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Ao examinar a imprensa internacional, verifica-se que poucos acontecimentos contemporâneos são tão reveladores das transformações da ordem internacional quanto a Copa do Mundo de 2026. O torneio organizado conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá ultrapassa os limites do espetáculo esportivo. Ele oferece um espelho singular das tensões, contradições e ambiguidades que caracterizam o mundo do século XXI. Entre os inúmeros aspectos passíveis de análise, dois se destacam pela capacidade de sintetizar os dilemas deste tempo: a multiculturalidade e o pragmatismo diplomático.


Durante as décadas posteriores ao fim da Guerra Fria, difundiu-se a expectativa de que a globalização promoveria uma integração progressiva entre sociedades. A intensificação dos fluxos comerciais, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e a expansão das instituições multilaterais pareciam indicar a emergência de uma comunidade global cada vez mais interdependente. O futebol transformou-se em uma das expressões mais visíveis desse fenômeno. Clubes converteram-se em marcas transnacionais, jogadores passaram a circular por diferentes continentes e as Copas do Mundo consolidaram-se com a marca de uma das celebrações planetárias da diversidade cultural.


A Copa de 2026 representa um dos estágios desse processo. Pela primeira vez, quarenta e oito seleções participam do torneio. Nunca tantas culturas, línguas, religiões e identidades nacionais estiveram reunidas nessa competição esportiva. Contudo, essa ampliação ocorreu em um contexto marcado pelo fortalecimento das fronteiras, pela ascensão de movimentos nacionalistas, pela intensificação das rivalidades geopolíticas e pela crescente desconfiança em relação aos efeitos da globalização.


A própria composição do torneio oferece uma imagem precisa da ordem multipolar contemporânea. Países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte convivem com membros dos BRICS. Democracias liberais compartilham espaço com monarquias, repúblicas islâmicas, regimes híbridos e governos autoritários. Seleções de Estados aliados aos Estados Unidos competem ao lado de representantes de países que desafiam abertamente a influência norte-americana em diversas regiões do planeta.


Observa-se que essa pluralidade não resulta da convergência ideológica nem da existência de uma comunidade política global, mas da capacidade das instituições internacionais de estabelecer regras mínimas de convivência entre atores profundamente distintos. A multiculturalidade observada na Copa não representa a superação das divergências históricas; representa, sobretudo, a administração institucional dessas divergências em bases mínimas de coexistência.


Nesse aspecto, o torneio evidencia uma das principais contradições da modernidade globalizada. Bauman dizia que a proximidade física entre indivíduos e sociedades não elimina necessariamente as distâncias econômicas, culturais ou políticas. A globalização aproxima povos, mas não dissolve conflitos. Ela reduz distâncias geográficas ao mesmo tempo em que evidencia diferenças históricas e identitárias.


Essa constatação torna-se particularmente relevante quando analisamos os episódios mais constrangedores associados à realização da Copa. A imprensa internacional repercutiu amplamente as dificuldades enfrentadas por jornalistas, torcedores e representantes oficiais para ingressar nos Estados Unidos. O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan assumiu caráter simbólico porque expôs uma contradição estrutural do torneio. Enquanto a FIFA promovia a competição mais inclusiva da história, participantes oficialmente credenciados encontravam obstáculos significativos para atravessar as fronteiras do principal país anfitrião.


O constrangimento não decorreu apenas da situação individual do árbitro. O episódio simbolizou o contraste entre a retórica cosmopolita que acompanha os megaeventos esportivos e a realidade das políticas migratórias adotadas pelos Estados responsáveis por sua organização. Veículos de comunicação africanos, europeus e norte-americanos destacaram essa contradição, apontando a existência de uma distância crescente entre o discurso da inclusão global e as práticas concretas de controle migratório.


O episódio não foi isolado. Organizações internacionais de defesa dos direitos humanos registraram preocupações relacionadas às dificuldades enfrentadas por visitantes vindos de países submetidos a controles migratórios mais rigorosos. Críticos argumentaram que a seletividade na concessão de vistos enfraquecia o caráter universal tradicionalmente associado ao futebol. Em contrapartida, autoridades norte-americanas sustentaram que tais procedimentos eram necessários para garantir a segurança do evento e prevenir ameaças transnacionais. O debate revelou a colisão entre dois princípios igualmente relevantes: a abertura internacional e a soberania estatal.


As declarações de Donald Trump aprofundaram ainda mais essa percepção. Ao afirmar que os Estados Unidos receberiam visitantes para a Copa, mas apenas as “pessoas certas”, o presidente sintetizou involuntariamente uma das características centrais da globalização contemporânea. Mercadorias, capitais e informações continuam atravessando fronteiras com relativa facilidade. Pessoas, porém, encontram obstáculos cada vez maiores para exercer a mesma mobilidade.


Durante décadas, os Estados Unidos apresentaram-se na qualidade de defensores da liberalização econômica global. A Copa de 2026 revelou uma transformação importante dessa postura. A abertura dos mercados continuava em negociação (vide a visita de Trump à China), mas a circulação de pessoas passou a ser submetida a critérios mais seletivos. O torneio evidenciou uma característica central da ordem internacional contemporânea: a mobilidade humana tornou-se profundamente desigual.


A controvérsia adquiriu maior relevância porque ocorreu em um contexto de intensa polarização política interna. Questões relacionadas à imigração, identidade nacional e controle de fronteiras ocupam posição central no debate público norte-americano. Dessa forma, a Copa se torna uma vitrine internacional das próprias tensões dos anfitriões.


Outro exemplo revelador do pragmatismo diplomático pode ser observado na participação do Irã. As relações entre Washington e Teerã atravessam um dos períodos mais delicados das últimas décadas. Divergências relacionadas ao programa nuclear iraniano, às sanções econômicas e aos conflitos no Oriente Médio permanecem presentes. Ainda assim, autoridades dos dois países precisaram encontrar mecanismos capazes de garantir a participação da delegação iraniana.


O episódio ilustra uma característica fundamental da ordem multipolar contemporânea. A cooperação internacional já não depende necessariamente da existência de alianças permanentes ou afinidades ideológicas profundas, mas da capacidade de construir acordos específicos, limitados e funcionais em torno de objetivos concretos. O pragmatismo substitui progressivamente os antigos projetos de convergência universal.


Essa realidade remete às reflexões de Samuel Huntington sobre a coexistência entre civilizações distintas. A Copa não elimina rivalidades geopolíticas. Ela cria circunstâncias temporárias nas quais adversários precisam compartilhar regras comuns de convivência. O futebol torna-se instrumento de uma estratégia institucional de coexistência regulada.


O mesmo fenômeno pode ser observado na cooperação entre Estados Unidos, México e Canadá. Apesar das divergências relacionadas ao comércio internacional, à imigração e à segurança de fronteiras, os três governos precisaram coordenar esforços nas áreas de transporte, segurança pública, inteligência, logística e administração migratória. A realização do torneio exigiu uma complexa rede de acordos técnicos que frequentemente operou à margem das disputas políticas mais visíveis.


As manifestações ocorridas durante a abertura da Copa no México também revelaram limites importantes da multiculturalidade contemporânea. Enquanto a cerimônia oficial celebrava diversidade, inclusão e convivência entre povos, grupos sociais aproveitaram a atenção da imprensa internacional para denunciar violência, desigualdade social, desaparecimentos forçados e impunidade.


As imagens dos protestos circularam globalmente e demonstraram que a integração cultural promovida pelos megaeventos esportivos não elimina conflitos estruturais. A diversidade exibida nos estádios coexistia com profundas desigualdades econômicas e tensões políticas presentes fora deles.


Esse fenômeno não é novo. Os Jogos Olímpicos do México em 1968, a Copa do Mundo do Brasil em 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 também foram acompanhados por manifestações sociais que buscavam chamar atenção para problemas domésticos. A recorrência desses episódios sugere que os megaeventos esportivos frequentemente se tornam amplificadores de tensões preexistentes.


Sob essa perspectiva, a multiculturalidade contemporânea apresenta limites evidentes. A celebração simbólica da diversidade nem sempre é acompanhada pela redução efetiva das desigualdades. Žižek dizia: existe o risco de que a tolerância multicultural se converta em mera administração das diferenças, sem enfrentar as estruturas responsáveis pela produção da exclusão social. A Copa de 2026 oferece diversos exemplos dessa contradição.


As críticas formuladas pela Anistia Internacional, pela Human Rights Watch e pela Sport & Rights Alliance aprofundaram ainda mais esse debate. Relatórios publicados durante o período preparatório do torneio alertaram para riscos relacionados à liberdade de expressão, vigilância digital, proteção de migrantes e atuação das forças de segurança.


Essas preocupações refletem uma transformação importante da agenda internacional. Os direitos humanos deixaram de ocupar posição periférica nas discussões sobre megaeventos esportivos. Tornaram-se critérios centrais para avaliação da legitimidade política desses acontecimentos. O poder econômico e a capacidade organizacional já não são suficientes para assegurar reconhecimento internacional. Aspectos normativos assumem importância crescente.


Além dos conflitos sociais visíveis nas ruas, a Copa de 2026 também evidencia contradições relacionadas à xenofobia e à exclusão em eventos esportivos internacionais. Embora o futebol seja frequentemente uma linguagem universal capaz de aproximar povos e culturas, episódios de discriminação étnica, religiosa e nacional continuam sendo registrados em competições globais. A presença simultânea de milhares de torcedores provenientes de diferentes regiões do planeta nem sempre produz integração harmoniosa. Em muitos casos, rivalidades históricas, preconceitos culturais e tensões identitárias reaparecem no ambiente esportivo, revelando limites concretos da convivência multicultural celebrada pelos organizadores.


Os impactos econômicos da competição também merecem atenção. Governos e entidades esportivas costumam destacar os benefícios associados ao turismo, aos investimentos em infraestrutura e à geração temporária de empregos. Contudo, pesquisas sobre megaeventos esportivos indicam que os custos frequentemente recaem de maneira desproporcional sobre populações locais. O aumento dos preços de imóveis, a pressão sobre serviços públicos, os processos de gentrificação e a redistribuição desigual dos investimentos constituem fenômenos recorrentes em cidades-sede. A Copa de 2026 reforça o debate sobre quem efetivamente se beneficia dos ganhos econômicos produzidos pela indústria global do esporte.


Outro aspecto revelador é a crescente militarização da segurança. A proteção de estádios, aeroportos, centros de treinamento e zonas de circulação de torcedores mobiliza estruturas cada vez mais sofisticadas de policiamento, inteligência e monitoramento. Em nome da prevenção de ameaças transnacionais, autoridades ampliam mecanismos de controle capazes de acompanhar deslocamentos, identificar indivíduos e monitorar comportamentos em tempo real.


Nesse contexto, a vigilância digital assume papel central. Sistemas de reconhecimento facial, bancos de dados biométricos, aplicativos de rastreamento e tecnologias de análise de informações transformam grandes eventos esportivos em laboratórios de novas práticas de controle social. Organizações de defesa dos direitos humanos alertam que tais instrumentos, embora pareçam medidas de segurança, podem gerar impactos duradouros sobre a privacidade e as liberdades civis.


As tensões migratórias entre Estados Unidos e México acrescentam uma dimensão geopolítica adicional ao torneio. A realização conjunta da Copa exige elevados níveis de coordenação logística e diplomática entre países que frequentemente divergem em questões relacionadas à imigração, ao controle de fronteiras e à segurança regional. A necessidade de garantir a circulação de atletas, delegações, jornalistas e torcedores impõe soluções pragmáticas que contrastam com discursos políticos marcados por restrições migratórias e nacionalismo. A competição evidencia, assim, a coexistência entre cooperação funcional e conflito político, uma das características mais marcantes da ordem internacional contemporânea.


Sob essa perspectiva, a Copa de 2026 também pode ser interpretada à luz do conceito de soft power, desenvolvido por Joseph Nye. Segundo o autor, Estados podem ampliar sua influência internacional por meio do poder militar ou econômico, mas também através da capacidade de atração cultural e simbólica.


O futebol converte-se, nesse sentido, em importante instrumento de diplomacia pública. Ao sediar um dos maiores eventos do planeta, os países anfitriões buscam fortalecer sua imagem internacional, projetar valores políticos e ampliar sua capacidade de influência global. O torneio transforma-se, portanto, em espaço de disputa por prestígio, legitimidade e reconhecimento, demonstrando que o esporte ocupa posição cada vez mais relevante nas estratégias contemporâneas de poder internacional.


A Copa do Mundo de 2026 oferece, portanto, um panorama particularmente rico das características da ordem multipolar contemporânea. O torneio demonstra que a multiculturalidade continua sendo um ideal poderoso, capaz de mobilizar milhões de pessoas em torno de símbolos compartilhados. Ao mesmo tempo, evidencia que a convivência internacional depende cada vez mais de instrumentos diplomáticos pragmáticos destinados à administração de conflitos persistentes.


O futebol continua aproximando sociedades diferentes, mas as fronteiras continuam limitando a circulação humana. As instituições internacionais continuam promovendo cooperação, mas os Estados continuam defendendo interesses nacionais. A coexistência dessas tendências aparentemente contraditórias constitui uma das marcas fundamentais do século XXI.


A Copa do Mundo de 2026 provavelmente será lembrada pelos resultados obtidos em campo, mas também por aquilo que revelou sobre a condição histórica do nosso tempo. O torneio reuniu centenas de nacionalidades sob uma mesma estrutura organizacional, confirmando a extraordinária capacidade integradora do esporte. Contudo, também evidenciou que a globalização não produziu um mundo sem fronteiras para pessoas. Ao contrário.


Os episódios envolvendo restrições migratórias, disputas diplomáticas, protestos sociais e preocupações com direitos humanos demonstram que a convivência global depende de consensos universais e de arranjos pragmáticos capazes de administrar divergências permanentes. A multiculturalidade permanece um ideal mobilizador e o pragmatismo diplomático e tornou-se condição indispensável para o funcionamento da ordem internacional.


Concluo que reside aí a principal lição histórica da Copa de 2026. O mundo contemporâneo não caminha para uma comunidade global homogênea, como muitos imaginaram após o fim da Guerra Fria, mas para uma convivência cada vez mais complexa entre sociedades diferentes, interesses conflitantes e identidades múltiplas. A globalização continua viva, mas já não possui o otimismo de outrora. O estádio global permanece cheio; as fronteiras e muros, porém, continuam de pé.


Referências


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ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. São Paulo: Boitempo, 2014.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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