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Viajar para quê?

Ao som de Gabriel, o Pensador – Tás a Ver?

O ano de 2020 apresentou ao mundo pela primeira vez em décadas o horror de uma grande pandemia e, naturalmente, o ano em que ficar em casa foi mais importante do que nunca foi também o pior da história do turismo mundial. Pode não parecer o momento ideal para escrever sobre viagens mas talvez seja o momento ideal para pensarmos um pouco sobre por que viajamos e o que mais as viagens podem nos trazer além de fotos, experiências e recordações. 

Restrições governamentais, crises econômicas, medo, respeito, luto… Talvez nunca tantas pessoas tenham tido tantos motivos para não viajar, e, em meio a todos estes motivos, uma pergunta que sempre foi frequente tornou-se ainda mais relevante: afinal, por que viajamos? É claro que há tantas respostas certas quanto possíveis e na verdade até a mesma viagem pode acontecer por vários motivos diferentes. 

Entretanto, há uma razão que, para mim, é sempre especial: acredito que mesmo sem pensar, viajamos para nos conhecermos melhor; “nós” enquanto pessoas e “nós” enquanto sociedade. Arrisco dizer que até aquele que julga viajar “apenas” para passar o fim de semana na praia ou apenas para tirar aquela selfie acaba sempre, mesmo sem querer, por aprender um pouco mais sobre si mesmo e sobre as pessoas do mundo lá fora

E quando falo em mundo lá fora nem estou necessariamente pensando em outras cidades e países; na verdade, podemos aprender tanto sem sequer precisar sair da nossa própria cidade, basta olhá-la – e a seus habitantes – com outros olhos, com o difícil exercício de encarar aquilo e aqueles que nos cercam como se não estivessem lá o tempo todo. E, apesar de na maioria dos casos, por conta da pandemia, as razões não serem as melhores, foi até com alguma felicidade que vi nos últimos meses fotos e vídeos de colegas e amigos ao redor do mundo aproveitando suas cidades como talvez nunca tenham aproveitado. 

Aliás, os últimos meses trouxeram, um pouco pelo mundo todo, um boom do chamado staycation – expressão em inglês que resulta da junção das palavras stay (ficar) e vacation (férias) e que surgiu justamente para descrever o turismo feito por perto de casa. Foi o que permitiu que o setor do turismo em muitos países “respirasse” nas temporadas altas de 2020 e ainda em 2021 e que parece ter iniciado uma nova tendência de fazer com que passemos a dar mais valor para o que está mais perto de nós. A grama do vizinho nem sempre é mais verde. 

Muitos de nós talvez nunca tenham passado tanto tempo consigo mesmos como nos últimos meses. Muitos de nós talvez nunca tenham percebido o quanto dependemos de nós enquanto sociedade como nos últimos meses. Por isso, quer possamos apenas viajar sem sair de casa (e eu nunca viajei tanto assim como nos últimos meses) ou sem sair da nossa própria cidade; quer possamos viajar por nossa própria região ou até por nosso país e para fora dele; que possamos também tentar olhar com mais atenção e sensibilidade para nós e para os outros, aprender com as diferenças, com as semelhanças e com o quanto, no fundo, somos sempre todos muito parecidos. 

Cada viagem é sempre uma oportunidade única de conhecermos melhor as pessoas que fazem este mundo, e acredito mesmo que, de alguma forma, podemos sempre aprender com cada uma delas. Quem sabe assim, aprendemos também um pouco mais sobre como tentar fazer deste mundo um mundo melhor para todos os que aqui vivem; afinal, por enquanto, este é o único que conhecemos e é só por ele que podemos viajar. 

*O artigo acima é de total responsabilidade do autor.

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