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Sinto orgulho de quem sou, do que decidi ser nessa vida; os mais simples acontecimentos afirmam que acertei no rumo; os erros e as superações reafirmam o caminho, um longo e sinuoso caminho. Independentemente de quaisquer circunstâncias, sou proletário, negro-mestiço, brasileiro, paraense de Cametá; neto de um marajoara chegado à bordo de um “gaiola” boiadeiro, trazendo agregado ao nome João de Deus, o Leal, como marca da fazenda onde serviu e nasceu. Assim carrego no sangue o dna com suas lembranças remotas do Marajó.

Com esse sentimento meus olhos assitiram enternecidos, uma noite mágica, escapulida do caroço de tucumã nas mãos de menino à janela, misturar-se às estrelas e à lua, refletidas nos campos encharcados, revelar a bela e fecunda prenhez de Irene, seu emblemático riso diante do mundo. Assim, de repente, no lusco-fusco silencioso do palco, a voz e o corpo transmutaram-se em “Solo”, de mil faces; em estórias e dramas, cenários tragicômicos, tecidos em gestos e expressões pela magistral construção interpretativa de Cláudio Barros.

É o “Marajó” de Dalcídio Jurandir, em mosaicos de marajós, com sua milenar arte e sua “gente miúda” resistindo à exploração e aos desmandos do latifúndio; fugindo do sofrimento e do assédio dos coronéis, nem que seja pela morte ou pelo desterro. Marajós que atravessaram a baía, subiram o rio Tocantins e desceram os rios Amazonas e Pará, chegando ao Brasil e ao mundo com sua marca inconfundível. Na “Primeira Manhã” aportaram em “Belém do Grão-Pará” povoando suas beiradas; cruzaram a “Ponte do Galo” para se estabelecerem na José Pio, na “Passagem dos Inocentes”; pelo Acampamento, nas baixadas da Gentil e da Curuzu com Antônio Everdosa.

A bela e justa homenagem no teatro “Waldemar Henrique” feita pela Imprensa Oficial do Estado – IOEPA, relançando o romanance “Marajó” pela editora “Dalcídio Jurandir”, foi um desses acontecimentos culturais que alimentam a convicção de dias melhores. Um raio iluminando os campos fertilizados pelas cheias, mas que rasga no meio dos campos o obscurantismo. Ali estava o Dalcídio, escritor e comunista, que trouxe à luz da literatura a saga de sua “Gente Pobre”, proletária, sofrente mas esperançosa, expropriada mas lutadora, oprimida mas a espinha ereta, a cabeça erguida e o passo firme. O olhar dalcidiano, para além do regionalismo, cantado em “versos e prosas”, universalizou o viver e o sentir amazônida personificado no caboclo marajoara.

O teatro “Waldemar Henrique”, lugar de consagrados e iniciantes, onde tive o privilégico em 1988, de estrear a peça “Os Descalços”, encenada pelo Grupo de Teatro “Vivência”, dirigido por Raimundo Pirajá; essa casa de cultura, tornou-se o palco de um qualificado e animado sarau de escritores, atores/declamadores/ produtores/ operários da arte, acadêmicos, intelectuais, representantes institucionais, militantes de esquerda das diversas frentes de luta, sob a batuta dos anfitriões Jorge Panzera – presidente da IOEPA e Moisés Alves – diretor da Editora “Dalcídio Jurandir”. Todos e todas que usaram da palavra elogiaram a iniciativa, o evento e o papel do mesno com sua contribuição efetiva para a cultura do Pará.

Saí do teatro rumo ao Bar do Parque, com meus camaradas Cleber Rezende, Sandra Batista e Maílson Lima, revigorado, refletindo a importância da criação da Editora “Dalcídio Jurandir”, em 2019, para a divulgação e o resgate de romancistas e poetas amazônidas; de produções científicas e acadêmicas; de biografias; que com seus editais premia diversos autores em todas as regiões do Estado; estimula a arte literária e a boa leitura. Que tudo isso não foi por acaso, considerando o pouco incentivo à cultura e às artes; que o mercado de livros não prioriza a reprodução de nossos clássicos, nem possibilita as centenas de novos escritores. Por tudo isso, que registro com alegria e orgulho, que foram os comunistas como Dalcídio, que ao assumirem a IOEPA no primeiro governo de Hélder Barbalho, tiveram o olhar proletário voltado para a cultura literária paraense, para o povo produtor e leitor, e constituíram a Editora, com uma excelente equipe, e com o primoroso trabalho dos operários na gráfica onde rodavam o Diário Oficial, hoje on line. A Coisa Pública servindo ao povo. Parabéns pelas mais de 200 obras publicadas!!!

Belém, 03 de fevereiro de 2026

Érico Leal
Érico de Albuquerque Leal é aposentado da Alepa, militante do PCdoB há 43 anos, licenciado em Geografia pela Ufpa. Atuou na ASALP quando o o deputado Chicão foi presidente da entidade, foi diretor do Sepub, um dos fundadores e dirigente da Central de trabalhadores e trabalhadoras do Brasil - CTB/Pará. Casado e pai de dois filhos.

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