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O setor de food service (alimentação fora do lar) movimenta cerca de R$ 495 bilhões segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, incluindo pequenos bares, botecos e estabelecimentos informais ou semiformais que ditam o ritmo do comércio em cada esquina do país. Em recortes que focam exclusivamente o desembolso direto com consumo (excluindo algumas categorias), o Instituto Foodservice Brasil aponta cifras próximas a R$ 223,5 bilhões. O segmento tem uma fatia robusta do PIB brasileiro, em torno de 3,6%, e é um dos maiores motores do mercado de trabalho, reunindo mais de 1,3 milhão de estabelecimentos e gerando quase cinco milhões de empregos formais no país, impacto social significativo: o setor absorve muita mão de obra jovem e no primeiro emprego, além de movimentar uma cadeia gigantesca de fornecedores, da agricultura ao setor de embalagens e logística.


Bares e restaurantes vivem uma transformação na forma como o tempo é utilizado dentro da operação. O avanço do delivery e a digitalização do consumo consolidam um novo padrão: operar bem deixou de ser suficiente, agora é preciso operar com inteligência. E o tempo, no food service, é ativo estratégico. Dados do Sebrae, em parceria com a Abrasel, mostram que 66,3% dos brasileiros frequentam bares e restaurantes entre duas e cinco vezes por mês. Mais do que isso: 32,4% valorizam limpeza e higiene, 17% observam cordialidade e preparo do atendimento, e 12,4% consideram o ambiente na decisão de retorno. Ou seja, a escolha do cliente está diretamente ligada à experiência, não apenas ao produto. A tecnologia, nesse contexto, não é protagonista, é infraestrutura.


A Saipos, sistema de gestão para restaurantes e delivery, sofreu uma grave pane nacional durante a noite do Dia dos Namorados (12) deste ano. A instabilidade causou sumiço de pedidos, duplicação e atrasos severos, e até o cancelamento em massa de solicitações vindas do iFood, com transtornos e prejuízos a milhares de estabelecimentos Brasil afora. Justamente no momento de maior movimento do ano para o setor de alimentação, gerando grande frustração para clientes e empresários. E maximizou os impactos financeiros, operacionais e de reputação.


Exemplo disso é um ícone de Belém, o Roxy, que carrega décadas de tradição e uma base de clientes altamente exigente. Entre 18h45 e 20h15, os serviços ficaram indisponíveis, afetando atendimentos presenciais, pedidos de delivery e demais operações realizadas pela plataforma. O natural descontentamento desaguou nas redes sociais, um dos maiores pesadelos operacionais para qualquer estabelecimento de gastronomia. Para uma marca com forte componente de memória afetiva, o impacto vai muito além do financeiro imediato; toca diretamente na relação de confiança com o público. Afinal, no Dia dos Namorados não se busca apenas comida, mas uma experiência (um jantar romântico, um momento especial). O atraso ou cancelamento gera uma frustração muito maior.


Os sócios João Carlos Braga e Janjo Proença, personalidades conhecidas e respeitadas no meio cultural de Belém, divulgaram um comunicado explicando o problema, providenciaram o reembolso dos pedidos cancelados no iFood e pediram desculpas. A humildade gerou empatia. Todo mundo entendeu que há pessoas sérias por trás do balcão e que também foram vítimas da falha.


O apagão sistêmico nacional evidenciou que a dependência de um único ecossistema digital é um ponto de vulnerabilidade crítico. O Roxy suspendeu o delivery e está desenhando um “Plano B” com sistemas secundários de contingência para datas sazonais críticas. Postura madura e honesta de seus proprietários frente à crise operacional, que tem tudo para virar um “case” de sucesso.

O dono e o mal – Bruno Ribeiro – Editora Alfaguara

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