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Quem lida com pessoa falsa, do tipo conhecido como “morde e assopra”, que publicamente simula afeição por outrem que particularmente detesta, nada melhor para defini-la do que essa expressão que remonta aos nossos avoengos e resume o perfil de quem assim se comporta: “QUEM NÃO TE CONHECE, QUE TE COMPRE!…

Provérbio de largo emprego na terra de Camões – há quem diga que se originou na Espanha – onde também existe gente escusa, é a opção preferencial daqueles, destes e também dos brasileiros, para indicar depreciativamente quem cultiva a enganação, a mentira, a fofoca, o logro, a desonestidade, a sordidez e a intriga.

Desde cedo testemunhamos quando e como nossos pais a diziam, para evidenciar que alguém supostamente bonzinho, ocultava personalidade sórdida, mesquinha e reprovável, disfarçando sorridente sua letalidade de ofídio, a quem por sinal se amolda outro ditado: “É um lobo em pele de cordeiro”…

Tal expressão não significa admitir, a contrario sensu, a licitude de suposto comércio de pessoas de boa índole, que não carregam o labéu de “não confiáveis” e sim, deixa claro que só confia na bisonha figura, quem com ela não convive, para saber de sua capacidade de dissimulação. A aparência, a simpatia, a conversa fluida, o sorriso postiço na cara, seduz apenas o desavisado “comprador” desses conhecidos campeões do engodo.

Quem convive com esse time de aleivosos, por sinal fartos nos ambientes sociais e acadêmicos, empresas, repartições, associações e até nos templos religiosos, já deve ter sofrido na pele as falsidades desses artistas do disfarce, e devidamente escaldado, não mais se deixa levar pela encenação do impostor, nem se seduz quando ele usa sua pele de cordeiro. Porém, aonde, quando e como teria ela surgido?
Existe a versão, que se afigura surreal, que conta que do interiorano simplório, nativo de Carmona, na espanhola Andaluzia, sabidamente generoso e afável, que além da modesta casa, possuía de seu apenas um burro de estimação, que evitava a todo custo usar no labor da roça, para não fatigar o animal. E para demonstrar seu apreço pelo animal, acostumou-se a andar nas ruas e estradas da região puxando-o pelas rédeas, em vez de simplesmente montá-lo.
Certo vez, alguns estudantes arruaceiros, como de resto existem em qualquer lugar, o viram passar conduzindo desse jeito o jumento e decidiram roubá-lo. Enquanto uns levavam o animal sem que dono se apercebesse, o mais ousado do grupo ficou no lugar do burro, com a mão atada ao cabresto. Foi quando o ancião o viue ficou pasmado, achando que o burro tinha se transformado em gente, pelo tanto que já se entendiam em razão do longo e carinhoso convívio.
Flagrado, o estudante foi inventivo: mentiu que no passado tinha sido brigão, arruaceiro, amante do copo e do baralho, vadio e vidrado num rabo de saia. Por isso seu pai o amaldiçoara com uma terrível praga: “Tu és um asno e em asno vais te transformar”. Foi tiro e queda. A maldição se concretizou, ele virou um vistoso burro e por alguns anos vinha vivendo daquela forma. Porém agora, arrependido dos pecados cometidos na fase errática da vida, tinha finalmente voltado ao normal, humanizara-se, pois a praga paterna havia perdido a força.
Maravilhado com a história, o crédulo ancião teve dó daquele estudante e nem se importou com o dinheiro que estava perdendo sem o burro que tanto o ajudava em suas tarefas. Generosamente, aconselhou o jovem a ir procurar o pai para com ele se reconciliar, virar a página e dar o assunto por encerrado. O pilantra, com lágrimas de crocodilo nos olhos, simulando gratidão, aproveitou a leniência do outro e simplesmente vazou, sumiu do mapa.
Tempos depois, passeando numa feira, o ingênuo dono do animal surrupiado ficou perplexo, ao ver que estava à venda um burro em tudo idêntico àquele que um dia fora seu. Óbvio que era o mesmo animal, entretanto, o crédulo sujeito concluiu que aquele estudante com quem conversara havia voltado à sua vida de bacanais e estripulias, por isso o pai o amaldiçoara novamente e por tal razão ele estava ali para ser vendido. Foi então que decidiu ir à forra. Aproximou-se do quadrúpede, crente que estava falando com o jovem, segredando-lhe ao ouvido: “QUEM NÃO TE CONHECE, QUE TE COMPRE!…”
Na musica popular brasileira, a dupla Flávio Aquino e Gabriel compôs uma música que tem como titulo a dita expressão popular, cujo texto poético tem pouco a ver com o seu tradicional significado:

Todo mundo fala // Todo mundo vê
Que meu corpo ferve // Que eu amo você
Mas você disfarça // E diz que não percebe

Diz que está sozinha pra ser mais feliz
Diz que não achou alguém a sua altura
Esse orgulho besta, te leva a loucura
Igual tensão de pré vestibular

Quem não te conhece que te compre…
Me leva de brinde, paciência
Pra esperar sentando, que isso ainda vai longe
Porque você se esconde?!…

Faltou um pouco mais de criatividade para melhor aproveitar um jargão cujo uso não se limitou à Península Ibérica. Atravessou o Atlântico e estacionou em Pindorama, varou gerações e até hoje se amolda de forma perfeita para qualificar os desqualificados, quais sejam, aqueles sobejamente conhecidos por suas falsidades, encenações, falcatruas ou grotescas enganações.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Célio Simões
Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

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