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Quando viajamos sem viajar

(e a viagem mais especial que já fiz sem jamais ter feito) 

Ao som de Simon and Garfunkel – The Sounds of Silence (The Concert in Central Park)

​Das várias formas de viajar, uma talvez tenha sido mais comum do que nunca nos últimos meses: viajar sem sair de casa. Com a necessidade de manter o isolamento social por conta da pandemia e as restrições à circulação de pessoas mundo afora, muitas pessoas redescobriram o prazer de viajar pelas páginas de um livro ou pelas letras de algumas canções.

​Nestes tempos eu descobri o prazer de viajar por horas através de vídeos de paisagens de diferentes países com músicas calmas e relaxantes como trilha sonora. Para alguém com tanta dificuldade de concentração, talvez até seja esta a minha “meditação”, como uma amiga bem observou.

​Mas é justamente das páginas de livros e revistas que vêm minhas mais antigas “lembranças de viagem”; desde imaginar-me em uma viagem pelos mares em busca de uma ilha e seu tesouro como em A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson até a quase sentir a emoção dos brinquedos do Parque da Mônica através dos quadrinhos da Revista Parque da Mônica do Mauricio de Souza.

​Alguns anos depois, percorria as ruas de São Paulo com os romances policiais de Marcos Rey (pseudônimo de Edmundo Nonato) na Série Vaga-Lume e até embarcava no Expresso do Oriente em Istambul com o detetive Hercule Poirot de Agatha Christie. 

​De todas estas viagens que fiz na infância, uma, este ano, tornou-se ainda mais especial: a viagem que fazia ao Central Park em Nova Iorque sempre que visitava um tio muito amado, em Belém, no Pará, e o disco The Concert in Central Park de Paul Simon e Art Garfunkel fazia parte da trilha sonora. Ele até demorou para descobrir, mas as memórias destas viagens ao Central Park na infância sempre estiveram presentes e, adulto, ao ver de fato pela primeira vez o tal parque era como se lá já tivesse estado desde a infância.

​A sensação de ver e sentir pessoalmente destinos por onde já estivemos em pensamento é, sem dúvida, das que mais aquecem o coração quando viajamos.

​Tive este privilégio ao poder ir ao Parque da Mônica lembrando das aventuras dos quadrinhos e ao passar pelas ruas de São Paulo a imaginar se em algum daqueles carros não estaria um personagem de Marcos Rey vivendo alguma aventura. Ao visitar a estação de Sirkeci em Istambul e pensar mesmo ver a partida do Expresso do Oriente, ou imaginá-lo parado em alguma plataforma tomada pela neve na estação central de Belgrado.

​E é por isso que até hoje sempre tento permitir que minha imaginação voe longe ao ler um livro ou mesmo ouvir uma canção. Podemos sempre, com o perdão do clichê, viajar do jeito mais fácil: sem sair de casa – e com aquela que é, às vezes, a melhor ou a mais necessária companhia: nós mesmos.

​Como disse, desde a primeira vez em que pude estar realmente no Central Park senti quase como se não fosse a primeira vez por conta de tantas vezes ouvir o famoso concerto de Simon e Garfunkel lá. Tive o privilégio de poder reviver esta experiência algumas vezes e a sensação era sempre a mesma; entrar naquele parque ouvindo aquele álbum era como entrar em um mundo mágico feito por minhas próprias memórias.

​Destas memórias e experiências mágicas naquele parque restava sempre o sonho de voltar mais uma vez na companhia do tio responsável por todas elas. Este sonho não se realizou.

​Mas, de alguma forma, ao menos naquele tal mundo mágico, é como se tivéssemos sim feito esta viagem juntos. A última mensagem que recebi antes de suaderradeira viagem nesta vida era precisamente um vídeocom imagens de pessoas felizes em diferentes partes do mundo ao som da minha música preferida do disco.

​Ir ao Central Park ouvir Simon and Garfunkel com o meu tio será sempre a viagem mais especial que já fiz sem jamais ter feito.

*O artigo acima é de total responsabilidade do autor.

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1 comentário

  1. Muito bom meu amigo. Me lembrei das tantas viagens que planejei e imaginei com minha mãe e que quando forem realizadas certamente me encherão de emoção.

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