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O curta-metragem “Cabana” será exibido no próximo dia 20 de janeiro no SESC Ver-o-peso, no Boulevard Castilhos França, em Belém. Serão três sessões, uma seguida da outra, das 16h até às 17:30h e, ao final, haverá um bate-papo com a diretora e produtora Adriana de Faria e com a produtora executiva do filme, Tayana Pinheiro. Conversamos com a Adriana, que nasceu e mora a vida inteira em Belém, é formada em Comunicação Social: Publicidade e Propaganda, escreve “desde que se entende por gente” e trabalha com cinema há nove anos, que nos contou sobre o filme, que é uma produção maioritariamente local, amazônida (a única coisa que não foi feita em Belém foi a pós-produção de som, que foi realizada em um estúdio em Fortaleza), e também sobre sua trajetória profissional e o cinema na Amazônia.

Como surgiu o interesse de retratar a Cabanagem de um ângulo feminino?

O meu interesse sobre a Cabanagem sempre partiu de um uma reflexão sobre ter nascido aqui, trabalhar com cinema e me questionar de não existirem filmes sobre a Cabanagem – e eu falo no plural porque eu acho que o meu pode ser o primeiro de muitos, até porque a Cabanagem é um tema muito amplo e que pode ser abordado de inúmeras maneiras. Quanto ao ângulo feminino, foi justamente me perguntando por que eu deveria contar essa história, que parte de mim estaria apta para contar isso, e foi aí que eu me deparei com a perspectiva das mulheres. Existe um grande apagamento histórico sobre a participação das mulheres na Cabanagem. Quando a gente estuda na escola, a gente sabe aquela versão oficial dos grandes homens da Cabanagem e a própria imagem do cabano é aquele desenho de um homem com um chapéu e um facão, então comecei a me perguntar quem eram essas mulheres.

E como foi o processo de transformar a ideia em filme?

O ponto de partida para eu pensar que essa história poderia ir para o cinema foi quando eu assisti a um curta-metragem de um diretor português chamado Pedro Peralta que se chama a “Noite Perpétua” e é um curta que se passa numa única locação, uma casa, e retrata uma mulher que precisa deixar família durante a Revolução dos Cravos. Quando eu vi esse curta, despertou em mim o desejo de contar a história da Cabanagem, que foi uma guerra como qualquer outra do mundo. Eu ganhei um prêmio de incentivo à arte à cultura da Fundação Cultural do Pará em 2022, porém esse prémio foi de apenas 25 mil reais e a gente sabe que para realizar um curta é preciso, em média, uns 100 mil reais, ainda mais no meu caso que era um drama histórico, um filme de época, então esse valor foi mais um gás para eu conseguir juntar um investimento próprio e ainda conseguir apoio de empresas privadas, principalmente a Marahu Filmes, que é a coprodutora e que entrou com todos os equipamentos e alguns profissionais.

A participação das mulheres na Cabanagem foi apagada historicamente e o processo de resgate é relativamente muito recente e pequeno. Como foi a pesquisa para a reconstituição histórica?

Eu já tinha uma certa estrutura anterior de como eu queria contar história, mas eu preciso dizer que eu escrevi esse roteiro lendo os artigos da professora Eliana Ramos Ferreira (Professora Titular e Colaboradora do Mestrado Profissional em Ensino de História da UFPA, que tem como tese de doutorado “Guerra sem fim: mulheres na trilha do direito à terra e ao destino dos filhos (Pará – 1836-186)” e uma importante pesquisa acadêmica sobre o papel das mulheres na Cabanagem), porque eu não sabia até que ponto a gente tinha conhecimento sobre figurinos, objetos de cena, e a própria ambiência, então foram fundamentais as pesquisas da professora Eliana. Eu entrei em contato com ela na época em que eu estava desenvolvendo o roteiro e pedi para ela ler. Ela leu e foi muito gentil, a gente teve uma reunião juntas, ela gostou muito do roteiro e me disse que estava bem verídico, mas ela me apontou algumas coisas que eu poderia melhorar para tornar ainda mais verossímil. A minha tentativa sempre foi de chegar o mais próximo possível do que seria aquela realidade e também é ampliar esse imaginário, porque a gente nunca viu uma mulher cabana. Eu queria que as pessoas, ao assistirem, tivessem a possibilidade de imaginar até mais coisas do que estão ali colocadas no filme.

De onde veio a vontade de fazer cinema?

Eu acho que partiu muito de uma observação do mundo, de tentar processar meus próprios sentimentos. Eu comecei escrevendo algumas crônicas e contos num blog que eu tinha na internet, na época, e depois disso, quando chegou na fase do vestibular, eu fiquei em dúvida entre publicidade e jornalismo, mas como eu gostava de inventar muitas coisas eu decidi pela publicidade. Na época, o curso de cinema na UFPA tinha somente um ano, então ainda não estava muito bem estruturado, e para falar a verdade eu nem imaginava que eu poderia trabalhar com cinema…, mas no penúltimo ano da minha faculdade o Fernando Segtowick, que é um grande diretor aqui de Belém, e que deu uma palestra na minha turma e um curso de três meses de roteiro de longa-metragem. A partir desse curso, na produtora Clarté, eles decidiram me chamar para ser estagiária e foi aí que eu comecei de fato a desenvolver a minha carreira enquanto roteirista. A direção é um processo mais recente, porque eu fiquei muitos anos escrevendo os projetos das outras pessoas e quando foi mais ou menos em 2019 eu me questionei: “Que projetos eu gostaria de contar? Que histórias eu gostaria de contar? Qual era a minha visão dentro do cinema?” Aí eu dirigi o meu primeiro curta, “Ari y Yo” que foi feito em Cuba, em Santo António de Los Baños, num curso livre, de férias. É um documentário que conta do meu encontro com uma menina de nove anos, cubana, que me ensina a falar espanhol, porque eu fui para lá estudar sem saber falar espanhol. Esse filme rodou em dezesseis mostras e festivais e ele acabou de ser contemplado na Paulo Gustavo de licenciamento para a TV Cultura do Pará, então ele vai entrar na grade de programação da TV esse ano. “Cabana” é o meu segundo filme como diretora.

Adriana de Faria

É difícil fazer cinema na Amazônia?

As dificuldades de fazer cinema na Amazônia são muitas, mas eu acho que a principal delas é a falta e escassez de políticas públicas direcionadas ao audiovisual em específico, porque a gente vê exemplos de outros Estados como a Bahia, Pernambuco, Ceará, que têm milhões investidos apenas no audiovisual, fora as outras artes e culturas. Ainda falta no Pará essa política pública direcionada ao audiovisual. Agora, com as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, a gente vai ter uma crescente das produções, mas eu sinto que o Norte continua apagado da história, por isso que algumas organizações são tão importantes, como o CONNE, que junta Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Dentro da ANCINE a gente tem essa cota de 30% para conseguir viabilizar nossos projetos, mas é pouco, então eu sinto que a principal dificuldade de fazer cinema na Amazônia é, primeiro, a falta de políticas públicas, e a segunda talvez seja a falta de entendimento dos governantes em como se faz cinema na Amazônia, porque nossas distâncias são muito maiores, nossos profissionais ainda estão em desenvolvimento, na maioria das vezes, e muitas vezes a gente tem que se deslocar para outros lugares para conseguir as oportunidades. Eu acho que, agora com a COP30 e com a Amazônia estando no centro do mundo talvez isso mude, que isso melhore de alguma maneira, mas há uma grande falta de entendimento de como funciona fazer cinema aqui, as dificuldades de produção desde conseguir locações a conseguir atores e atrizes com uma com uma formação mais robusta justamente pela falta de oportunidades.

E há vantagens de fazer cinema na Amazônia?

Eu acho que a principal delas é fato de que existe uma pluralidade de Amazônias. Nós não somos únicos, nós não somos um, nós temos visões diferentes, somos pessoas muito diferentes e se você viaja de um Estado para outro da Amazônia quase que é como você ir para outro país, então a quantidade de histórias a serem contadas, para mim, é uma grande vantagem, e também assim a oportunidade que a gente tem de desenvolver os profissionais daqui, a gente tem a possibilidade de crescer todo mundo junto e, quem sabe, um dia falar que existe um Cinema Amazônida, com uma visão e um olhar que a gente consegue identificar. Eu me espelho, com certeza, em cineastas da Amazônia como o Fernando Segtowick, que foi um grande mestre para mim e com quem eu aprendi muita coisa, a Jorane Castro,a  Carla Martins, que é uma produtora do Acre, a Rayane Penha, que é uma diretora do Amapá, a Larissa Ribeiro, que também é de Belém, a Lúcia Tupiassú, que é uma grande roteirista, o Bernardo Ale Abinader, a Valentina Ricardo, o Diego Bauer, os três do Amazonas, de Manaus… Tem muita gente, fora os da América Latina em geral, também me inspiro muito em cineastas que não são necessariamente da Amazônia mas que estão pensando nesse cinema fora do olhar colonizador europeu.

Além das sessões no dia 20 de janeiro, em Belém, “Cabana” será exibido no dia 26 de janeiro, às 16h, na “Mostra Tiradentes”, em Tiradentes, Minas Gerais, e ficará disponível online, gratuitamente, desta hora até as 16h do dia 29 de janeiro no site do festival. O curta também foi contemplado pelo licenciamento da Lei Paulo Gustavo e entrará na grade da TV Cultura do Pará em 2024. Além disso, está prevista uma exibição no Cine Clube de Bragança, no Pará, dia 16 de fevereiro, e a diretora sonha com que ele seja exibido nas escolas como apêndice para o estudo da Cabanagem. Nós torcemos juntos.

FICHA TÉCNICA

Elenco: Isabela Catão e Rosy Lueji
Com participação de: Ísis Silva dos Remédios, Vinicius Silva e Luis Melão de Faria
Roteiro, direção e produzido por: Adriana de Faria
Coprodução: Marahu Filmes
Produção executiva: Tayana Pinheiro e Adriana de Faria

Assistente de direção: Maurício Moraes

Continuísta: Gabriel Leite

Direção de produção: Tayana Pinheiro

1ª Assistente de produção: Mayara Coelho

2º Assistente de produção: Lucas Domires

Produção de locação: Robson Campbell

Preparação de elenco: Tarsila Rosa

Diretor de fotografia: Thiago Pelaes 

Assistente de câmera: Vinicius Silva

Logger: Lucas Domires

Maquinista: André Dos Santos

Eletricista: Raimundo Santos

Fotografia still: Duda Santana
Direção de arte: Bea Morbach

Produção de arte e cenografia: Tita Padilha

1º Assistente de arte: Lucas Domires

2ª Assistente de arte: Lorena Sá Ribeiro

Marceneiro: Raimundo Santos

Artesanato: Jandira Cruz

Figurino: Vinny Araújo 

Assistente de figurino: Alê Ferreiro

Tratamento de acessórios: Ailton Siqueira

Maquiagem e cabelo: Isis Penafort 

Trancista: Thayane Teixeira

Montagem: Lucas Domires

Colorização: Adrianna Oliveira

Som direto: Victor Kato

Edição de som e mixagem: Lucas Coelho

Artista de foley: Letícia Belo

Sala de mixagem: Atelier Rural

Assistente de edição de som: Letícia Belo

Legendagem e finalização: Lucas Domires

Imagens de apoio: acervo Marahu Filmes

Acessibilidade: All Dubb Group

Tradução (Inglês): Nina Hiraoka

Tradução (Espanhol): Isadora Lis

Tradução (Francês): Mathilde Boisselier

Motoristas: Jonas Silva, Wellington da Silva Almeida, Luis Melão de Faria e Leandro Silva

Catering: Luis Melão de Faria, Maria dos Remédios Fonseca e Maria do Carmo Pina 

Segurança: Paulo Silveira Junior

Cartaz: Jessica Vieira

Apoio: Atelier Rural, Casteliano Distribuidora de Descartáveis, Velas Cigana, Lamparina Filmes e H3 Distribuidora

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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