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Esta é a semana de meu aniversário. Sou de Áries, primeiro decanato. Não acompanho astrologia, mas poucas vezes li informações sobre um signo que me traduzisse tão bem. Estou no que chamam inferno astral. Estou, mesmo. Sem detalhes. São dias de muita reflexão. Penso em como somos felizes, quando crianças, ao chegar nossa data. Não é preciso fazer nada. No dia, pomos um sorriso no rosto e aguardamos os colegas e claro, presentes. Há muitos doces, às vezes animadores de festa e em menos de cinco minutos já caiu por terra toda a roupa bonita que nos vestiram, penteado, sapatos. Estamos correndo livremente pelo salão, sem que ninguém nos repreenda. Isso é que é festa! Mas então chega a vida adulta e as responsabilidades. Claro que há quem continue vibrando com aniversário. Nos dias em que vivemos, chega a ser uma vitória. Há os que ainda não precisam fazer nada a não ser botar um sorriso no rosto e aguardar os amigos. Claro que chegará o duro momento de enfrentar os gastos. Quanto a mim, digo que fico entre a melancolia e a alegria, as duas mexendo com a cabeça. O tempo passa sem que possamos fazer nada. Reflito sobre a vida que tive. Então vêm os amigos e estou feliz. Já passei datas comemorativas passeando. Uma delícia. Mas fica algo pensando em que podia estar com amigos. Estava em Paris no domingo do Círio. Acompanhei a procissão pelo celular. Em casa estavam amigos reunidos em uma grande farra. Já era noite quando liguei e por aqui, umas três da tarde. A animação de todos, contrastando com minha solidão naquele quarto de hotel. Que Paris, que nada. Belém! Os amigos e a família são tudo. Agora que estou velho, penso no tempo decorrido e percebo que fui muito feliz. Arrisquei muito e na medida do possível, deu tudo certo. Dirigi emissoras de rádio a vida inteira. Escrevi em jornais onde fui de editor a redator. Escrevi peças de teatro nos mais diversos gêneros, a maioria levadas à cena. Compus centenas de jingles comerciais, músicas e trilhas musicais. Lancei livros com poemas, crônicas, textos teatrais e romances. Todas essas iniciativas eivadas de perigos e riscos principalmente financeiros. Fui homenageado na Feira do Livro e Multivozes. Recebi prêmio na França onde já tenho cinco livros. Acabei de ser premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, com o melhor livro de contos de 2022. Confesso que vivi, como aquele título. Hora de fazer um balanço e sair de cena? Me transformar naqueles velhinhos que levam para os restaurantes, família inteira em mesa grande e os deixam com um sorriso vago, pois ninguém puxa conversa, ninguém conta uma novidade, até a hora de ir embora, quando os levantam como estandartes e os recolhem? A vida só vale à pena enquanto há algo que nos faz acordar, tomar uma chuveirada e partir pro mundo. A cabeça não para de pensar. Tenho peça nova a começar os ensaios, escrevo outra, escrevo crônicas para Uruatapera, da querida Franssinete Florenzano, espero um instante para escrever um novo romance. Visito turmas de universitários para falar de minhas atividades. Uma queixa somente, não jogar mais futebol. O tempo é cruel com o físico e quando sabemos tudo, o corpo já não obedece ao cérebro. Comecei no colégio como lateral esquerdo, embora fosse destro, porque havia um tal José Aderson no meio campo. Depois fui número dez, a idade foi chegando e fui oito. Em uma pelada onde não sabiam meu nome, fui apelidado de Platini, aquele craque francês. E me pediam a bola dizendo: passa, Plat, ou passa, Michel… de oito caí para cinco e de volta à lateral, percebam, o jogo me expulsando do campo. Foi bom. Foi muito bom.

Espero estar com meus amigos festejando. Meus filhos, minha mulher, meus irmãos. Estes são os melhores momentos. Rimos, contamos piadas, destrinchamos assuntos de Teatro, Literatura e Música. Cinema também. Fofocamos, claro. Ao final estamos mais leves. Eu estou mais leve. Até agora, está tudo bem. Dei sorte. Arrisquei muito, sempre, fazendo apenas o que quis. O moleque que mora dentro da menina dos meus olhos, ainda tem um olhar ladino, caçoando do corpo e dos cabelos encanecidos que vê no espelho. Onde foi que passou tanto tempo. Não nos damos conta porque a curiosidade pelo mundo ainda nos impulsiona a viver. Tempo amigo, seja legal. Conto contigo, pela madrugada, só me derrube no final…

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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