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Na província de Chumbivilcas, no Peru, uma tradição peculiar ganha vida a cada Natal: o Takanakuy, que em quíchua significa “troca mútua de golpes”. Sim, senhoras e senhores, traduzindo para o português: pancadaria. Mas não sem muita música, comidas, bebidas e animação. A festividade recebe centenas de lutadores, oriundos não apenas da cidade anfitriã, mas também de vilarejos vizinhos e tem como ápice o dia de Natal.

O objetivo do Takanakuy, por incrível que pareça, é promover a paz. O ritual é uma espécie de “lavagem de roupa suja” para que todos “recomecem” a vida depois do Natal, sem problemas por resolver. Com uma linha tênue entre a violência e a expressão cultural, os participantes o veem como uma forma de liberação emocional. O objetivo desses combates é resolver conflitos entre indivíduos, amigos, membros da família ou disputas territoriais que surgiram ao longo do ano de maneira controlada. O estilo de luta empregado durante a celebração assemelha-se às artes marciais, envolvendo chutes, socos e movimentos rápidos tanto no ataque quanto na esquiva. Cada luta tem uma duração de três minutos.

A festa começa com uma marcha em direção ao local do combate, quando são entoadas canções em falsete – técnica vocal utilizada por cantores masculinos para atingir notas mais altas do que sua tessitura habitual. A procissão é dedicada à família, preparando os jovens meninos que mais tarde testemunharão os intensos combates no dia, e que também se vestem de maneira apropriada, muitas vezes imitando a indumentária de seus pais.

Os lutadores desafiam seus adversários, utilizando seus primeiros nomes e sobrenomes. O desafiado pode aceitar o embate, recusar ou enviar um representante em seu lugar. Em seguida, dirigem-se ao centro do círculo e iniciam o confronto. Antes da luta, os participantes, homens e mulheres, envolvem suas mãos com uma tela como medida protetora, impedindo que os nós dos punhos causem danos excessivos. Durante o combate, é proibido morder, golpear aqueles que estão caídos no chão ou puxar os cabelos. O vencedor é determinado por nocaute ou pela decisão do juiz. Alguns juízes utilizam chicotes para manter a multidão sob controle. No início e no final da luta, os oponentes apertam as mãos ou trocam abraços. Se o perdedor discordar do resultado, ele ou ela pode apelar para outra luta.

Os trajes têm um papel muito importante e carregam muitos simbolismos. Durante a cerimônia, cinco categorias de “personagens” tradicionais, cada uma com funções distintas baseadas em símbolos culturais andinos, desempenham um papel crucial.

Os Majenos representam as pessoas que residem nas proximidades do Rio Majes, nos Andes, e o traje dessa personagem é inspirado em sua vivência. Inclui calças de montar, um gorro de couro e uma jaqueta peruana de estilo Harrington. A peça central é o chullo chamado uya chullu, que cobre o rosto e possui associações simbólicas abstratas, exibindo quatro cores (vermelho, verde, amarelo e branco), que representam os quatro quadrantes do universo. Seu propósito principal é ocultar a identidade dos lutadores, evitando assim tensões e animosidades que possam persistir até o próximo ano.

Semelhante ao Majeno, o Quarawatanna usa jaqueta de couro, calças de montar e, peculiarmente, a presença de um pássaro morto ou um crânio de veado sobre a cabeça. Muitos jovens das comunidades tradicionais escolhem esta categoria de lutador devido ao seu grande fator de intimidação.

O Negro é a representação os mestres de escravos (Capataces) durante os períodos coloniais. Este traje inclui botas de couro até os joelhos, elegantes calças de montar, uma camisa de qualidade, colete, lenço bordado em rosa ou azul claro, uma coroa de cartão com papel reluzente nas laterais e uma estrela no topo. A personagem associa seu espírito a um galo, dançando em círculos. Originalmente reservada para os homens ricos na cidade, esta vestimenta contrasta com o arquétipo Majeno. Com o tempo, o caráter dessa categoria foi menos associado à riqueza e mais aos trajes dos lutadores superiores.

A palavra peruana Langos, que significa “gafanhoto”, inspira o traje da categoria homônima, feito de material reluzente. É comum a personagem carregar um pássaro morto para simbolizar as mortes ocorridas na região.

Os Q’ara Gallo usam as roupas tradicionais andinas e não participam das cerimônias de luta, só da procissão e demais acontecimentos da festividade.

Durante os combates é entoado o huaylilla, um gênero musical que tem raízes profundas na cultura quíchua e que é tradicionalmente interpretado por duas mulheres com acompanhamento instrumental de harpa e violino – acordeão, bandolim e violão também podem ser adicionados. As letras da huaylilla exploram temas como a resistência à autoridade, a confrontação e a busca pela liberdade. O coro é repetido em ciclo durante a procissão e os nativos acreditam que, ao dançar a huaylilla, é possível transformar-se em outra pessoa.

O Takanakuy era inicialmente uma prática exclusivamente indígena, originada como uma demonstração de resistência religiosa e cultural em relação às invasões espanholas. Apesar das tentativas históricas dos governos de erradicar o Takanakuy, a celebração transcendeu as fronteiras de Chumbivilcas e alcançou as periferias urbanas de cidades como Arequipa, Cuzco e Lima.

Fotos: Universidad Wiener

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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