácio da Rainha Viúva e os Jardins imperiais. Nada era multifuncional como hoje — tudo era separado e altamente controlado.

Os prédios constituem o ponto central de visibilidade e, portanto, enunciam a monumentalidade do conjunto. São 980 prédios, 8.700 salas. As estruturas são quase sempre de madeira armada, com um uso raro de pregos.

Salões de aparato são ladeados por salas menores e corredores levam a quartos curiosamente pequenos, quando comparados aos palácios do ocidente, mas há uma razão para isso: acredita-se que quartos com largura pequena e compridos significam uma vida longa e sábia, ideal confuncionista.

A segunda categoria gramático-retórica, os símbolos, incluem os ornamentos, escritos, pictogramas, grafismos, estatutárias, tapeçarias etc, que funcionam como complementos, complementos nominais e objetos diretos dos sujeitos. Alguns padrões são os seguintes: fundo azul, representando o céu, em placas com o nome dos pavilhões; telhados com telhas amarelas, a cor imperial; bases de colunas de mármore branco, sugerindo que as estruturas dos prédios fincam-se nas nuvens eternas do céu; decoração com dragões de cinco garras, o símbolo do imperador. Nada é aleatório — cada detalhe representa poder, ordem e harmonia cósmica (influência do confucionismo e do feng shui).

O elemento simbólico fundamental, no entanto, ao mesmo tempo agregativo e generalizou, era o imperador. O imperador era visto como o “Filho do Céu”, num contexto onde tudo tinha significado espiritual. E isso era complementado com a imagem do dragão, sempre associado à sua figura. Só o imperador podia usar o símbolo do dragão com 5 garras…

A Cidade Proibida, tal como concebida e construída, não era só um palácio — era, ao mesmo tempo, um centro político, uma residência imperial, um espaço sagrado e um símbolo de ordem universal. Tudo, nela, foi projetado para reforçar a ideia de que o imperador governava com mandato divino.

Há muitas simbologias na Cidade Proibida. Uma das mais importantes se relaciona ao número 9, o qual aparece constantemente em escadas, portas e pregos, e que representa o poder imperial e, ao mesmo tempo, a eternidade.

A terceira categoria da nossa semiótica experimental
se refere às passagens, ou melhor, às portas, portais, portões, pórticos, arcos e demais monumentos que sugerem a ideia de passagem. Na verdade, a simbologia das portas está presente em toda a cultura chinesa. Pequenas vendas possuem portas suntuosas e por todos os lados há pórticos de passagem. Por exemplo, na entrada de uma rua comercial, ou de um parque. Trata-se da mitologia da passagem do tempo e da vida, que evoca brevidade da existência e o caminho contínuo do curso da história, tanto a individual como a coletiva.

A Cidade Proibida está cheia de portas, tanto as monumentais como as secretas. Há portas exclusivas para a passagem do imperador. Algumas vezes há, ao lado desta, portas menores, para a paragem dos nobres e dos generais e outras menores ainda, para passagem das pessoas “comuns”.

E, como dizia, há portas, passagens e salas secretas. Algumas salas quase nunca eram usadas, existindo apenas para confundir eventuais inimigos e proteger o imperador e, nesse sentido, também figuravam numa mitologia de passagem.

Porém, se as portas tinham uma função simbólica, elas desempenhavam, também, uma função militar, pois os portões sequenciais funcionavam como filtros de acesso, numa estrutura feita para dificultar invasões.

Essas passagens seriam, na nossa categorização gramático-retórica da Cidade Proibida, objetos indiretos, ou, ainda complementos de objetos indiretos, pois conectam sujeitos, ações e modos temporais.

Passemos à quarta categoria, o espaço vazio – talvez o vazio do espaço, o que não é a mesma coisa – embora nenhuma das duas ideias tenha, para mim, valor negativo.

Além de pensar nas temporalidade e coreografias impostas pela arquitetura desse lugar penso, igualmente, na importância que os vazios têm, ali.

Na verdade, nunca vi um lugar de poder tão marcado pelo vazio. Já estive em muito lugares de poder e sei que o vazio é uma peça de linguagem importante em todos eles (Brasília, por exemplo), mas nunca vi um lugar onde o vazio fosse tão imponente, um “vazio operante”, como disse François Jullien, um vazio que não está lá para adornar os prédios, mas que tem vida própria, que enuncia a si mesmo.

Fenomenologicamente, concluo que, na Cidade Proibida, o poder não está nos palácios, mas no intervalo entre eles – um tipo de abundância que tem sentido próprio por aqui.

Na verdade, é como se algum imperador ainda estivesse por aqui. Acho que a China de hoje deseja dizer isso, de alguma maneira. Como se estivesse aqui ou como tivesse acabado de sair daqui. Pensar fenomenologicamente na Cidade Proibida é como uma crônica, ou um poema, borgiano: labirintos, impérios, infinitude simbólica…

Em minha mente, apesar do fluxo de pessoas ao meu lado, tanto o tempo como a arquitetura se tornam rituais. Na Cidade Proibida nunca estamos; simplesmente a atravessamos, num ritmo ritual que pode ser percebido sensorialmente: tempo, poder, vazio…

Por fim, refiro a quinta categoria gramático-retórica: a especial do entorno. O que significa isso? Significa a expansão simbólica da Cidade Proibida por Pequim. Desde o regime nacionalista, mas, sobretudo, após a revolução comunista, seu entorno vai sendo reorganizado urbanisticamente, com a incorporação de prédios públicos, grandes avenidas, praças, parques o monumentos e, sobretudo, a imensa Praça da Paz Celestial, o monumental mausoléu de Mao Tse-Tung, o Prédio da Assembleia Nacional, a sede do Politubro e outros prédios públicos, além de estátuas, monumentos e enormes avenidas que espiralizam a Cidade Proibida por seus entornos.

Como disse antes, o modelo da Cidade Proibida não é algo finito e fechado sobre si mesmo, mas um produto, um “conteúdo”, de uma forma social (meus alunos entenderão rapidamente o que estou falando) historicamente presente: a própria formação econômico-social da China, que é o ponto vetorial de onde se deve partir para entender o país.

E, afinal, refletindo sobre a materialidade poder, concluo que, este lugar, esta “cidade”, nunca foi realmente “proibida” – foi apenas seletiva, como é da essência do fenômeno do poder.

A espiral de entorno se insere nessa formação econômico-social e leva a China ao seu futuro – e é por isso que se diz que há um “socialismo chinês”, e não a reprodução, de um determinado modelo de socialismo, na China.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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