Publicado em: 31 de maio de 2026
O jornalista, ufólogo e escritor Carlos Mendes, editor do Portal Ver-o-Fato e membro da Academia Paraense de Jornalismo, passou ao plano espiritual hoje por volta das 9h da manhã. Ele lutava contra o câncer e recentemente foi submetido a cirurgia no cérebro, tendo ficado semanas na UTI.
“Luzes do Medo – Relato de um Repórter na Operação Prato”, de autoria de Mendes, é importante fonte de pesquisa e trata dos eventos entre 1977 e 1978 e a missão do 1° Comando Aéreo Regional da Aeronáutica, que contou com a ajuda de equipamentos tecnológicos dos EUA e investigou ataques nos municípios de Colares, Santo Antônio do Tauá, Vigia, Viseu e em Belém na ilha do Mosqueiro, dentre outras localidades, em pessoas que relatavam perda de sangue e marcas na pele iguais a furos produzidos por agulhas.
Mendes era a maior o autoridade sobre o tema e apurou que a manifestação das luzes começou no Maranhão e seguiu para o Pará, intensificando-se em Colares, onde alguns ocultistas asseguram existir um portal interdimensional. Ele investigou os casos meses antes da Operação Prato ser deflagrada, e quase levou um tiro de espingarda do padre norte-americano Alfredo de La Ó, para quem os discos voadores eram “coisas de Satanás”.
De junho de 1977 a agosto de 1978, Mendes colheu relatos de pessoas em diferentes municípios do Pará. O capitão Uyrangê Holanda, à frente da Operação, teve uma relação tensa com ele, tentando controlar de qualquer maneira as informações.
Até hoje, grande parte dos documentos e fotografias dessa operação são mantidos sob sigilo.
Algumas matérias tiveram a publicação impedida pelo governo, que apreendeu mais de 250 fotografias de ovnis na redação do extinto jornal Estado do Pará, de autoria do fotógrafo José Ribamar dos Prazeres.
Em seu livro-reportagem, Mendes conta histórias do tenente-coronel Camillo Ferraz de Bastos, chefe da 2ª Seção da Aeronáutica, a quem era subordinado o Capitão Uyrangê Hollanda; do psiquiatra do I Comar que examinou vítimas, coronel Hernesto Póvoa; da médica Wellaide Cecim, que atendeu muitas vítimas e foi pressionada pela Força Aérea Brasileira a convencer os pacientes de que estavam em histeria coletiva; do Brigadeiro Protásio Lopes de Oliveira, comandante do 1° Comar na época da Operação Prato; e Luiz Hollanda, filho do Capitão Hollanda que se matou anos depois da operação, no Rio de Janeiro, quatro meses após fazer revelações do caso à revista UFO.
Outro episódio marcante na vida profissional de Carlos Mendes foi a contenda que ele presenciou e relatou entre o performático Inri Cristo e o ateu Fernando Arara, filho da escritora Lindanor Celina (que lecionava literatura portuguesa em Paris, onde vivia, mas passava as férias em sua casa na Trav. Frei Gil de Vila Nova, atrás do antigo Consulado Americano, na Praça da República, em Belém).
No dia em que Fernando Arara soube que o Inri Cristo estava em Belém sendo entrevistado no programa de Eloy Santos na TV Guajará, canal 4, da família Lopo de Castro, resolveu tomar satisfações. A emissora funcionava no penúltimo andar, o 25º, do Ed. Manoel Pinto da Silva, e o programa teve tanta repercussão que uma multidão ficou na porta fechando literalmente o trânsito na confluência da Av. Presidente Vargas com as avenidas Nazaré e Assis de Vasconcelos.
Inri se dizia o próprio filho de Deus, sustentava curar cegos, cancerosos e deficientes físicos e anunciara que iria “libertar” o povo da idolatria e do culto às imagens de santos.
Na manhã seguinte, a Praça Dom Pedro II, na Cidade Velha, em frente ao Palácio Lauro Sodré (antiga sede do governo e atual Museu do Estado do Pará), ao Palácio Cabanagem (sede da Assembleia Legislativa) e ao Palacete Azul (sede da Prefeitura de Belém e do Mabe) estava superlotada.
No centro da praça, no alto da estátua de Dom Pedro, Inri pregava para a multidão, batendo sem dó nem piedade na ostentação dos templos católicos e demonizando bispos e padres.
Não custou a caminhar com seus discípulos rumo à Catedral da Sé, bem pertinho, para “expulsar os vendilhões”. Aí foi contido por Fernando Arara, aos gritos, que o chamava de “impostor, farsante, estelionatário da fé, vigarista de merda, canalha, tu não és Cristo porra nenhuma. Tu és uma fraude”.
Inri Cristo retrucou: “Satanás, Belzebu. Meu pai me avisou que tu virias. Eu já te esperava, demônio. Tu estás a serviço dessa igreja cujo povo vou libertar. Vai embora, demônio”. E incitou a turba contra Fernando Arara, de modo que ele tratou de correr no rumo da Av. Portugal, aos gritos de “pega, pega”. Felizmente, conseguiu se safar.
Inri Cristo invadiu a Igreja da Sé com seus seguidores fanáticos, e sob as vistas do arcebispo Dom Alberto Ramos (xingado à farta) imagens de santos foram quebradas.
Inri Cristo ficou quinze dias recolhido no Presídio “São José”, na Praça Amazonas, onde hoje é o complexo cultural São José Liberto.
Tempos depois, Fernando Arara morreu tragicamente, esmagado por uma kombi desgovernada, da Sefa, na esquina da Trav. D. Pedro I com a Rua Jerônimo Pimentel, em frente ao Hospital Geral de Belém, no bairro do Umarizal.
Carlos Mendes era um jornalista com J maiúsculo, uma raridade hoje em dia. Cultivava fontes importantes, tinha ética e cuidado na apuração e veiculação das notícias. Tinha o respeito e a admiração dos colegas. Fará muita falta. Nós, amigos, confreiras e confrades, sentiremos saudades de sua verve e de sua boa companhia.
Carlos Mendes, presente!
Que esteja em paz e na luz e Deus conforte sua família.










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