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Um estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) investiga o potencial da manteiga de murumuru como base para sistemas de liberação controlada de medicamentos, com aplicação nas indústrias farmacêutica e cosmética. A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento Farmacotécnico e Cosmético (LPDF), vinculado ao Instituto de Saúde Coletiva (Isco), e envolve colaboração científica com instituições do Brasil e do exterior.

A matéria-prima analisada é derivada da palmeira Astrocaryum murumuru, espécie comum na Amazônia e conhecida pelo alto teor de ácidos graxos, como ácido láurico, mirístico e oleico. Esses compostos apresentam propriedades relevantes para o desenvolvimento de formulações farmacêuticas e cosméticas.

Nos experimentos conduzidos no laboratório da Ufopa, a manteiga de murumuru foi utilizada como base para um sistema de liberação de fármacos voltado a aplicações tópicas. Os testes laboratoriais indicaram desempenho considerado “ótimo”, com perfil de liberação gradual da substância ativa, boa capacidade de penetração cutânea e ausência de toxicidade.

Os resultados apontam a possibilidade de desenvolvimento de formulações dermatológicas com menor risco de irritação e maior aceitação pelos usuários. A proposta busca combinar eficácia terapêutica com princípios de sustentabilidade no desenvolvimento de novas tecnologias em saúde.

Segundo as pesquisadoras Amanda Caroline Esquerdo da Silva e Kariane Mendes Nunes, coordenadora do LPDF, a tecnologia investigada pode melhorar a forma como medicamentos tópicos são administrados. Kariane Nunes explica que “é possível manter concentrações terapêuticas por um período mais prolongado com uma única aplicação, o que reduz a frequência de uso, melhora a adesão ao tratamento e aumenta o conforto e a segurança do paciente.”

O estudo foi conduzido ao longo de quatro anos e envolveu 25 tentativas experimentais até que a equipe alcançasse a estrutura considerada ideal para o sistema de liberação do medicamento testado, o metronidazol. O resultado foi obtido com a formação de uma chamada mesofase hexagonal, estrutura físico-química que permite a liberação gradual do fármaco.

De acordo com Kariane Nunes, essa organização molecular é decisiva para o funcionamento do sistema. Ela explica que “na mesofase hexagonal, sua estrutura é formada por canais cilíndricos altamente organizados, que funcionam como verdadeiros ‘reservatórios’ microscópicos para o fármaco. Essa estrutura dificulta a difusão rápida do fármaco para o meio externo, fazendo com que ele seja liberado de forma gradual e sustentada ao longo do tempo.”

O trabalho científico foi realizado pela pesquisadora Amanda Esquerdo sob orientação de Kariane Nunes e contou com cooperação técnica entre a Ufopa, a Università degli Studi di Parma (UNIPR), na Itália, e a Universidade de Brasília (UnB).

Os resultados foram publicados no periódico científico internacional Journal of Drug Delivery Science and Technology, em artigo intitulado “Advancing a surfactant-free sustainable drug delivery system based on the Amazon Astrocaryum murumuru butter for topical application” (“Avanço de um sistema sustentável de liberação de fármacos, livre de surfactantes, baseado na manteiga amazônica de Astrocaryum murumuru para aplicação tópica.”).

Para a coordenadora do laboratório, a publicação em um periódico internacional representa reconhecimento da qualidade científica da pesquisa. Kariane Nunes afirma que “a publicação em uma revista de prestígio internacional representa o reconhecimento da qualidade científica, da originalidade da proposta e da relevância global da pesquisa desenvolvida na Amazônia. Demonstra que o grupo de pesquisa da Ufopa está produzindo ciência competitiva em nível internacional, com rigor metodológico e inovação tecnológica.”

A trajetória da pesquisadora Amanda Esquerdo está diretamente ligada ao desenvolvimento desse estudo. Ela iniciou sua participação no laboratório ainda durante a graduação em Farmácia na Ufopa, atuando inicialmente como voluntária no Laboratório de Farmacotécnica. A partir dessa experiência, passou a se dedicar à investigação sobre o uso de matérias-primas naturais na produção de tecnologias farmacêuticas.

O tema tornou-se central em sua formação acadêmica, sendo desenvolvido no trabalho de conclusão de curso e posteriormente aprofundado em sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGSA) do Isco. Durante intercâmbio acadêmico na universidade italiana parceira da pesquisa, Amanda ampliou os estudos sobre aplicações farmacêuticas da biodiversidade amazônica.

Ela afirma que “transformar biodiversidade em conhecimento aplicado” representa uma possibilidade concreta de inovação científica. Segundo a pesquisadora, os resultados indicam que a manteiga de murumuru pode desempenhar um papel relevante na indústria farmacêutica e dermocosmética.

Amanda Esquerdo afirma que “tal evidência destaca a manteiga de murumuru como uma matéria-prima promissora para o desenvolvimento de formulações tópicas, capaz de aliar desempenho tecnológico, biocompatibilidade e menor risco de irritação. Mais do que um insumo regional, ela se mostra uma plataforma tecnológica com potencial real de aplicação farmacêutica e dermocosmética.”

A pesquisadora também enfatiza que o processo de desenvolvimento da pesquisa envolveu desafios técnicos e institucionais. Para ela, o reconhecimento internacional obtido com a publicação científica demonstra que a produção científica na Amazônia pode alcançar visibilidade global. Amanda Esquerdo afirma que “essa conquista simboliza muito mais do que um artigo publicado, demonstra que ciência de qualidade não é determinada exclusivamente por infraestrutura sofisticada, mas por consistência, relevância e comprometimento. Mostra, sobretudo, que pesquisas desenvolvidas na Amazônia, mesmo aquelas consideradas ‘simples’ em termos estruturais, podem alcançar visibilidade e reconhecimento em periódicos de alto impacto.”

A cientista também destacou o papel institucional da Ufopa no desenvolvimento da pesquisa, ressaltando o apoio financeiro concedido por meio de edital da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação Tecnológica (Proppit). Segundo ela, esse incentivo foi fundamental para viabilizar a publicação e fortalecer a produção científica regional.

Além da contribuição científica, o estudo apresenta implicações para a economia regional. A manteiga de murumuru já é amplamente utilizada na indústria cosmética, especialmente em produtos capilares, e pode representar uma alternativa ao uso de componentes sintéticos em formulações farmacêuticas.

Para Kariane Nunes, o desenvolvimento dessa tecnologia pode contribuir para a valorização das cadeias produtivas amazônicas. Ela afirma que “o avanço é considerável do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico sustentável e da valorização das cadeias produtivas locais, uma vez que reduz o uso de excipientes sintéticos, que podem prejudicar o meio ambiente e a saúde pública, e diminui os gastos com pesquisa e desenvolvimento de produtos farmacêuticos e cosméticos, já que os tensoativos são adjuvantes farmacêuticos caros, além de agregar valor às matérias-primas amazônicas, contribuindo para o avanço da bioeconomia regional.”

O estudo também se insere no contexto da expansão do mercado de produtos baseados em ingredientes naturais. Para Kariane Nunes, a pesquisa demonstra que recursos da biodiversidade amazônica podem contribuir para o desenvolvimento de medicamentos e cosméticos sustentáveis. A pesquisadora afirma que “esse resultado só nos mostra quanto podemos avançar em segurança, eficácia e sustentabilidade no que tange ao desenvolvimento de medicamentos cada vez mais verdes.”

Ela acrescenta que “além disso, ao transformar recursos naturais em produtos de alto valor agregado por meio da ciência, reforçamos o compromisso com o princípio da ‘floresta em pé’, demonstrando que é possível gerar desenvolvimento econômico sem abrir mão da conservação ambiental.”

O diretor de Pesquisa da Proppit, Bruno Batista, também destacou a relevância estratégica do estudo. Segundo ele, a pesquisa envolve aspectos como química verde, cooperação científica internacional e substituição de insumos importados. Batista afirma que “o estudo prova que ingredientes naturais da região podem substituir surfactantes e excipientes sintéticos importados, fomentando uma base tecnológica local independente e ecologicamente correta.”

Ele acrescenta que a inovação também pode estimular a valorização da sociobiodiversidade e gerar impactos socioeconômicos positivos para comunidades da floresta que atuam na extração sustentável das sementes utilizadas na produção da manteiga de murumuru.

A pesquisa entra agora em uma nova etapa de desenvolvimento. De acordo com Kariane Nunes, os próximos passos incluem o aprimoramento da formulação desenvolvida e o depósito de pedido de patente da tecnologia.

A coordenadora do laboratório afirma que “paralelamente, pretendemos avançar com o depósito de pedido de patente, visando à proteção da tecnologia e à viabilização de uma futura transferência tecnológica. A partir dessa etapa, abre-se a possibilidade de estabelecer parcerias com a indústria farmacêutica ou cosmética, ampliando as perspectivas de aplicação prática do produto e potencial escalonamento para testes clínicos, conforme a maturidade tecnológica alcançada.”

Caso o desenvolvimento tecnológico avance conforme esperado, a inovação poderá abrir caminho para novos medicamentos e dermocosméticos baseados em ingredientes da biodiversidade amazônica, associando inovação científica, sustentabilidade ambiental e valorização econômica da floresta.

Fotos: Lenne Santos / Ascom Ufopa

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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