Publicado em: 17 de maio de 2026
Foi notícia recente o avistamento de uma onça-pintada em torno da área nativa infelizmente destruída em decorrência da construção da Av. Liberdade, a que liga o bairro da Terra Firme à Alça Viária, em Belém.
E, diga-se de passagem, era uma espécie de “mata atlântica paraense” preservada próxima a UFRA, UFPA, Parque Tecnológico e do Campo de pesquisa do Museu Goeldi, área essa que em tempo relativamente recorde se deu a pavimentação da avenida que haveria de desafogar boa parte do trânsito da capital.
Nada contra, pelo contrário, precisamos de novas “liberdades”, novas “independências”, novas “centenários”, novas “marinhas”, para desafogar ametropolitana capital que, no movimento natural de crescimento horizontal, vai engolindo cidades próximas, no geográfico efeito metropolitano chamado de conurbação.
Precisamos sim de novas vias e de tecnologias de pavimentação que se adequem à realidade amazônica, em especial à pluviométrica Belém do Pará sob o cíclico inverno amazônico.
Precisamos de novas vias que respeite a riqueza amazônica, iguais aquelas que vemos no Canadá, na Noruega, nos Estados Unidos, e em tantos outros países que realmente inovaram e aplicam uma política de sustentabilidade em total respeito à fauna e à flora.
Quem conhece essa área sabe que não é qualquer pavimentação que vai se sustentar sobre o extenso mangue que margeia o caudaloso (e choroso) rio Guamá, que segundo a etimologia, significa “o rio que chora” justamente por seu lento deslizar e marulhar discreto quase imperceptível.
O inverno amazônico vai pôr (literalmente) à prova a qualidade da pavimentada e até agora elogiada Av.Liberdade, mesmo que muitos que já passam por lá a viram como uma avenida-fantasma.
No caso, o epíteto se refere ao isolamento quase que sepulcral da longa avenida que soterrou o pantanoso mangue e levou consigo a alma da milenar flora e fauna do lugar, cujo efeito se vê agora com a migração forçadadesses animais às proximidades, como é caso de inúmeros relatos na UFRA, tanto dos alunos, como servidores e vigilantes que veem jacarés, cobras, lagartos, macacos, todo tipo de aves e a temida onça-pintada.
Não foi só o portentoso felino que ficou à deriva em seu próprio lar, foram centenas, quiçá milhares de animais, de pequeno a médio porte, atordoados com a repentina invasão das máquinas e seus “r-r-r-r-r-r-r-r-r-r” insones como haveria de eternizar Fernando Pessoa em sua Ode Triunfal, ao colocar no circuito literário a máquina e a energia, as duas novas deusas Minervas da modernidade.
Foram comunidades centenárias atingidas em cheio, forçando núcleos familiares a se sentirem humilhados dentro do seu próprio território, enlameados pelo aterramento, isolados pela falta de projeto de integração com a “Cop-avenida”. Comunidades inteiras que deveriam ter apoio e respeito foram as primeiras a serem atingidas.
A onça-pintada, dentro da tradição da pajelança ou do etnoxamanismo, traz a certeza, é um animal que nos ensina a objetividade, a paciência, transforma o medo em ação, – é o senhor do mato – literalmente “jaguaretê”, caçadora, escaladora, nadadora, protetora (afinal ela também tem filhotes).
É a bela senhora que têm olhos verdes para a mata e amarelos para a areia – e um estrondoso esturro que alcança quilômetros, a delimitar um território visual e sonoro.
Seu avistamento revela o quanto que a nossa urbanização precisa comungar da mesma linguagem da natureza, afinal a natureza é a fonte, a energia que nos renova e nos habilita a viver no mesmo habitat.
Que exemplo é esse em plena Amazônia de uma obra que não respeita o tão decantado meio ambiente?
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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