0
 
Não à toa, referimo-nos ao cinema como a sétima arte. Quem de nós não guarda no íntimo as emoções indescritíveis despertadas por determinadas cenas de um grande filme que nos tocou de modo especial?  Em Belém o Cine Líbero Luxardo, da Fundação Tancredo Neves (Centur), o Cine-Teatro Maria Sylvia Nunes, na Estação das Docas, o Cinema Olympia e o cine CCBEU oferecem, digamos, a nata, os filmes de arte que o circuito comercial raramente põe em cartaz. E o que é melhor, a preços populares, quando não de graça. Pois o Líbero Luxardo, que se notabilizou por ter até a sessão cult e a sessão maldita, agora está fechado e sob risco de ser extinto. 

Leiam o que a jornalista Dedé Mesquita escreveu a respeito: 

“Um dos grandes filmes da década de 80, do século passado, foi “O
ano em que vivemos em perigo”, direção do australiano Peter Weir. A trama
mostrava um repórter ambicioso, que em sua primeira missão internacional chega
a Jacarta para cobrir a agitação dos últimos momentos do regime de Sukarno.
Lembrei desse filme porque gosto muito dele, mas principalmente para
usar o título para falar de fatos preocupantes. Este ano de 2014 está se
configurando um “O ano em que vivemos em perigo” para os que amam o cinema e a
Sétima Arte em Belém.
Estamos vivenciando a absurda situação de ter que, praticamente,
implorar para que determinados filmes cheguem à capital paraense.  Tudo
começou no ano passado quando, nós, os cinéfilos, percebemos que seríamos a
única praça de cinema no Brasil que não iria assistir a “Blue Jasmine”, direção
de Woody Allen, que deu o Oscar, o BAFTA e o Globo de Ouro para Cate Blanchett.
A solução foi uma enxurrada de e-mails com pedidos para exibição do
filme em Belém para os exibidores. A rede Cinépolis o exibiu e foi um sucesso
de crítica e também de público.
Já este ano, o esforço foi por “Ninfomaníaca – Parte 1”, direção de Lars
Von Trier. Mais e-mails e o Cinépolis o trouxe. A primeira sessão estava
lotada, e, das duas sessões previstas inicialmente, foi programada uma extra, e
o filme ficou duas semanas em cartaz.  
O procedimento continuou com o ganhador do Oscar 2014 de melhor filme
“12 Anos de Escravidão”, que acabou entrando também no Moviecom, e ganhou três
sessões (uma, extra) no Cinépolis. Os pedidos continuaram e “Ninfomaníaca –
Parte 2” chega aqui nesta quinta-feira, dia 20. Mas em única sessão, na sala 2
do Cinépolis Boulevard, às 21h15. Já é um avanço, mas queremos mais, muito
mais.
Se for preciso mais mobilização, nós a faremos. O que queremos é ter a
chance de ver bons filmes. E, por favor, não digam que é possível vê-los
baixados da internet. Não, digo e repito, nada, nada substitui o ritual da sala
escura. Filmes são para serem vistos em tela grande. Foi pensando nisso que o
cinema foi inventado.
Outro fato preocupante é o fechamento temporário do Cine Líbero Luxardo,
do Governo do Estado, que fica no prédio da Fundação Cultural do Pará Tancredo
Neves (FCPTN). O projetor do cinema parou de funcionar há uma semana e não há
previsão de volta.
Esse problema do projetor advém de uma coisa simples: os antigos
projetores de cinema, com o do Líbero, estão a cada dia mais obsoletos, já que
são para filmes em película. Quando eles quebram não existem peças de
reposição, porque a salas estão sendo digitalizadas. Esse é o futuro do cinema:
tudo digital, em bites e terabites.  
O Cine Líbero Luxardo estava exibindo “Azul é a cor mais quente”,
filme de Abdellatif Kechiche que venceu Palma de Ouro na última edição do
Festival de Cannes. Com a quebra do projetor, e pela mobilização dos cinéfilos
de Belém e à (boa) vontade dos dirigentes, o filme estreia hoje, 19, no Cine
Estação, da Estação das Docas, às 18 horas, onde fica até o final de março.
A direção do cinema foi enfática. “A exibição de ‘Azul é a cor mais
quente’ na Estação das Docas foi possível graças à parceria com o Cine Líbero
Luxardo e o movimento de cinéfilos, jornalistas e críticos de cinema por meio
das redes sociais, o que proporcionou o prolongamento das datas de exibição”,
escreveu a assessoria de imprensa do cinema.
Se isso nos
preocupa? Sim, muito. Precisamos que o Governo do Estado, por meio da FCPTN e a
Secretaria de Cultura (Secult) e Pará 2000, a quem o Cine Estação é ligado,
pensem numa solução rápida e urgente, ou os bons filmes que gostaríamos que
chegassem a Belém passarão ao largo. Seja pelo Cine Líbero Luxardo sem
projetor, seja porque os filmes em película estão ficando, a cada dia, mais
raros. A digitalização dessas salas se faz urgentíssima.”

E a manifestação do respeitadíssimo crítico de cinema Pedro Veriano:

“O problema com o
projetor do cinema Líbero Luxardo (Centur) deve ser resolvido sob pena de se
ter de mudar o nome da sala. Afinal, Líbero pode ter feito pintura e romances
mas se notabilizou como cineasta. E eu que fui o primeiro programador do espaço
lutei muito para que ele permanecesse cinema numa época em que o projetor usado
nasceu precário.
Creio que a
sociedade paraense deve se posicionar a favor da preservação do pequeno cinema
que já tem história (afinal fará em julho 28 anos). De minha parte estarei
pronto para lutar pela volta das projeções ali, no Centur, um projeto que se
fez quando o complexo foi construído.”
Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

Conversa ao pé do ouvido

Anterior

Cenas parauaras

Próximo

Você pode gostar

Comentários