Publicado em: 5 de maio de 2026
A Igreja Católica, desde tempos imemoriais, sempre utilizou as procissões (cortejo solene que se desloca com um objetivo comum e destino predeterminado) para evangelizar.
Na liturgia do catolicismo existem miniprocissões dentro dos templos, antes, durante ou ao final das missas, como a cerimoniosa entrada do sacerdote, a das oferendas e a do momento da comunhão, o que evidencia sua relevância no processo de evangelização, simbolismo e a manutenção das tradições religiosas do povo católico.
A primeira procissão que ocorreu no Brasil foi a de Corpus Christi (celebração dos 60 dias após a Páscoa) e veio com os colonizadores portugueses, realizada pela Igreja com o decisivo apoio da monarquia, tendo até hoje duas marcantes peculiaridades: é o único préstito onde o Santíssimo Sacramento é exposto em via pública e também a única que se desloca sobre as ruas profusamente decoradas, criando um caminho simbólico e artístico, para lembrar o momento em que Jesus foi triunfalmente recebido em Jerusalém.
Os desenhos coloridos são artesanalmente feitos com serragem, sal, areia, borra de café, palha de arroz e tintas especiais, versando sobre temas bíblicos, cenas da vida de Cristo e objetos do culto eucarístico como cálices, pães e outros símbolos religiosos, fruto do trabalho coletivo, na quietude da madrugada, que reforça a união de famílias, vizinhos, bairros e comunidades, fortalecendo laços de amizades e a fé católica, haja vista que os belos tapetes e passarelas são efêmeros – duram apenas o tempo do cortejo sobre eles desfilar, simbolizando a brevidade da vida humana diante da eternidade de Deus.
Quem mora em Belém do Pará testemunha todo ano, aquela que é considerada a maior romaria católica do Brasil e uma das maiores do mundo – o Círio de Nazaré – invariavelmente no segundo domingo de outubro, congregando mais de dois milhões de romeiros, tradição iniciada nos idos de 1793, e com toda justiça reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial pelo IPHAN e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
Tão fabuloso é o evento, que além das principais – Círio e Transladação – acontecem “a latere” nada menos que catorze outras romarias oficiais, todas eivadas de grande significado, como o belíssimo Círio Fluvial tendo como palco as águas turvas da Baía de Guajará e a Moto-Romaria, esta pela principal rodovia de acesso à Capital, com a participação de milhares de motoqueiros.
A Procissão do Mastro é outro desfile portentoso que acontece no badalado distrito de Alter do Chão, considerado o “Caribe Brasileiro” em Santarém (PA). Após o ritual de levantamento, acontece a procissão do mastro, considerada a maior e mais antiga manifestação cultural do interior da Amazônia, prestigiada por autoridades, moradores, turistas e visitantes.
No auto, homens e mulheres transportaram nos ombros o pesado tronco de árvore abatida na floresta, ornamentado com galhos, flores e frutas que simbolizam a fartura, levando-o com esforço até o Barracão da Festa na Praça do Çairé, onde tem lugar o hasteamento das bandeiras do Brasil, do Pará, de Santarém, de Alter do Chão e também do próprio Çairé. É uma festa para ninguém botar defeito, tal o alto astral de seus entusiasmados participantes.
Uma das mais cativantes criações do cantor Gilberto Gil e Edvaldo Araújo brindou a música popular brasileira com a composição “Procissão”, cuja letra bem retrata o formado do cortejo em seu lento deslizar pelas ruas das grandes e pequenas cidades brasileiras:
“Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos, os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu…(…)”
E Jesus prometeu coisa melhor
Até aqui, tudo bem, considerando que não há nada muito antigo que não tenhamos herdado dos costumes e das tradições lusitanas. Mas qual o significado de alguém comentar, sempre em tom jocoso, de que “já viu essa mesma procissão por outra rua”?
Exatamente o que todo mundo sabe ou sempre soube. De ser essa uma expressão que se popularizou para demonstrar que uma situação ou problema continua exatamente do mesmo tamanho que sempre teve, que apenas mereceu mudança cosmética na sua exteriorização, sem nada ou quase nada alterar na essência ou no resultado final.
Ou seja, o mesmo drama ou episódio continua, vestido de nova roupagem que lhe disfarça o caráter repetitivo e inoperante. Em suma, é uma forma de dizer que as aparências mudaram, mas ao fim e ao cabo permanece inalterada. É como também se fala: “já vi esse filme antes…”
Ano eleitoral é uma época propícia para promessas de políticos em campanha, como o fim da corrupção, saúde pública de primeiro mundo, redução de impostos, aumento da segurança pública, ensino de qualidade nas escolas, isso para ficar apenas em algumas, que os eleitores, abertamente ressabiados por tanto cinismo e enganação, se limitam a redarguir que, ganhando esse ou aquele candidato, terão de novo a velha procissão andando por outra rua…
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista







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