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A Cosanpa abriu nada menos que seiscentos buracos imensos nos bairros mais movimentados de Belém, infernizando a vida de todo mundo com engarrafamentos e causando graves riscos de acidentes, principalmente porque chove sempre, e quando as ruas alagam os buracos…

O Procurador-Geral de Justiça César Mattar Jr. inaugurou nesta quinta-feira, 16, o Núcleo Eleitoral do Ministério Público do Estado do Pará, que vai funcionar na sede das Promotorias de Justiça de Icoaraci, distrito de Belém. O coordenador será o promotor…

A desembargadora Maria de Nazaré Saavedra Guimarães, que se destaca pelo belo trabalho que desenvolve à frente da Comissão de Ações Judiciais em Direitos Humanos e Repercussão Social do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, e que já coordenou…

Cabul é aí.

Nos últimos dias nos chocamos com as imagens vindas do Afeganistão, que teve o poder retomado pelo Taliban depois da saída dos Estados Unidos. Pessoas literalmente penduradas do lado de fora do avião lotado, invadido pela rampa. Gente que abandonou casa, pertences, absolutamente tudo de material e territorial em razão do pavor que tem do que está por vir.

A história do Afeganistão é o produto do colonialismo que teve início no século XIX, quando a Grã-Bretanha invadiu o país, e continuou a dominá-lo economicamente e politicamente mesmo depois de sua independência, em 1921, e da fronteira com a União Soviética, no pós-guerra. Em 1964, a nova constituição concedeu o direito de votos às mulheres, além de uma série de políticas públicas que desagradaram grupos conservadores. Temendo que a Revolução Islâmica do Irã chegasse ao Afeganistão, a União Soviética apoiou o golpe militar dado pelo PDPA (Partido Democrático do Povo Afeganistão), que estreitou as relações entre os países e culminou com a ocupação soviética em 1979. O governo já havia suprimido então os outros partidos políticos e proibido costumes religiosos, como vestimentas e construções de mesquitas. O tempo era da Guerra Fria e os Estados Unidos, para combater o domínio soviético, passou então a financiar os mujahidins – defensores do Estado Islâmico -, o que culminou, depois de um longo período de conflito armado, no surgimento do Taliban, que em 1996 assassinou o presidente afegão e tomou o poder do país, instaurando um governo fundamentalista que retirou todos os direitos femininos conquistados até então.

Foi então que aconteceram os atentados de 11 de setembro de 2001 por parte da Al-Queda, parceira do Taliban, e então o conceito de liberdade estadunidense se inverteu. Se antes as imposições de caráter extremista religioso no Afeganistão não diziam respeito a eles, depois de ver seus mortos, as Torres Gêmeas destruídas e o Pentágono bombardeado, os Estados Unidos o incluíram automaticamente no “Eixo do Mal” e, por isso, o invadiram com o pressuposto da luta por um mundo livre. Dizem as más línguas que o real interesse do Tio Sam sempre foi o petróleo, e que por isso nunca se preocupou em verdadeiramente fortalecer um regime democrático naquele país para que não acontecesse o que acabamos de ver acontecer: o Taliban derrubar o governo e assumir mais uma vez o controle do Afeganistão no momento em que os estadunidenses retiraram suas tropas e deixaram para trás armas e veículos terrestres e aéreos, tomados pelos extremistas sem qualquer dificuldade.

É impossível não se solidarizar com o desespero da população e a preocupação com a vida das mulheres têm sido amplificada pelo mundo inteiro. O porta voz do Taliban prometeu que não farão ações contra as mulheres e nem nas residências civis – principalmente daqueles que que ajudaram as tropas estadunidenses -, porém é muito difícil acreditar em tais promessas vindas de um governo que proibiu toda a população feminina de estudar, trabalhar, a saírem de casa desacompanhadas de um homem da família e as obrigou a usar a burqa (que deveria ser uma escolha pessoal). A primeira prefeita do país, Zarifa Ghafari, declarou: “eu estou aqui sentada esperando que eles venham. Não tem ninguém para ajudar a mim ou minha família; eles virão até as pessoas como eu e me matarão”.

Desde que o ex-presidente Trump começou a conversar com o Taliban pelas costas do governo afegão, várias mulheres trabalhadoras foram assassinadas. O Banco Kandahar ordenou que nove funcionárias fossem para casa e lhes disse que poderiam mandar parentes homens para irem trabalhar em seus lugares. A entrada de alunas e professoras foi impedida por militantes do Taliban na Universidade de Herat. A realizadora e diretora geral da companhia nacional de filmes Afhgan Film, Sahraa Karimi, fez um apelo desesperado para a comunidade cinematográfica internacional, em seu Twitter, para que não abandonassem o povo afegão, para que amplificassem suas vozes e não virassem suas costas para mulheres, crianças, artistas e cineastas.

Como disse a filósofa espanhola María Zambrano, “todo extremismo destrói aquilo que afirma”. Vejo-me aqui na Europa tão impotente em relação à situação de minhas colegas mulheres, artistas, jornalistas, estudantes, professoras, trabalhadoras afegãs, mas me assusta mais ainda a sensação de impotência em relação a nós, brasileiras, e todas aquelas que vivem no Brasil. A Confederação Nacional dos Municípios fez um levantamento que constatou que a violência contra mulheres e vulneráveis cresceu em 41,9% nas cidades brasileiras. Parece exagero comparar a situação atual no Brasil com a do Afeganistão, mas devemos lembrar que toda catástrofe tem um caminho histórico, tal e qual o apresentado no começo deste artigo. Afinal já esquecemos a reportagem sobre a ex-primeira-dama Marcela Temer, logo após o golpe, intitulada “bela, recatada e do lar”, que tentava enfiar goela abaixo da sociedade brasileira a ideia de que o lugar de uma mulher não é em cargos de poder e sim de subalterna a um homem e, claro, atendendo os padrões de aparência impostos? Vimos a primeira e única presidente mulher do Brasil ser impedida por incomparavelmente menos do que o atual ocupante do cargo já fez e, mesmo com mais de uma centena de pedidos de seu impeachment, nenhum até agora foi aceite. Também vimos o governo vetar apoio a um festival musical por se declarar antifascista e publicar em suas redes sociais o slogan “Não podemos aceitar o fascismo, o racismo e nenhuma forma de opressão e preconceito”. No parecer, a seguinte frase “O objetivo e finalidade maior de toda música não deveria ser nenhum outro além da glória de Deus e a renovação da alma”.

Estes são apenas alguns poucos dos muito motivos para que, tu, brasileirx que ainda não estás com o medo que eu estou, fiques. Nos últimos tempos as manchetes do nosso país foram tomadas por uma discussão completamente estúpida e retrógrada sobre a volta do voto impresso (já como uma desculpa antecipada para a eminente derrota daquele que não deve ser nomeado nas eleições de 2022, segundo as pesquisas de opinião pública), que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso percebe o quão surreal é (e que mais surrealmente ainda teve muitos votos a favor na Câmara), desfile de tanques de guerra em Brasília (kkkrying) e ainda pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal com a única justificativa de terem impedido ações que eram de interesse político e pessoal da presidência da república. O mundo está tão louco que dá vontade de fugir para uma Galáxia muito, muito distante… Mas vai que lá tenha um Darth Vader. Ao contrário do que pregava o Tiririca, pior do que tá sempre fica.

Por isso, sobre a situação das nossas irmãs afegãs parecemos fadadas ao discurso virtual, mas não podemos nos acomodar com o que acontece hoje no Brasil. Temos sim que temer o pior. Cabul é aí. E não acho que seja uma boa ideia pagarmos para ver o que pode acontecer não.

(A imagem em destaque é da Defense One)

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