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Essa semana me refugiei em duas obras da nossa literatura brasileira. A imitação da Rosa (1960) de Clarice Lispector (1920 – 1977), por provocação da Professora Calíope Janaína, conto que em breve analisarei, e uma breve e panorâmica leitura do clássico de Lima Barreto. Já havia lido em outras oportunidades quando ministro aula sobre Literatura Brasileira. Na coluna desta semana, trago uma análise da obra de Barreto. O que impacta  no olhar do autor sobre um Brasil que ainda persiste.
 

  A obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, publicada inicialmente em folhetins em 1911 e lançada em livro em 1915, indubitavelmente permanece como uma das mais profundas denúncias sociais e políticas da literatura brasileira. Escrita durante os primeiros anos da República, a narrativa de Lima Barreto (1881-1922) implode o discurso nacionalista otimista que dominava parte da elite intelectual do período. Enquanto muitos escritores celebravam o progresso republicano e a modernização do país, Lima Barreto expunha as contradições de um Brasil marcado pela desigualdade, pelo autoritarismo, pelo preconceito racial e pela exclusão social.


O contexto histórico da obra é fundamental para compreender sua dimensão crítica. A chamada Primeira República vivia um período de intensas transformações políticas e urbanas. O país buscava construir uma imagem de civilização inspirada nos modelos europeus, especialmente franceses. Entretanto, essa modernização atingia apenas setores privilegiados da sociedade. A população pobre, negra e suburbana permanecia marginalizada. É nesse cenário que Lima Barreto constrói sua literatura, recusando o ufanismo oficial e revelando as feridas sociais escondidas sob o discurso do progresso.


Frequentemente associado ao Pré-Modernismo, Lima Barreto ultrapassa os limites dessa classificação. Sua escrita aproxima-se de uma literatura de denúncia social, marcada pela ironia, pela crítica política e pela observação direta da realidade brasileira. Diferentemente do refinamento estético parnasiano ou do nacionalismo idealizado do Romantismo, Barreto escreve sobre o Brasil real: burocrático, desigual, racista e profundamente violento com aqueles que sonham transformar a sociedade.


O protagonista Policarpo Quaresma simboliza justamente o choque entre idealismo e realidade. Funcionário público metódico, patriota extremo e defensor apaixonado da cultura nacional, Quaresma acredita na possibilidade de regenerar o país. Seu nacionalismo, porém, entra em conflito constante com as estruturas corrompidas da República brasileira. Ao longo do romance, suas utopias são destruídas uma a uma.


Em um dos episódios mais conhecidos da narrativa, Policarpo propõe ao Congresso Nacional que o tupi-guarani seja oficializado como língua nacional. A proposta provoca riso, humilhação e perseguição. O episódio revela a ironia de Lima Barreto diante de uma elite que exaltava simbolicamente a pátria, mas desprezava suas raízes culturais mais profundas. O patriotismo republicano mostrava-se superficial e seletivo.


Lima Barreto escreve: “Quaresma vivia mergulhado nos livros nacionais.”


A frase parece simples, mas revela a dimensão quase litúrgica do nacionalismo do personagem. Policarpo acredita no Brasil com ingenuidade absoluta. Seu drama nasce justamente do confronto entre esse ideal e a brutalidade concreta da sociedade brasileira.


Se olharmos pela crítica literária de Antônio Candido (1918 – 2017), compreenderemos essa dimensão social da obra. Candido defendia que a literatura brasileira possui uma profunda relação com a formação histórica do país. Para ele, Lima Barreto foi um dos escritores que melhor compreenderam as contradições sociais da República. Em seus estudos, Candido destaca que a escrita de Barreto rompe com a visão idealizada da nação e aproxima a literatura das tensões reais da vida urbana e popular.


Antônio Candido percebe em Lima Barreto uma literatura da desilusão nacional. Policarpo Quaresma não fracassa apenas como indivíduo; fracassa como símbolo de um projeto de país impossível dentro de uma estrutura política corrupta e elitista. A tragédia do personagem representa o esmagamento do idealismo pela máquina social brasileira.


Outro aspecto importante da obra é a crítica à burocracia estatal. Os repartimentos públicos surgem como espaços de mediocridade, lentidão e alienação. Lima Barreto mostra um Estado incapaz de compreender o próprio povo. O serviço público aparece dominado pelo formalismo vazio e pelo clientelismo político. Essa crítica permanece profundamente atual no Brasil contemporâneo, onde frequentemente a máquina estatal distancia-se das necessidades reais da população.


Outro crítico literário que buscamos para entender o Brasil de Policarpo Quaresma é Afrânio Coutinho (1911-2000). Em sua leitura, Coutinho amplia essa compreensão ao destacar o caráter social do romance. Coutinho afirma que Lima Barreto introduziu na literatura brasileira uma visão crítica das estruturas de poder. Seu romance abandona o embelezamento artificial da realidade e mergulha nos conflitos urbanos, raciais e políticos do país. A linguagem mais direta do autor não representa pobreza estética, mas escolha ideológica. Lima Barreto desejava tornar a literatura um instrumento de reflexão social.


Essa opção estética aproxima o escritor das populações marginalizadas. Diferentemente de muitos intelectuais de sua época, Lima Barreto escrevia sobre os subúrbios, os pobres, os negros e os funcionários esquecidos da República. Sua literatura denuncia um Brasil profundamente desigual, no qual o discurso da civilização escondia práticas permanentes de exclusão.


A crítica ao militarismo constitui outro eixo central da narrativa. Na terceira parte do romance, Policarpo apoia o governo de Floriano Peixoto acreditando contribuir para a construção de um país mais justo. Entretanto, ele encontra um ambiente marcado pela violência e pelo autoritarismo. O patriotismo institucional transforma-se em repressão política.


Lima Barreto descreve: “A pátria que quisera ter era um mito.”


Essa percepção destrói definitivamente o personagem. O Brasil idealizado por Quaresma não existe. O país real é dominado pela corrupção, pelo oportunismo e pela violência estatal. O romance desmonta a crença ingênua de que o nacionalismo, sozinho, poderia resolver os problemas estruturais da sociedade brasileira.


Nesse ponto, a leitura de Alfredo Bosi torna-se essencial. Bosi compreende Lima Barreto como um escritor da resistência ética. Em sua análise, o autor carioca denunciou a exclusão social produzida pela modernização conservadora da República. Para Bosi, a literatura de Lima Barreto revela o sofrimento humano escondido pelos discursos oficiais de progresso.


A visão de Bosi permite compreender Policarpo Quaresma como uma figura trágica da modernidade brasileira. Seu fracasso não decorre de loucura individual. Policarpo provoca um choque entre sensibilidade ética e brutalidade institucional. O personagem acredita em valores humanos e nacionais que a própria sociedade brasileira destrói continuamente.


O romance também denuncia o abandono das populações rurais. Quando Quaresma decide dedicar-se à agricultura no sítio Sossego, imagina encontrar no campo a verdadeira essência nacional. Contudo, depara-se com miséria, exploração, ausência de políticas públicas e precariedade estrutural. Lima Barreto desmonta novamente o mito idealizado do Brasil.


A crítica agrária do romance continua atual. O país ainda convive com concentração fundiária, desigualdade social no campo e abandono de pequenos produtores. O Brasil denunciado por Lima Barreto permanece visível nas crises sociais contemporâneas, nas periferias urbanas e nas regiões historicamente esquecidas pelo poder público.


Outro elemento profundamente atual na obra é a crítica às elites intelectuais. Lima Barreto mostra uma classe dirigente distante da realidade popular e preocupada apenas com aparências civilizatórias. O culto exagerado à Europa aparece como símbolo da negação da identidade brasileira concreta.


A experiência pessoal do autor fortalece ainda mais a dimensão crítica do romance. Negro, pobre e morador do subúrbio carioca, Lima Barreto enfrentou racismo, exclusão social e dificuldades econômicas durante toda a vida. Sua literatura nasce da observação direta das desigualdades brasileiras. Por isso, sua escrita possui uma força humana intensa.
Antônio Candido afirma que Lima Barreto humanizou os marginalizados da literatura brasileira.  Essa humanização aproxima o leitor das dores concretas da sociedade brasileira.


O “triste fim” de Policarpo Quaresma representa, simbolicamente, o fracasso de um projeto nacional mais humano e democrático. O personagem termina perseguido e destruído por acreditar no país. Sua morte não é apenas individual; ela simboliza a morte das utopias diante de uma República excludente.


A leitura de Triste Fim de Policarpo Quaresma significa confrontar questões ainda abertas na sociedade brasileira. A obra permanece viva porque suas denúncias continuam ecoando nas estruturas sociais contemporâneas. Lima Barreto compreendeu que a literatura deve representar a realidade e desmascarar suas violências invisíveis. O Brasil denunciado por Lima Barreto ainda resiste nas desigualdades, nos preconceitos e nas promessas políticas não cumpridas. Sua literatura permanece como um espelho desconfortável da nação brasileira.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

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