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A maldição da tela grande

Eu não sei vocês, mas eu morro de medo de assistir a filmes de terror. Acompanhada, até posso fingir que vejo para pegar no sono. Sozinha, jamais. Principalmente se for com crianças. Para mim não há nada mais aterrorizante do que crianças em um filme de terror – talvez pelo facto de, como uma boa virginiana (não acredito em horóscopo, mas bora lá) tenho planos para todas as situações mirabolantes que um dia possam acontecer em minha vida (tipo um assalto a um apocalipse alienígena e zumbi – ao mesmo tempo), e confesso que, para salvar a minha vida e dos meus, atiraria em um monstro. Mas, e em uma criança? Não posso tacar uma cadeira na cara de uma criança! Como parar uma criança endemoniada?

Ok, não sei por que diabos eu comecei a falar de crianças endemoniadas. Na verdade, eu queria falar sobre a maldição que paira no cinema em relação a muitos atores mirins. Muitas daquelas crianças fofinhas que marcaram gerações no cinema foram engolidas pelo mainstream e desenvolveram inúmeros problemas pessoais, vide Drew Barrymore, Macaulay Culkin, Lindsay Lohan, Linda Blair… E é também o caso de Jake Lloyd, o Anakin Skywalker do Ep. I – The Phantom Menace – de Star Wars. O ator, hoje com 32 anos, vive em uma clínica psiquiátrica após ter sido diagnosticado com esquizofrenia paranoide. Antes disso, ele chegou a ser preso por infrações gravíssimas no trânsito, e também agrediu fisicamente sua mãe. Nunca viu nada relacionado com a saga depois que se aposentou por causa do bullying que sofria na escola. Enquanto sua personagem sucumbe ao Lado Negro da Força e torna-se o maior opressor intergaláctico, Lloyd virou uma das tantas vítimas do sistema que não demonstra empatia aos que mais precisam – principalmente aos portadores de necessidades especiais.

Também é bem conhecida a trajetória de vida de Carrie Fisher, a Princesa – General – Leia, marcada pelo abuso de álcool, drogas, transtorno bipolar, síndrome do pânico e depressão. Sua estreia artística, primeiro na Broadway e depois no cinema, já foi na adolescência, entretanto sua vida inteira foi interligada à fama por ser filha da atriz e queridinha de Hollywood Debbie Reynolds – que não aguentou a morte da filha e partiu para outro plano um dia depois – e do cantor Eddie Fisher. Já seu “gêmeo” Mark Hamill parece ter escapado incólume, apesar de nunca ter interpretado um papel marcante no cinema além de Luke Skywalker. Ao que se sabe, ele tem uma vida pessoal feliz ao lado da família; uma carreira paralela nos quadrinhos e como dobrador/dublador – é a voz do Joker tanto nos desenhos animados quanto nos video games; e é a diversão diária da comunidade geek mundial nas redes sociais.

Carrie Fisher e Debbie Reynolds

Sim, é claro que nem tudo é desgraça. Um exemplo feliz de uma criança-atriz que sobreviveu à maldição de Hollywood é Jodie Foster, que iniciou a carreira cinematográfica aos 8 anos e, aos 12, foi indicada pela primeira vez ao Oscar por sua atuação como uma criança prostituída em Taxi Driver, de Martin Scorsese. É bem verdade que a fama foi um fator negativo durante sua adolescência, o que fez Foster dar uma pausa na carreira para ingressar em Yale. Durante seus anos na universidade, foi perseguida por um fã obcecado que tentou assassinar o então presidente estadunidense Ronald Reagan sob o pretexto de chamar a atenção da atriz, mas ainda assim retornou para sua carreira, que inclui dois prêmios Oscar de melhor atriz, um Palme d’Or honorário em Cannes, um Berlinale Camera em Berlim, quatro Golden Globes, entre literalmente centenas de outras premiações.

Jodie Foster em Taxi Driver

Se fossemos nos alongar para a música, exemplos trágicos não faltariam, como são os casos de Michael Jackson e Britney Spears – que apenas recentemente, aos 40 anos, recuperou judicialmente sua liberdade, após 13 anos sob tutela de seu pai, que explorava a filha e usava o poder que tinha para restringir o contacto da cantora com os próprios filhos para chantageá-la. O movimento #FreeBritney ganhou a internet e sua vitória foi celebrada por fãs ao redor do mundo inteiro. A Netflix inclusive lançou um documentário que explica toda a situação.

O mundo, entretanto, por mais que reclamemos – com toda a razão – está a evoluir e o controle sobre o trabalho de crianças nos meios artísticos é muito maior e específico do que era há algumas (poucas) décadas, assim como o abuso moral e sexual de mulheres finalmente passou a ser encarado como o enorme problema que sempre o foi, e a disparidade salarial cada vez mais diminui, a partir do momento em que artistas consagradas passaram a recusar trabalhos em que recebessem menos do que seus pares masculinos. Nada muda se não gritarmos, tudo mudamos quando queremos e, por hora, a única certeza que tenho de não-mudança é que não assistirei a nenhum filme de criança endemoniada. Nem que me paguem.

Eu, heim.

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1 comentário

  1. Gabi, desde que a civilização ocidental se deu conta de que havia uma criatura em desenvolvimento, com necessidades próprias dessa fase, e inventou a infância, o consenso é seguro em torno da ideia de que a infância deve ser protegida das coisas próprias do mundo dos adultos.
    As crianças que, por impulso de seus pais, são empurradas para o mundo dos adultos, têm sonegados todos os direitos às coisas próprias dessa fase do desenvolvimento.
    Sobretudo quando essa negação de direitos envolve toda a insalubridade e estresse do mundo do cinema.
    Sou adepta da doutrina da proteção integral da infância. Para mim, criança deve estar na escola, estudando, se desenvolvendo, brincando, aprendendo…
    Sua denúncia revela sequelas. Não apenas das telas de cinema, mas da vida de milhares de crianças que têm a infância negada; que se tornam adultas aos pedaços.
    Essas pessoas sofrem uma amputação emocional que se revelará em forma de tragédia na vida adulta…
    Se experimentarmos cruzar os dados desses pequenos famosos com o de anônimos vitimados pelo trabalho infantil precoce, quem sabe chegaremos ao mesmo denominador.
    Lastimável…

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