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 O deep learning será capaz de fazer tudo 

Geoff Hinton 

A seta do tempo disparava rumo ao segundo quartel do século XX quando Orwell publicou o romance 1984[1]. 

Um aspecto importante do espírito da época, assombrado pelos totalitarismos e pelo horror das guerras, é o tom gris a tinta da pena de Orwell no ambiente de sua angustiada e melancólica Londres distópica. 

A experiência estética do romance provoca no leitor a tensão expressa na duplicidade das palavras-chave e categorias de pensamento, que operam como ondas de choque, a fim de provocar a emoção coletiva da Europa durante aquela quadra da história. 

A forma como Orwell usa os verbetes contraditórios do vocabulário da novilingua[2] provoca no leitor o efeito de uma pedra arremessada, ora paralelamente, ricocheteando a superfície tranquila do lago de significados; ora perpendicularmente, perfurando-o e agitando as ondas no sentido do centro para as extremidades do discurso. 

O diário de Winston, personagem principal da obra, conduz o leitor ao ambiente íntimo de um habitante daquele tempo-lugar. 

A tensão de significados da língua imaginária de Orwell é evidente na fachada do Ministério da Verdade: prédio principal do governo. A fachada do prédio apresenta os lemas: 

GUERRA É PAZ 

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO 

IGNORÂNCIA É FORÇA 

Há três outros edifícios de governo no romance: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas-artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Curiosamente, o Ministério do amor jamais funcionou efetivamente. 

A burocracia estatal revela ao leitor a ironia de Orwell, que irá permear todo o romance e orientará, desde o início, a composição do diário de Winston, protagonista da obra. 

Mais do que um vocábulo da novilingua, Duplipensar é o mote do romance, ora carregando contradição em termos, ora marcando a vivência paradoxal dos habitantes daquele não-lugar. 

O humor inglês sútil do autor preenche toda a narrativa. No entanto, de todas as instituições públicas, as mais curiosamente antenadas com a passagem do século XX para o século XXI são o grande irmão a polícia de pensamento. O pensamento também é vigiado na Londres de Orwell! 

No topo da pirâmide dos órgãos de poder da Londres distópica situa-se o grande irmão: vigilante ideológico do lugar. 

A máquina de Alan Turing, pedra fundamental da era da informática, ainda significava os rudimentos da era da informática, quando Orwell escreveu o romance, porém, é inevitável a semelhança entre a funcionalidade do grande irmão e desta era da informação, iniciada no final do século XX. 

1984 é o prenúncio da revolução ocorrida com o advento da grande rede de informação no final do século XX. A revolução da informação pela informática e pela rede mundial de informação rompeu a barreira entre o público, o privado e o íntimo. 

Conectados em tempo integral à rede mundial, vivemos um espaço-tempo digital independente. 

A sociedade civil é uma espécie de grande irmão do cidadão comum. O tráfico de informações em tempo real pela rede mundial, associado à democratização do acesso à rede, entre outras formas de permuta de informações, permite espiar pelas frestas do muro que separa a vida pública e a vida privada. 

O tema sensível é a segurança no ambiente digital. Das redes sociais ao submundo do cyber ataque, a segurança digital é, sobretudo no Brasil, ainda muito frágil. 

O Comitê Gestor de Internet do Brasil[3] elegeu o lema liberdade, privacidade e direitos humanos como o primeiro de seus dez princípios para a governança e uso da internet. 

A cyberid[4] informa que o estudo atual do MIT coloca o Brasil em terceiro lugar entre os países com pior ambiente digital do G20. 

O estudo foi publicado pelo MIT Technology Review Brasil[5]: referência em jornalismo de tecnologia. No link abaixo é possível identificar a posição ocupada pelo Brasil em cyber segurança, entre as 20 economias mais importantes do planeta. 

Na travessia para a revolução da IA – inteligência artificial- ainda tateamos no escuro neste terreno movediço da revolução anterior. A IA e a consequência da aplicação de redes neurais à interação homem-máquina é a próxima fronteira do homem para o século XXI. 

O trabalho de Hinton é profundo o bastante para ser abordado em artigo específico. Vencedor do prêmio Turing1, pioneiro do deep learning, o cientista é o precursor da revolução da IA. É um tema fascinante e complexo, intimamente conectado com este espaço-tempo. Recomendo a leitura do artigo[6] , para ampliar a leitura e compreensão sobre IA: inteligência do futuro. 

1 https://www.bbc.com/news/technology-47721129 

[1] https://drive.google.com/file/d/1kTqYtpQUushxzgQHA5f57w7yHEodQ0mM/view?usp=drivesdk 

[2] Língua oficial do romance 

[3] https://www.certifiquei.com.br/comite-gestor-internet-brasil/ 

[4] https://cryptoid.com.br/pesquisas-seguranca-da-informacao-e-ciberseguranca/brasil-e-o-terceiro-pais-com-pior-ambiente-digital-entre-g20-com-carencia-de-investimentos-e-falta-de-regulamentacoes-na-internet-brasileira 

[5] https://www.technologyreview.com/2022/11/15/1063189/the-cyber-defense-index-2022- 23/ 

[6] https://mittechreview.com.br/o-pioneiro-em-inteligencia-artificial-ia-geoff-hinton-afirma-o-deep-learning-sera-capaz-de-fazer-tudo/ 

Referência de leitura: https://www.bbc.com/news/technology-47721129  

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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