Publicado em: 9 de março de 2026
Dia da mulher. Tivemos o que comemorar?
“Por que você precisa saber onde eu estou o tempo todo se diz que me ama?”
(Pergunta registrada em um dos últimos áudios de uma vítima de feminicídio, dias antes do crime)
“Corre, mãe!”
(Uma criança grita desesperadamente enquanto o pai corre com um facão tentando alcançar a mulher)
Estamos vivendo uma onda de violência e de feminicídio, a lamentar todos os dias, inclusive e sobretudo no último 8 de março.
O feminicídio germina muito antes do desfecho letal. Ele brota na palavra que monitora, no olhar que mede, na exigência de senhas disfarçada de prova de afeto. Esse ciclo se alimenta da lenta domesticação da autonomia feminina, transformada em território demarcado por mãos que se pretendem soberanas. Onde o amor se torna vigilância, o corpo deixa de ser sujeito para tornar-se mapa de domínio do outro.
Existe uma pedagogia silenciosa que ensina o roteiro da inspeção. Ela prega que o zelo se manifesta no cerceamento. A linguagem prepara o terreno como jardineiro invisível, apresentando a existência da mulher como uma cidade aberta à administração. Horários tornam-se fronteiras; roupas convertem-se em códigos; deslocamentos exigem justificativa, como se atravessassem alfândegas íntimas.
O corpo feminino é tratado como espaço murado. Seus portões são testados. Suas ruas, observadas. Suas janelas, iluminadas para que tudo permaneça sob as vistas do outro. Cada gesto autônomo soa como deslocamento indevido de limites. Quando ela decide partir, quando encerra um vínculo ou recusa um beijo, ela reorganiza o próprio mapa. A linha que antes autorizava acesso transforma-se em barreira. O limite produz abalo na imaginação de quem confundiu presença com domínio.
Essa engrenagem encontra nova forma no pan-óptico digital, apenas para atualizar Foucault. A torre agora vibra no bolso, acende na tela e respira pelos cabos invisíveis que cruzam o mundo. O celular torna-se, simultaneamente, farol e algema. A requisição de senhas opera como ritual de prova fidelidade, pacto de sangue. A localização ativada desenha trilhas luminosas sobre o mapa. O afeto passa a falar a língua dos algoritmos, onde cada curtida, silêncio ou ausência de resposta adquire peso de evidência.
Nesse cenário de capturas, a autonomia surge como o levante daquilo que Virginie Despentes (2016) identifica como força indomesticável. Ao recusar o papel de cidade administrada, a mulher assume a posição de quem desfigura o contrato de servidão. É o despertar de uma “King Kong” interior: uma potência que ocupa o espaço e ignora as marcações de gênero desenhadas pelo vigia. Essa insurgência subverte a norma do olhar que busca a docilidade. Ao retomar as rédeas da própria natureza, ela implode as muralhas da opressão. Sua liberdade é um transbordamento que a torna ilegível para quem só compreende o mundo através da posse. A vontade que escapa incendeia o arquivo das antigas submissões.
A visibilidade opera como moeda e ameaça. A mulher é convocada a narrar-se para ser reconhecida, contudo, a mesma luz que ilumina também fere. Comentários hostis transformam-se em tribunais instantâneos. Fotografias circulam como provas improvisadas. A reputação sofre execuções em praça digital por meio de isolamento e descrédito. A inspeção dissolve-se na rotina e acompanha o indivíduo como sombra algorítmica. Aprende-se a administrar a própria exposição como quem calcula marés. Muitas vezes, a autocensura torna-se técnica de sobrevivência.
Quando a autonomia rompe essa malha, a reação revela sua face mais crua. Bloquear um contato ou anunciar o término equivalem a fechar os portões da cidade vigiada. Para quem fundamentou a identidade no comando, a perda do monitoramento soa como apagamento de si. O gesto extremo emerge como tentativa de inscrever domínio definitivo sobre aquilo que já se libertou.
Entre a primeira senha exigida e o ato letal estende-se um fio contínuo de apropriação. Ele atravessa piadas que romantizam o ciúme e discursos que culpam a vítima por redesenhar seu próprio território. Em uma cidade do Centro-Oeste, uma jovem solicitou medida protetiva após semanas de monitoramento obsessivo. Mensagens acumulavam-se como relatórios; áudios repetiam cobranças de localização. Ao romper a linha de comando, foi morta. O agressor registrou que preferia o fim da vida dela a aceitar a perda do controle. A execução funcionou como sentença privada. Pena capital decretada por quem se acreditava senhor do destino dela.
Em outra capital, uma mulher denunciou perseguição digital e exposição íntima. O ex-companheiro instaurou um linchamento virtual. A tentativa de reconstruir a própria história foi respondida com violência física em via pública. A morte concretizou o que a difamação já ensaiava: apagar a existência social e material de quem ousou retomar o próprio espaço. A exclusão simbólica converteu-se em extermínio real.
Rita Segato (2021) define esse fenômeno como um “crime de mandato”. O feminicídio é linguagem. Para o agressor, a vítima é um pergaminho onde ele escreve sua mensagem de soberania para o mundo. É a punição aplicada ao corpo que ousou desobedecer à cartografia da posse. Ao destruir a carne, o algoz tenta restaurar a “pedagogia da crueldade”, reafirmando diante de seus pares que todo território deve ser submisso. O golpe letal busca silenciar a independência para que a gramática do domínio permaneça inalterada.
A dimensão racial aprofunda essas linhas. Corpos negros carregam marcas históricas de exploração. Certas trajetórias humanas parecem nascer sem muralhas protetoras. A vigilância pesa mais onde a desigualdade sedimentou o abandono. Se a cartografia do controle é sistêmica, a resposta do Estado precisa ser estrutural; ela exige uma arquitetura de proteção tão sofisticada quanto a tecnologia que oprime.
O ESPELHO GLOBAL: EXPERIÊNCIAS DE ENFRENTAMENTO
As respostas institucionais desenham novos perímetros de segurança. No Reino Unido, o Serious Crime Act (2015) tipificou o “comportamento coercitivo” como crime autônomo, permitindo a intervenção estatal antes de qualquer agressão física. Na Espanha, o sistema VioGén utiliza inteligência artificial para calcular a letalidade iminente e acionar pulseiras de geolocalização. Na Austrália, a prioridade é a remoção célere de conteúdos íntimos, tratando a dignidade virtual como extensão inalienável do corpo. Esses exemplos ensinam que a proteção eficaz exige rapidez superior à velocidade do algoritmo do agressor.
O PROTOCOLO DA URGÊNCIA: UMA PROPOSTA NACIONAL
Urge que o Estado brasileiro implemente uma Política Nacional de Protocolos de Risco Digital. É imperativo que o sistema judiciário integre a perseguição algorítmica como marcador de letalidade iminente. A política pública deve focar na interrupção do ciclo de apropriação, financiando programas educacionais que desconstruam a naturalização da posse e tratando o monitoramento como o estágio embrionário do extermínio.
A transformação exige deslocar a gramática do poder. O amor floresce como encontro entre autonomias. A masculinidade pode respirar sem vigiar. O cuidado existe como reconhecimento de fronteiras. Cada gesto de independência inaugura outra cartografia possível. Onde antes se erguia a inspeção, pode surgir a ponte do reconhecimento.
A história do domínio escreve-se sobre pergaminhos; a história da liberdade escreve-se sobre consciências que recusam a administração alheia. Entre uma e outra pulsa a pergunta essencial: que mundo emerge quando o poder deixa de organizar o afeto como vigilância e aprende a conviver com a soberania plena dos seres?
REFERÊNCIAS
BRUNO, Fernanda. Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
DESPENTES, Virginie. Teoria King Kong. São Paulo: n-1 edições, 2016.
MATSUDA, Fernanda Emy. Feminicídio: a escrita do crime. São Paulo: Almedina, 2021.
SEGATO, Rita Laura. Escrituras patibulares: sobre feminicídio e violência de gênero. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
UNITED KINGDOM. Serious Crime Act 2015: Section 76. London: The National Archives, 2015.









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