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Caro leitor:

Quero propor um quiz hipotético para começar nossa pequena excursão imaginária no mundo da literatura popular (mainstream, para os soberbos) das ciências humanas: há obra mais citada e re-citada do que o livrinho de bolso O Príncipe, de Nicolau Maquiavel?

Sim ou não? Justifique sua resposta no box de comentários.

Qual seria o segredo do sucesso de Maquiavel dentro e fora do circuito acadêmico?

Façam suas apostas!

Eu aposto no formato pocket.

Maquiavel escreveu pouco, mas no estilo de um manual prescritivo dirigido às montanhas do absolutismo que, àquela altura, estavam rugindo o parto de ratazanas gigantes.

Conciso, de fácil leitura e aberto à interpretação livre.

Uma sopa aveludada de cebolas roxas para a garganta pantagruélica do despotismo.

O bel-prazer da leitura e aplicação da obra chega ao disparate de,  onde se lê ao pé da letra:

Os que chegaram ao principado por meio de crimes, geralmente pagam por seus crimes não sendo celebrados por homens ilustres, e não são considerados homens de virtude.

Só se depreender:

Os fins justificam os meios.

(Isto me lembra aquelas terríveis figuras de linguagem dos tempos da Faculdade de Letras: o tal paradoxo).

Voltando para o assunto, aplicarei  o princípio geral da boa-fé, que é obrigatório para as pessoas de bem: aposto no formato pocket em vez da varanda gourmet de semântica deixada pelo autor, para que o leitor sente na poltrona, tome um vinho de boa safra e Interprete de trás para a frente e de frente para trás (Ad Astra et ultra!) o conteúdo da obra, com visão privilegiada  e panorâmica do mundo lá fora.

Esse é o segredo do sucesso: vai direto ao ponto.

Na contestação hipotética ao meu argumento, o leitor aí poderia pensar: hum… o De Cive, do Thomas Hobbes, foi publicado logo depois, mas não me lembro de nenhuma frase kitsch (popular, para os menos esnobes), do De Cive…

Eu tenho uma hipótese para o meu leitor imaginário: o De Cive é um tratado de defesa do direito de quem está do lado oposto ao trono do príncipe!

E agora? Para onde fui com a presunção de boa-fé?

Continuemos…

Muitas águas correram sob a nau de Maquiavel até cabeças reais rolarem guilhotinas abaixo!

O sangue azul transitou de cartela de cores para o vermelho escarlate das revoluções.

Girou o carrossel da História e, com as revoluções burguesas todas – sem romantismo: meio tingidas do azul de fundo do absolutismo, ao menos sob algum prisma –, o poder muda de mãos e de esporas.

O leitor seguramente conhece esse quartel da História e sabe exatamente em quais times jogavam jacobinos e girondinos. Certamente, também conhecem a rota marítima do Mayflower…

Então, podemos saltar uma escala e seguir o coelho branco de Lewis Carol.

Coelho branco? De onde surgiu o coelho?

Já explico.

Em 1865, o menino nascido das revoluções burguesas já era um adulto – quase – indivíduo moderno, quando Lewis Carroll escreveu Alice no País das Maravilhas.

É neste ponto que entra o coelhinho branco de cartola e relógio de bolso.

Ou melhor: é neste ponto que encontramos, em alguma paragem das viagens no cogumelo alucinógeno de Alice, a Rainha de Copas.

A Rainha de Copas e seu TOC linguístico pelo imperativo: cortem cabeças!

Do alto da sua majestade real literária, a Rainha de Copas desconhece sua própria natureza de rainha de papel.

É curioso o pavor que ela provoca na sua Corte, também de papel!

De fora do mundo bidimensional da rainha, todos sabem que ela é uma carta de baralho, e que pode virar o morto da canastra em uma só jogada.

Mas a rainha e sua Corte de papel ignoram, na bidimensionalidade das suas figuras, a absoluta falta de profundidade e perspectiva soberana de suas existências.

Uma digressão: se o leitor leu Flatland, o raciocínio das figuras de Euclides ficará preciso!

Ainda, no texto: a rápida passagem acima é para abstrair uma possível analogia entre a Rainha de Copas de Carroll e o Estado de Direito Moderno.

Norberto Bobbio apelidou o século XX de Era dos direitos, logo depois de Hobsbawm ter apelidado o mesmo século – porém, a primeira metade – de Era dos Extremos.

A Era dos Direitos é precedida pela Era dos Extremos. Digno de nota!

Nesta era de direitos, cunhada pelo saudoso mestre de Turim, os direitos fundamentais, forjados no sangue da guilhotina afiada, adiciona uma dimensão de profundidade ao antigo estado absolutista inspirado (com livre interpretação) em Maquiavel.

A terceira dimensão de profundidade desenhada pelas três gerações de direitos fundamentais configura  o Príncipe – agora, uma Rainha de Copas – em figura de papel: para falar do sentido da burocracia institucional do estado atual.

Provavelmente, Carroll jamais pensou em propor reflexões políticas na viagem psicodélica de Alice, mas a performance da rainha vermelha ilustra o limite ao direito indigestamente imposto aos gestores públicos modernos.

Metáfora é metáfora. É para provocar sentidos.

Deixo o leitor à vontade, agora, para seguir o coelho branco e aplicar a analogia à máquina burocrática pública e à submissão do poder ao direito no estado de direito atual.

Contem-nos causos.

Ad Astra et ultra!

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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