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A Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) realizará entre os dias 15 e 22 de maio a edição de 2026 do Dia da Física, evento anual promovido pelo curso de Licenciatura em Física que, neste ano, terá como eixo o tema “Ensino de Física e formação de professores: teorias, histórias e memórias”. A programação ocorrerá de forma híbrida, em Santarém, reunindo pesquisadores, docentes, estudantes e egressos de instituições parauaras e nacionais, em uma agenda voltada à discussão da formação docente, da divulgação científica e da trajetória da Física na região Oeste do Pará.

A edição deste ano será marcada pela homenagem ao professor Licurgo Peixoto de Brito, referência histórica no ensino de Física, Matemática e formação de educadores no Pará. Durante o evento será inaugurado o Centro Acadêmico de Física “Prof. Dr. Licurgo Peixoto de Brito”, iniciativa proposta por estudantes da UFOPA como forma de preservar a memória do docente e reconhecer a influência que exerceu sobre diferentes gerações de professores e pesquisadores.

Em carta encaminhada à família do professor, estudantes do curso de Licenciatura em Física afirmam que, mesmo sem terem convivido diretamente com Licurgo, sua presença permaneceu viva por meio de antigos orientandos e professores formados por ele. O documento afirma que o educador deixou “uma referência fundacional e de grande respeito” e destaca que sua atuação ultrapassou os limites da sala de aula, alcançando a formação acadêmica dos atuais estudantes da instituição. 

A programação inclui palestras sobre cosmologia, teoria dos campos conceituais e história dos cursos de Física em Santarém, além de uma mesa-redonda com ex-alunos do professor, um memorial em homenagem à sua trajetória e a cerimônia de inauguração do centro acadêmico que levará seu nome. 

A dimensão da homenagem está diretamente ligada à trajetória construída por Licurgo Peixoto de Brito ao longo de décadas de atuação no ensino e na pesquisa. Licenciado em Ciências Naturais em 1979 e em Física em 1984 pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ele também concluiu doutorado em Geofísica e realizou dois pós-doutorados, um na Universidade Estadual do Norte Fluminense, em 1997, e outro na Universidade Federal de Santa Catarina, em 2011. Sua carreira transitou entre a educação básica, a universidade e a gestão acadêmica, passando por funções como Pró-Reitor de Ensino de Graduação da UFPA e atuação na Secretaria de Estado de Educação entre 2009 e 2014.

A professora Ana Rosa Peixoto de Brito, irmã de Licurgo, pedagoga, ex-presidente da Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope) e atual coordenadora do Fórum Estadual de Educação do Pará, descreve o professor como alguém cuja curiosidade científica se manifestava desde a infância. “Bom, o Licurgo, ele nasceu em 1º de junho de 57. Às vezes é bom a gente dar a data do nascimento, ele era o quinto filho da nossa família de oito irmãos. Então, o Licurgo, ele nasceu muito sagaz, perceptivo, curioso”, afirmou.

Segundo ela, o futuro professor cresceu em um ambiente marcado pelo magistério. Filho de professora e integrante de uma família em que cinco dos oito irmãos seguiram a docência, Licurgo iniciou muito cedo o contato com o ensino em uma pequena escola mantida pela mãe dentro de casa. A experiência cotidiana, relata Ana Rosa, influenciou diretamente sua forma de compreender e ensinar ciência.

Ela afirma que o professor desenvolveu uma metodologia distante do ensino tradicional e profundamente conectada à realidade social dos estudantes. “O ensino dele da matemática, ele era voltado muito mais para uma prática vivenciada. Na matemática, eu diria até que ele trabalhava na referência da etnomatemática, do trabalho a partir do cotidiano. E na física, não era bem diferente”.

A irmã relembra episódios em que Licurgo transformava acontecimentos cotidianos em experiências pedagógicas. Um deles surgiu a partir de uma fotografia feita por uma das irmãs, a fotógrafa Ana Catarina Peixoto de Brito, de farinha sendo lançada ao ar em uma casa de farinha. A cena foi utilizada pelo professor para explicar conceitos ligados ao choque térmico e aos processos físicos envolvidos na torrefação. “Então, a partir disso, ele até levou os alunos na casa de farinha”, conta.

Ana Rosa também atribui a Licurgo papel pioneiro na criação de clubes de ciência em escolas do Pará entre as décadas de 1970 e 1980. “Ele foi o criador, isso é muito importante que a gente coloque, dos clubes de ciências aqui no Pará. Ele foi o grande incentivador de um trabalho que começou na década de 70 para 80 e se espalhou por todas as escolas do Pará”, afirmou.

Ao longo da carreira, Licurgo atuou em escolas públicas, particulares, cursinhos e universidades. Participou da coordenação do Fórum Estadual de Educação do Pará, do Fórum de Formação do Educador pelo PARFOR e de projetos voltados ao uso de tecnologias da informação na formação docente em diferentes regiões do estado. Entre eles esteve o projeto “Uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) na Pesquisa – Formação de Professores no Estado do Pará pelo PARFOR”, financiado pela Fundação Carlos Chagas e desenvolvido em 16 subprojetos distribuídos pelo território parauara.

Sua atuação também se estendeu à pós-graduação e às políticas educacionais. Participou da mobilização para construção do Plano Nacional de Educação, do Plano Estadual de Educação do Pará e de planos municipais, além de representar a UFPA junto à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC).

Para Ana Rosa, a marca deixada pelo professor está ligada tanto ao rigor acadêmico quanto à dimensão humana de sua atuação. “Assim, o Licurgo se tornou não só o matemático, o físico, o químico, mas o educador”, afirmou. Ela lembra ainda que o docente era constantemente procurado por alunos interessados em discutir conhecimento, epistemologia e formação científica.

“O Licurgo foi um mestre, um professor. Eu aprendi com ele e não nego, por onde passo, que o Licurgo foi meu grande companheiro de trabalho, de vida e de ideologia. Nós somos fomos colegas professores, nós trabalhamos em vários espaços, nós dividimos lutas acadêmicas, nós dividimos pesquisa, dividimos publicações, dividimos projetos. Enfim, essa ligação com ele deixou nos alunos e na irmã e parceira de trabalho uma grande lacuna. Os ensinamentos dele ainda vão perdurar por muito tempo porque Licurgo faz falta.”

Licurgo Peixoto de Brito morreu em 21 de março de 2021, vítima da Covid-19. Cinco anos depois, ele vai ser homenageado pelos seus ex-alunos da pós-graduação e também pelos alunos dos ex-alunos, conectando pesquisadores veteranos e uma nova geração de estudantes que, mesmo sem terem convivido diretamente com o professor, reconhecem sua influência na formação científica e educacional da Amazônia parauara. Conhecido por seu jeito simples, divertido, íntegro e amoroso, a contribuição de Licurgo a este mundo certamente manter-se-á viva pelas próximas gerações. Ainda bem.

Confira aqui a programação do evento.

Foto em destaque: acervo da família Peixoto de Brito.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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