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Dayseane Ferraz
Diretora do Museu do IHGP
dayseaneferraz@gmail.com

18 de maio marca o Dia Internacional dos Museus,
proposto há 49 anos pelo Conselho Internacional de
Museus ( ICOM), um dia voltado à reflexão sobre o papel
social, político e cultural dos museus. No Brasil, desde
2003, é realizada a Semana Nacional de Museus, cuja
temática anual convoca os espaços museológicos a
revisitarem suas práticas, seus compromissos públicos e
suas responsabilidades éticas.


Neste ano de 2026, o tema proposto é Museus:
unindo um mundo dividido. Tema que nos leva a refletir
sobre este tempo urgente e profundamente contraditório
da realidade vivida por muitos museus aqui no Pará, em
especial em Belém. Vale ressaltar que os museus não
sobrevivem por abstração institucional. Eles persistem
graças à atuação de profissionais que dedicaram seu
trabalho à preservação da memória, da pesquisa, da
documentação, das instituições, enfim. Pessoas
abnegadas que seguem resistindo, mesmo diante do
abandono sistemático, da precarização administrativa e da
instrumentalização política a que museus estão sendo
submetidos.


Ao longo de minha trajetória acadêmica e profissional ,
acompanhei por dentro os desafios estruturais que
atravessam os museus do Pará. Desde 2002, iniciei como
estagiária nos museus da Secretaria de Estado de Cultura
do Pará. Fui efetivada por concurso público em 2007, sem
nunca ter saído daqueles espaços. Em 2011, coordenei o
Setor de Documentação e Pesquisa do Sistema Integrado de Museus; entre 2015 e 2018 estive à frente do Museu da Imagem e do Som do Pará; em 2023 fui convidada para assumir o Museu do Estado do Pará, inclusive para responder a um contexto de denúncia de pessoas nomeadas sem qualificação.


Atualmente respondo pela direção do Museu do
Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Essa experiência
acumulada permite afirmar, com conhecimento de causa,
que a crise dos museus paraenses não é episódica: ela é
histórica, política e institucional. Não é de hoje que redes
sociais, reportagens e denúncias públicas expõem o estado
agonizante de diversas instituições museais. Orçamentos
estrangulados, ausência de políticas permanentes de
preservação, acervos vulnerabilizados, prédios
deteriorados e equipes reduzidas transformaram-se em
uma realidade recorrente.


Soma-se a isso uma prática ainda mais nociva: a
utilização de museus como espaços de acomodação
política, por meio de nomeações de chefias sem qualquer
formação técnica, experiência museológica ou
compromisso efetivo com o patrimônio sob sua
responsabilidade. Mas os museus seguem funcionando
graças ao esforço cotidiano de poucos servidores
comprometidos. Bolsistas, técnicos, pesquisadores,
conservadores, educadores, documentaristas e
trabalhadores da cultura.


São estas pessoas que sustentam instituições inteiras
apesar da falta de condições mínimas. Muitas vezes, esses
profissionais são submetidos a gestões despreparadas,
incapazes de compreender a complexidade dos acervos, a
dinâmica museológica e a dimensão pública da memória
que deveriam preservar. O caso recente do MABE talvez
seja apenas o episódio mais visível de uma crise muito
mais ampla. E a denúncia foi um ato corajoso que merece apoio e ressonância por parte das pessoas que atuam na seara dos museus e da cultura.


Para se inteirar, por fim, basta revisitar as notícias
dos últimos anos para encontrar sucessivos descalabros
administrativos, desmontes institucionais e nomeações
espúrias para cargos de direção em museu. O problema
não reside apenas na escassez de recursos, mas
sobretudo na ausência de uma política cultural séria,
técnica e continuada para o campo museológico. Como
resultado, fazemos política de gestão e não de governo,
política de balcão que pouco constrói uma memória solida
e duradoura. Tudo a “toque de caixa” sem maturar nossos
ofícios para avançar na política museal.

Há o que celebrar? Sim. Celebram-se as trajetórias de
profissionais extremamente competentes que construíram e
ainda constroem os museus do Pará com trabalho,
pesquisa, compromisso público e resistência cotidiana.
Celebram-se os projetos que, apesar de tudo, ainda
insuflam fôlego e sobrevida às nossas instituições.
Celebram-se aqueles que compreendem que museus não
são ornamentos administrativos nem espaços de vaidade
política, mas lugares de memória, produção de
conhecimento, educação e cidadania.


Concluo este texto/reflexão afirmando que transformar
a celebração em mero ritual festivo, não denunciando o
cenário de abandono que assola tantos museus
amazônicos, seria pactuar com a hipocrisia. E silenciar,
neste momento, talvez seja uma das formas mais
perversas de contribuir para o apagamento da nossa
própria história.

Dayseanne Ferraz
Dayseane Ferraz é doutora em Antropologia e mestra em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará. Docente da Universidade da Amazônia e do Centro Universitário FIBRA. Técnica em Gestão Cultural - Pesquisadora do Sistema Integrado de Museus e Memoriais da Secretaria de Estado de Cultura do Pará. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará.

O direito e a literatura: uma aproximação inevitável

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