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Primeira Audiência Pública da Comissão da Verdade dos Jornalistas do Pará foi verdadeira aula de História

Jornalista Lúcio Flávio Pinto
Jornalista Paulo Roberto Ferreira
 Fotos: Rodrigo Sávio 
Comissão da Verdade dos Jornalistas do Pará, depoentes e presidente do Sinjor
Foto: Ozéas Santos
Raimundo
Jinkings, Luiz Maklouf Carvalho, João Marques, Raimundo José Pinto, Paulo
Roberto Ferreira, Lúcio Flávio Pinto, Pedro Estevam da Rocha Pomar (que usava o
codinome Marcos Soares), João Vital, Carlos Boução, Nélio Palheta, Sérgio
Palmquist, Agenor Garcia, Rosaly Brito e Sérgio Bastos, entre outros
jornalistas que atuavam tanto na chamada grande imprensa quanto em jornais
alternativos como o “Resistência”, editado
pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, foram mencionados
ontem, durante os depoimentos dos jornalistas Lúcio Flávio Pinto e Paulo
Roberto Ferreira, na primeira audiência pública da Comissão da Verdade dos
Jornalistas do Pará, realizada no auditório João Batista da Assembleia
Legislativa, aberta oficialmente pelo presidente da Alepa, deputado Márcio
Miranda (DEM), e da qual participaram os deputados Carlos Bordalo(PT),
presidente da Comissão de Direitos Humanos, e Edilson Moura(PT),
vice-presidente da Comissão de Segurança Pública, o presidente da OAB-PA, Jarbas
Vasconcelos, Gabriela Dutra, representante da Prefeitura de Belém, a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Pará, jornalista Sheila Faro, a presidente
da Associação Cidade Velha, Cidade Viva e membro do Instituto Histórico e
Geográfico do Pará, Dulce Rosa Rocque, e o presidente do Fórum Belém, José
Francisco da Fonseca Ramos. A Comissão da Verdade dos Jornalistas do Pará é integrada pelos jornalistas Franssinete Florenzano (presidente), Emanuel Villaça, José Maria Pedroso (Piteira), Priscila Amaral e Luciana Kellen, todos membros do Sinjor-PA.
Lúcio Flávio
Pinto traçou um panorama geral do período compreendido entre 1964 e 1985,
apontando a adesão da grande imprensa ao regime, no Pará, e a perseguição
imposta aos jornalistas que ousaram pautar, produzir e publicar reportagens
sobre questões polêmicas como a manipulação dos índices econômicos pelo então
ministro Delfim Netto, a prisão de 14 lavradores posseiros em São Geraldo do
Araguaia, na sede do GETAT – Grupo Executivo de Terras Araguaia-Tocantins, onde
foram torturados para acusar os padres franceses Aristides Camio e François
Gouriou, missionários da diocese de Conceição do Araguaia, presos no dia 31 de
agosto de 1981, acusados de incitar invasões de terra no sul do Pará, e em
seguida julgados pela Justiça Militar e expulsos do País; e a Guerrilha do
Araguaia, luta armada travada no sul do Pará que resultou no extermínio dos
jovens idealistas que lutavam contra a ditadura.
Pontuando que havia entre os militares homens dignos e que inclusive alguns
eram suas fontes, Lúcio Flávio Pinto disse que é um equívoco afirmar que quem
não foi torturado, preso ou incomodado durante a ditadura militar foi conivente
com ela. Nesse período, tão desfavorável à
coleta de informações e à transmissão de verdades, quando até conversar com
essas pessoas era arriscado, a
inda assim, contra todas as expectativas
dos censores e controladores da opinião pública, a imprensa conseguia
surpreender com reportagens fortes, substanciais, bem informadas. Isto graças a
fontes situadas às vezes em posição de destaque dentro da estrutura do poder,
tanto no governo quanto nas grandes empresas privadas.
As fontes se arriscavam muito, relatou Lúcio.
Mas se arriscavam por confiarem nos seus interlocutores da imprensa, que se
comprometiam a manter completo sigilo – se necessário e em qualquer
circunstância. E a serem corretos no uso das informações fornecidas.
Em seu
depoimento, o jornalista Paulo Roberto Ferreira contou que foi admitido através
de concurso na Caixa Econômica Federal em 07/04/1976. Mas, em 05/11/1980, foi demitido, sem justa causa, em decorrência
de perseguição política, porque atuava como jornalista voluntário no jornal
“Resistência”, da SPDDH, e militava na luta pela redemocratização do País, que
vivia sob a ditadura militar.
Antes, Paulo
Roberto foi transferido para Óbidos, a 996 Km de Belém, por via fluvial. Era
recém casado, sua mulher trabalhava em Belém e sua primeira filha já estudava,
também em Belém. Reintegrado ao seu local de trabalho de origem por força de
ordem judicial, concorreu à diretoria da associação de funcionários, o que lhe asseguraria
o direito à imunidade sindical. Na véspera da eleição, foi demitido.
O regime
político agia em várias frentes, relatou Paulo Roberto. Além de criar toda
sorte de embaraço, no seu local de trabalho, intimidava, convocava e indiciava
as pessoas, de forma a provocar pânico e medo. Foi intimado e indiciado duas
vezes pela Polícia Federal, onde inquéritos o enquadraram na Lei de Segurança
Nacional e uma vez pela Divisão de Ordem Política e Social da Secretaria de
Segurança Pública do Estado do Pará. Todos foram arquivados pelo Ministério
Público Militar, por absoluta inconsistência das peças acusatórias. Até 1987, sua
vida foi objeto de investigação pelos órgãos de repressão, com relatórios de
todos os lugares por onde passou desde que foi demitido da CEF.
Paulo rememorou
que o primeiro presidente da SPDDH foi o advogado e na época ex-preso político  Paulo Fonteles de Lima (que depois foi
deputado estadual e foi assassinado), que decidiu criar um veículo de
comunicação, com o objetivo de difundir as notícias que a grande imprensa, por
conveniência, autocensura e até mesmo por imposição da censura oficial, não
publicava. E assim despontou o jornal “Resistência
em 1978, que funcionou regularmente até 1983, depois esporadicamente e hoje é
veiculado na internet.
Embora a sede da
SPDDH funcionasse numa sala da casa paroquial da igreja católica Nossa Senhora
Aparecida, no bairro da Pedreira, em Belém, era diagramado na casa do editor ou
de algum colaborador. O temor do empastelamento atormentava a todos os que
faziam o jornal. Diagramadores que trabalhavam na grande imprensa não permitiam
que seus nomes figurassem no expediente.
Paulo Roberto Ferreira
anotou que a primeira edição estampou na capa o título “Novos conflitos na
fazenda Capaz”, situada no município de Paragominas. O número 2 tinha como
manchete “Quem decide por Alacid?”. Analisava o desempenho do tenente-coronel Alacid
Nunes, governador paraense nomeado pela segunda vez, em meio às disputas
ocultas no meio militar. O número 3 fazia uma acusação de corrupção ao
ex-governador e ex-senador pelo Pará Aloysio Chaves. E na quarta edição os
temas eram “Corrupção no cais” e “Grilagem no Maranhão”. Antes que a quinta
edição deixasse a gráfica, todos os exemplares foram apreendidos pela Polícia
Federal, sem mandado judicial. Isso foi em agosto de 1978. O chefe da oficina
gráfica foi detido e levado para prestar depoimento. E o jornalista Luiz
Maklouf Carvalho, editor do jornal, foi chamado a depor e enquadrado na
famigerada Lei de Segurança Nacional.
 A fúria dos censores foi a matéria de capa da
edição, que tratava do depoimento de quatro ex-presos políticos, ao contarem as
torturas que sofreram nas dependências dos órgãos da repressão militar. “Fomos
torturados no Ministério do Exército”, era a manchete. Os quatro eram Hecilda
Veiga, socióloga; Humberto Cunha, agrônomo; Paulo Fonteles, advogado; e Isabel
Tavares, historiadora.
Casados, Paulo
e Hecilda foram presos quando estudantes, em Brasília, onde foram torturados
dentro de uma unidade do Exército Brasileiro. Humberto e Isabel também eram
casados. Humberto foi vítima do Decreto 477, que legitimava a
expulsão de estudantes que figuravam na lista negra da ditadura. Os quatro
atuaram como militantes de organizações clandestinas e eram membros do PC do B
na época do processo contra o Resistência.
Mas estavam legalmente filiados ao MDB, o partido de oposição consentido pelo
regime.
Após a
apreensão do jornal e abertura de processo que tramitou na Auditoria Militar de
Belém contra várias pessoas que constavam no expediente do jornal, a notícia
ganhou dimensão nacional e o caso foi relatado em vários jornais da chamada
imprensa alternativa e também nos diversos fóruns de discussão da luta pela
redemocratização. Meses depois a denúncia contra Maklouf e seus companheiros
não foi aceita pelo Ministério Público Militar e o processo foi arquivado.
Quem assinava
como jornalista responsável pelo Resistência
era o livreiro Raimundo Jinkings, jornalista profissional, militante e
dirigente do PCB. Na condição de bancário do Banco da Amazônia, Jinkings foi
vítima de perseguição política, logo após o golpe militar de 1964. Demitido do
banco, ele montou uma pequena livraria na cidade, que aos poucos foi crescendo
e se tornou uma grande referência, uma espécie de ponto de encontro da
intelectualidade paraense.
Ali se
encontrava o que era permitido pela censura, como também os livros que estavam
na lista negra do regime. Homem calmo e de bom diálogo, Jinkings conseguia ter
entre seus clientes até militares tidos como da linha dura do regime. Jinkings
tinha intensa militância no Sindicato dos Jornalistas e também foi
vice-presidente da SDDH e escrevia, com frequência, artigos para o Resistência. Foi militante ativo do
núcleo pela anistia da SDDH e por isso mesmo pagou caro quando a entidade
decidiu promover um debate com Miguel Arraes, ex-governador pernambucano, preso
e perseguido político, que retornara do exílio poucos meses antes.
Véspera da
chegada de Arraes a Belém, a porta da igreja de N. Sra. de Aparecida (onde
funcionava a SDDH) amanheceu pichada com a frase CCC (Comando de Caça aos
Comunistas) e a vidraça da Livraria Jinkings alvejada por um tiro de pistola,
além de pichada com a aterrorizante inscrição. O mesmo aconteceu na casa do
presidente da SDDH, o economista Jaime Teixeira.
Dois dias antes
do Círio de Nazaré, no dia 8 de outubro de 1982, a PF invadiu a gráfica Suyá,
que imprimia o Resistência, e a sede
da Comissão Pastoral da Terra, em Belém, a fim de recolher materiais que seriam
distribuídos no dia da romaria, em protesto contra a prisão e condenação dos 15
presos do Araguaia (padres e posseiros).
Prenderam e
arrebentaram. Espancaram, algemaram, provocaram, identificaram, fotografaram,
sequestraram objetos. Foram duas horas de terror na gráfica do jornal. O editor
Luiz Maklouf Carvalho foi espancado e ameaçado de fuzilamento. O distribuidor
do Resistência, Carlos Boução, foi
algemado, junto com o repórter João Vital e o vice-presidente da SDDH, Daniel
Veiga. Dois gráficos, Alberdan Batista, vice-presidente do Sindicato dos
gráficos, e o impressor Arlindo Rodrigues fizeram companhia aos outros quatro.
Dezenas de pessoas, entre colaboradores, funcionários, clientes da gráfica e
amigos foram presos aos chegar ao prédio. Eram colocados de frente para uma
parede e fotografados. O jornalista Paulo Roberto Ferreira, que era gerente da
gráfica e diretor do jornal, conseguiu perceber a movimentação, correu, avisou
a imprensa e amigos, e voltou. Foi preso e levado para depor na sede da PF.
Novo inquérito
policial militar foi aberto contra os jornalistas, diretores da SDDH e
colaboradores do jornal, que também foram enquadrados na Lei de Segurança
Nacional. Depois de meses de apuração, o inquérito foi arquivado. Mas as
perseguições continuaram.
João Marques, o
presidente do Sindicato dos Jornalistas do Pará, foi um dos fundadores do Resistência. E, na condição também de
advogado, defendia as lideranças comunitárias que lutavam pelo direito de morar
na periferia de Belém, recordou Paulo Roberto, enfatizando ainda o trabalho do
jornalista Raimundo José Pinto à frente do Sindicato dos Jornalistas do Pará.
Ao final de seu
depoimento, Paulo Roberto entregou à Comissão da Verdade dos Jornalistas do Pará
cópias de documentos existentes no acervo do SNI e Centro de Informações da
Aeronáutica, nos quais o seu nome é citado como membro de diversas organizações
clandestinas e que revelam as avaliações dos agentes sobre as pessoas que
lutavam pela democracia. 

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