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Chegamos do nosso giro de final de ano, por sinal curto em relação aos anteriores e nos demos conta de que os mantimentos caseiros estavam zerados. Despensa rarefeita, geladeira quase deserta, freezer congelando a provisão que fora deixada. Minha esposa elegeu como prioridade dar um grau no apartamento, embora eu não visse nele qualquer vestígio de sujeira. Mas ela é assim mesmo e nesse quesito (nos outros também) eu não dou pitaco. Já me preparava para ganhar a rua pretextando outras providências, quando ela, concluída a inspeção que fez na cozinha, surgiu de lá com um papelucho na mão e pediu: – Se você passar no supermercado compre o que está nesta lista, pois precisamos nos reabastecer. “Espiolhando” vislumbrei rabiscado o rol de gêneros que aos poucos fui decifrando: banana, alface, pepino, tomate, cenoura, limão, maçã, mamão, melancia, maracujá, ovos, alho e cebola.

Na mesma proporção que eu evito os shoppings, por serem impessoais e repetitivos na aparência em todo lugar, gosto de ir aos supermercados (desde que seja com ela), mas tenho especial predileção pelas feiras livres, por nelas identificar autêntico local de congraçamento, de dinâmicas proativas nas relações sociais e econômicas, verdadeira celebração da cultura popular, reflexo espontâneo da alma de um povo, como sabidamente são em Belém o Ver-o-Peso, a Feira da 25, a da Batista Campos, a da Praça Brasil e outras menos votadas, a despeito da insegurança existente nos espaços públicos, exigindo redobrada atenção de quem nelas comparece.

Escolhi um supermercado perto de casa e estando lá, saí empurrando o indefectível carrinho, olhos grudados no papel com a lista de compras. Por onde começar? Até que me saio bem com carnes e peixes, principalmente estes, que conheço de sobejo, mas com o resto a coisa complica um pouco ou, para ser sincero, complica muito. É que no setor de hortifruti vejo todo mundo apalpando sensualmente os produtos antes de colocar nos sacos plásticos, mas até hoje ainda não descobri o ponto exato que revela uma batata boa de outra imprópria para o consumo. Como se fossem chocalhos, observo os compradores sacudindo no ar lustrosos maracujás, a modo polidos com óleo de mutamba, porém uns são devolvidos à gôndola, outros são aproveitados e por mais que eu me esforce, não ouço barulho algum que sirva de referência entre aquele que presta e aquele que não presta. Em tais situações, peço mil desculpas para não ser mal interpretado e apelo à generosidade e ao conhecimento das experientes donas de casa, rogando que me ajudem nas escolhas – e até que tenho encontrado desinteressada colaboração.

Nesse dia, meu carrinho já estava à meio, mas ainda faltava a alface, que minha esposa pediu da “verde e da escura”, esta última vista até então de forma suspeitosa por mim, pois imaginava que aquela cor fuliginosa decorria da sua natural deterioração. De longe, vi uma compradora elegante, trajada como se fosse para uma solenidade, esquadrinhando as alfaces contra a luz forte do teto, praticamente escaneando com os olhos as dobras enrugadas do vegetal, em busca talvez de algum piolho-de-cobra oculto nas folhagens e pensei: essa entende mesmo do riscado, vou pedir ajuda. No que eu tomei seu rumo, da minha ilharga surgiu a voz álacre, amistosa e acolhedora de uma antiga e querida amiga, dessas que fizeram parte do feliz universo da meninice:

  • Nossa, olha quem está aqui no supermercado! Quanto tempo meu amigo. Estou muito feliz em reencontrá-lo, em especial neste início de ano. Leio sempre seus textos, acompanho suas postagens nas redes sociais, vibro com as fotos das suas viagens. E você?…

Com o coração em festa trocamos caloroso abraço, ao tempo em que resumi as atividades que tenho nessa fase da vida que eufemisticamente rotularam de melhor idade, dizendo-lhe honestamente que apesar de setentão não me sinto velho, no máximo seminovo, para utilizar a linguagem típica do mercado automotivo. Entretanto, apesar do afeto ressurgido naquele inesperado colóquio, abusei da amizade, postulei e dela recebi eficaz assessoria para a compra de pepinos e cenouras, embora sem minimamente entender como ela sabe que um está bom e o outro não. Despedimo-nos, ela estava com pressa.

Tudo OK? Não. Reparei que ainda faltava o limão! Mas esse eu tiro de letra, murmurei. Imagina se eu ia errar na compra daquilo que abundava em nosso quintal, na vizinhança, na fazenda e no Bar do Plácido, onde mal saídos das calças curtas, curtíamos a caipirinha que nos permitia vencer a inibição e dançar tipo Carlinhos de Jesus nos salões feericamente iluminados dos bailes de então. É comigo mesmo, pensei. Olhei o bendito papel e lá constava, tipo ordem do dia no quartel: traga 12, de casca fina! No que eu estava me preparando para avaliar a espessura da casca do primeiro, tive outra surpresa:

  • Não acredito! Cara, quanto tempo! Só pode ser presente de Ano Novo!…

À minha frente estava um sujeito risonho, porte mediano, físico entanguido, trajando bermuda e camisa polo, pilotando outro carrinho, que eu nunca vira antes. Apertou vigorosamente minha mão e desandou a falar:

  • Cara, eu estou muito feliz! Adoro encontrar meus colegas de turma brilhando em suas atividades. Estou aposentado, aproveitando o lado bom da vida, meus filhos já casaram faz tempo e venho sempre neste supermercado comprar as coisas para a minha mulher, porque moramos bem aqui pertinho – e fez um biquinho com os lábios para me indicar o seu local de residência.

Notei que o carrinho dele, contrastando com o meu, regurgitava de carne, peixes nobres, frango, frutas, folhagens, enlatados, compotas, temperos, pães, bolos e material de limpeza – indicando que sua jubilação não fora pelo INSS. Com esforço, dominei o ímpeto de pedir àquele desconhecido, do qual nem mesmo o nome eu sabia, seu cronograma de compras, visando doravante fazer com ele uma dobradinha, a fim de cumprir sem sobressaltos a espinhosa desobriga. Mas ele não me dava chance falar, empolgado em sua catadupa discursiva sobre os bons e saudosos tempos da faculdade, até que rematou:

  • Soubeste do Ambrósio? Agora ele é figurão nacional. Foi eleito para presidir o Conselho Federal de Química, é pouco? Na nossa turma ele nem abria a boca e agora manda e desmanda lá em Brasília. Dá para imaginar isso, irmão?

Sinceramente, mas de química, a única e reiterada experiência que tive foi fazer, quando moleque, cerol de papagaio com cola de sapateiro e vidro moído de magnésia, surrupiado do lixão da Farmácia Esculápio para as porfias domingueiras, por isso percebi logo que se tratava de um engano sobre a minha pessoa. Pisando em ovos para não melindrá-lo, disse-lhe do equívoco que ele estava cometendo e a sua reação foi mais surpreendente ainda:

  • Poxa vida, me desculpa, mas tu és a cara do nosso colega da Faculdade de Química que foi orador da turma, juro que pensei que fosse ele…

Achei meio fantasiosa a notícia de que eu tivera um sósia nos distantes anos setenta, quando, exultantes e sonhadores, transpusemos o portal de saída da universidade, mas era hora de livrar meu interlocutor daquela saia justa e foi ele mesmo que, incrivelmente, se incumbiu disso. Com expressão iluminada por um largo sorriso, tirou de letra, não se deu por achado:

  • Pois é parceiro, mas mesmo não sendo tu, já que estamos nesse papo, vamos celebrar e desejar que todos os nossos amigos sejam felizes e tenham muita saúde em 2024. Ato contínuo, simulando um brinde, me fez repetir o gesto de tocar duas taças, na hipótese imaginárias, o tradicional “tim tim” dos filmes natalinos. Esse caboclo é meio gira, pensei. Tomara que os demais que estão comprando não nos chamem de doidos, rezei piamente…

Embora constrangido, caprichei na reciprocidade e finalmente ele se foi. Saí dali com a sensação de sincero bem estar por ter, naquele breve tempo, realizado o ideal da convivência humana, mesmo com um estranho. Acho que valeu até mesmo a encenação do brinde que fiz para não decepcioná-lo. A magia do Natal, que naturalmente se estende para além da virada do ano, me fez descobrir que a tal resiliência, palavra muito em moda nas entrevistas televisivas, pode fazer a diferença. É questão apenas de vontade, que a gente incorpora com a prática, a mesma prática que faz as donas de casa darem um show de versatilidade e competência nas suas compras em supermercados.

(*) Ambrósio, no texto, é nome fictício.

Célio Simões
Célio Simões é advogado, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Jornalismo, da Confraria Brasileira de Letras, do Instituto dos Advogados do Pará, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.

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