Publicado em: 1 de junho de 2026
O governo federal lançou neste último sábado (30), no Rio de Janeiro, uma plataforma pública e gratuita de streaming voltada exclusivamente ao audiovisual brasileiro. A Tela Brasil foi apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia realizada na Cidade das Artes, no contexto do Rio2C, encontro internacional dedicado à indústria criativa, e passa a integrar a estratégia do Ministério da Cultura para ampliar a circulação de obras nacionais e fortalecer políticas de acesso cultural.
Desenvolvida com tecnologia brasileira pelo Ministério da Cultura (MinC), em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a plataforma recebeu um investimento aproximado de R$ 9 milhões entre 2024 e 2025 e reúne um catálogo inicial de 555 produções audiovisuais brasileiras. O projeto contempla recursos destinados ao licenciamento de conteúdos, desenvolvimento tecnológico, curadoria, acessibilidade e gestão.
Ao defender a iniciativa, Lula associou a criação do streaming à valorização da cultura brasileira e à construção de uma identidade nacional baseada na diversidade cultural do país. Para o presidente, ampliar a circulação de produções brasileiras significa fortalecer a compreensão sobre o próprio Brasil.
“A Plataforma Tela Brasil e o investimento em cultura que o Governo do Brasil está fazendo vai contribuir para a elevação da compreensão de um país chamado Brasil”, afirmou.
Durante o discurso, Lula criticou o predomínio de conteúdos estrangeiros consumidos no país e argumentou que a ausência de acesso amplo ao audiovisual nacional reduz o contato da população, sobretudo dos jovens, com expressões culturais brasileiras: “por que nós somos assim? Por que nós fazemos assim? Vamos nos compreender, porque a gente está muito acostumado com cultura estrangeira no Brasil. A quantidade de enlatados, de má qualidade, que a gente é obrigado a assistir toda noite, porque não tem outra coisa para a gente ver, não permite que a juventude brasileira tenha acesso à plenitude da cultura brasileira”.

A cerimônia reuniu artistas, autoridades e representantes do setor cultural, incluindo a ministra da Cultura, Margareth Menezes. O evento integrou a programação do Rio2C, encontro estruturado em conferências, mercados, festivais e painéis voltados às transformações da economia criativa.
A plataforma está integrada ao Gov.br e funciona como política pública de acesso, preservação, difusão e formação de público para o audiovisual brasileiro. Na fase inicial, o serviço estará disponível em versão web, com possibilidade de espelhamento em smart TVs. Aplicativos para Android e iOS deverão ser lançados até 30 dias após a estreia oficial.
Lula também relacionou a iniciativa a outra plataforma pública criada recentemente, o MEC Livros, voltada ao acesso gratuito a obras literárias digitais, defendendo o acesso cultural como ferramenta de ampliação de horizontes e de fortalecimento da autonomia intelectual da população.
“A cultura abre a cabeça, abre horizontes, faz a gente enxergar um pouco mais longe. Faz a gente enxergar o que antes não era visível para nós. Temos que entender que devemos abrir oportunidade para as pessoas brasileiras terem acesso a tudo. E as pessoas podem gostar de tudo que quiserem gostar. Ninguém vai questionar. Cada um vê o que quiser e cada um é responsável por aquilo que vê. É esse país que queremos construir”, afirmou. Em outro momento, questionou: “Temos artistas de teatro, de cinema, extraordinários. Música extraordinária. Nós temos de tudo. Por que a gente não sente orgulho de mostrar as coisas que a gente faz?”
Além do argumento cultural, o presidente destacou o peso econômico do setor audiovisual e das atividades artísticas no mercado de trabalho brasileiro, observando a cadeia produtiva envolvida em filmes, peças teatrais e espetáculos musicais. “Cada produção pequena, cada filme, envolve milhares de pessoas, centenas de pessoas trabalhando. Cada peça de teatro são centenas de pessoas, cada show musical envolve centenas de pessoas, e a gente não tem dimensão. O mais importante é a gente conhecer o nosso país por dentro, conhecer a nossa cultura, a razão das coisas que fizeram a gente chegar onde nós chegamos”, disse.
O catálogo inicial da Tela Brasil reúne 139 longas-metragens, 85 médias-metragens ou telefilmes, 267 curtas e 64 obras seriadas. Entre os títulos disponíveis estão Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), A Noite do Espantalho (1974), Xica da Silva (1976), Carandiru (2003), Olga (2004), Quase Dois Irmãos (2005) e As duas Irenes (2017), além de outras obras dirigidas por nomes como Glauber Rocha, Sérgio Ricardo, Carlos Diegues, Suzana Amaral, Jayme Monjardim, Fábio Barreto, Lúcia Murat e Arthur Fontes.
Segundo o Ministério da Cultura, parte das produções já conta com mecanismos de acessibilidade, como audiodescrição, Libras e legendagem descritiva. A previsão é de que os demais conteúdos recebam adaptações ao longo de 2026, por meio de termo aditivo firmado com a UFAL.
Margareth Menezes afirmou que a plataforma responde à necessidade de ampliar a distribuição do audiovisual nacional e garantir o acesso aos direitos culturais: “o audiovisual agrega todas as artes, a música, o desenho, os filmes, as séries. Muita gente trabalha no setor e a nossa diversidade está no que a gente produz, porém o povo não tinha acesso”.
A ministra acrescentou que a criação da plataforma surgiu como alternativa para conectar a produção cultural à população. “Para fazer com que isso chegasse ao nosso povo, a solução foi exatamente criar uma plataforma, o Tela Brasil, gratuita, onde o povo vai ter acesso à produção maravilhosa dessas pessoas. Não é fácil trabalhar com a arte-cultura, em qualquer contexto, mas para você conseguir levar para a casa das pessoas essa cara diversa do Brasil, essa potência maravilhosa, precisava haver essa ferramenta, uma plataforma gratuita, onde o povo brasileiro vai poder se ver, pesquisar, conhecer e se entreter, Temos uma diversidade grande da produção, desenhos animados, filmes premiados.”
A ministra também relacionou o projeto ao fortalecimento da identidade nacional e ao reconhecimento das diferentes matrizes que compõem a formação brasileira. “Então, esse é o primeiro passo para a gente conseguir também fazer com que o povo se reconheça e fortalecer a nossa identidade, fortalecer o nosso audiovisual, fortalecer a soberania do nosso povo por meio da nossa cultura. É isso que o presidente Lula falou: o povo que se vê, se fortalece, porque nossas histórias são lindas. Temos povos originários, os povos africanos, os povos europeus, as pessoas que construíram este país. Histórias que nunca foram contadas, em todas as nossas regiões.”
A Tela Brasil terá dois perfis de navegação. O Perfil Cidadão será voltado ao acesso individual via Gov.br, organizado por categorias, formatos, gêneros, ferramentas de busca e área personalizada. Já o Perfil Direcionado foi desenhado para exibições coletivas, formação de público e debates temáticos, incluindo cineclubes, escolas, pontos de cultura, bibliotecas, museus, mostras e festivais.
Durante a cerimônia, a primeira-dama Janja Lula da Silva destacou a presença feminina no setor audiovisual, citando dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Segundo ela, mulheres ocupam cerca de 42% dos postos de trabalho no audiovisual brasileiro, embora ainda representem apenas 17% dos espaços de direção e poder decisório.
O lançamento também marcou a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica entre o Ministério da Cultura e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Com vigência inicial de 48 meses, o acordo prevê a incorporação de mais de 150 títulos e aproximadamente 3 mil horas do acervo da empresa pública, incluindo programas como Sem Censura, Samba na Gamboa e Xodó de Cozinha.

A presidenta da EBC, Antonia Pellegrino, classificou o acordo como uma integração histórica entre comunicação pública e acervo audiovisual nacional. “São mais de 3 mil horas de conteúdo, mais de 150 obras, entre documentários, musicais, o nosso Sem Censura. Essa união de forças é muito importante para democratizar ainda mais o acesso, para que a gente traga toda a diversidade da comunicação pública, também adicionando isso ao Tela Brasil”, afirmou.
Segundo o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares dos Santos, o projeto foi estruturado para combinar diversidade histórica, tecnologia pública e alcance nacional. “Pensamos em uma plataforma que, primeiro, é uma tecnologia brasileira, desenvolvida por uma universidade pública, gratuita e de qualidade, para um serviço público, gratuito e de qualidade de audiovisual”, disse. Ele acrescentou que o catálogo abrange desde acervos históricos da Cinemateca Brasileira até filmes premiados e conteúdos infantojuvenis voltados à formação de público.
Para acessar a plataforma, clique aqui.
Fotos: Fernando Frazão / Agência Brasil










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