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Outro dia, a convite do meu amigo de infância Diego Ventura, que é mestre em Inovação no Turismo de Vinho e educador de vinhos senior da Escola de Vinho, do WOW Porto, fui a uma prova de vinhos da Herdade do Esporão, que coincidentemente é uma das casas de vinhos portugueses mais populares no mercado brasileiro. Preciso começar este artigo dizendo que sempre tenho sentimentos misturados em relação a este tipo de evento. É que eu adoro vinhos e adoro aprender sobre basicamente tudo, mas ao mesmo tempo irrito-me facilmente com a comum atitude pedante de algumas pessoas que frequentam estas coisas e que, a qualquer oportunidade, tentam mostrar aos sete ventos todo o seu conhecimento e suposto requinte. Preguiça. Pois bem, se havia destes por lá, não conseguiram nem de longe ofuscar a aula excelente que a bióloga e enóloga Ana Cruz deu sobre a produção biológica do Esporão enquanto provávamos a seleção de vinhos – muitos deles que ainda não chegaram ao mercado.

O fato de ter nascido na Amazônia, especificamente no Pará, me fez entender desde muito cedo a importância da cultura alimentar. A célebre piadinha de que se reconhece um paraense no aeroporto porque, de bagagem despachada leva um isopor (obviamente cheio de iguarias regionais) é um atestado desta importância. Somos o que comemos não só no sentido nutricional, mas também no cultural e a riqueza alimentar que temos nos dá uma identidade tão forte que contribui para o sentimento de sermos estrangeiros em nosso suposto país Brasil, principalmente quando as outras regiões, lideradas pelo sudeste, se apropriam, descontextualizam e deformam nossos alimentos, como é o caso do açaí – que hoje em dia é comercializado em todo o mundo nestas versões deturpadas que chegam a ser ofensivas para muitos de nós.

Este assunto do açaí vem à tona de tempos em tempos e é sempre tratado pela outra parte como um “bairrismo” nosso. É preciso tornar “palatável” para o gosto dos sudestinos em prol do lucro. Ora bem, vocês imaginam a Herdade do Esporão – ou qualquer outro produtor de Portugal ou de qualquer outro país – pondo açúcar, banana, xarope de guaraná num vinho – que é uma cultura também milenar – para agradar o paladar de público x ou y? Não, né? E o que o brasileiro (pelo menos aquele que tem a possibilidade financeira de consumir este tipo de produto, já que um vinho que custa pela faixa dos cinco euros num supermercado português chega ao mercado brasileiro na faixa dos trezentos reais) faz? No mínimo, respeita a cultura europeia. E por que não respeita a cultura paraense? Porque, na raiz da nossa formação como país, a Amazônia é a colônia interna, explorada e oprimida pelos “mais fortes”. Mais um exemplo disso foi a criação de um Centro de Estudos da Amazônia Sustentável na Universidade de São Paulo – já prevendo o anúncio de Belém como sede da COP30 e toda a verba que pretende-se alavancar com isto – como se não houvesse potência intelectual por parte dos pesquisadores amazônidas e/ou vinculados às universidades amazônidas para desenvolver projetos de sustentabilidade. Em face à indignação geral, a USP ainda teve a audácia de dizer que queria só fazer a “ponte” entre as pesquisas desenvolvidas na região com os demais centros científicos nacionais e internacionais, como se precisássemos de uma validação sudestina para que nossos trabalhos pudessem chegar ao mundo.

Fomos os dóceis gentios por muito tempo, porém, apesar de tarde, é imperativo que mudemos e não aceitemos caladinhos que nos representem erroneamente e sem nossa autorização. Não só podemos como devemos falar e produzir por nós mesmos em vez de assistirmos a toda essa gente de fora vir para a nossa terra, levar nossas riquezas, e nos deixar apenas com os problemas oriundos de tanta devastação humana e ambiental. Devemos tornar toda a nossa produção biológica não para ganhar um selo “natureba”, mas porque a produção sustentável, que respeita a terra e que não contamina nossos organismos é também, a longo prazo, mais rentável. É preciso, de uma vez por todas, que nós mesmos entendamos o nosso valor, que não nos contentemos com nada abaixo do justo e merecido, porque enquanto as madames fazem questão de oferecer chocolates suíços em festas infantis em Belém, o dono da Lindt, por exemplo, é sempre visto pela Amazônia por causa do nosso chocolate – que tem na Ilha do Combu um centro de excelência – e apesar de não ter maiores conhecimentos sobre a causa para falar sobre, muito me estranharia que este interesse fosse apenas turístico. Pode até soar repetitivo, mas somos tão, mas tão ricos, nos mais diversos âmbitos, que é inaceitável que cruzemos os braços e nos calemos enquanto tanta riqueza não estiver distribuída para dar dignidade a cada lar.

(Foto: Fernando Sette/Agência Belém)

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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