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Todos sabemos que em dias chuvosos, vem a vontade de ficar em casa, na cama, assistindo à séries, lendo livros e pensando. Por pensar em assuntos não tão graves, afinal, eles abundam em nossa vida diária, pensei na razão pela qual os animais com espinha dorsal, quase todos, têm cauda e nós, humanos, não. O que chamamos popularmente de “rabo”. A palavra serve para designar muitas coisas e lembro agora do verso de Aldir Blanc, em “O Bêbado e a Equilibrista”, que fala dos que partiram, na ditadura, num “rabo de foguete”.
No Google, encontrei uma mistura de mistério e ciência, afinal os nossos parentes mais próximos, os primatas sempre tiveram belos rabos. Os historiadores garantem que o abandono do rabo pelos humanos se deu há 25 milhões de anos, quando nos firmamos em dois pés. A Ciência acabou por descobrir geneticamente uma espécie de código genético chamado TBXT, associado ao comprimento da cauda. Em algum momento de nosso passado distante, o elemento Alu AluY saltou para o gene TBXT no ancestral dos hominoides. Isso foi publicado na revista Nature após quatro anos de pesquisas em camundongos. Uma inserção de DNA (elemento Alu) no gene.
Mas afinal, para quê serve o rabo? Basicamente para o equilíbrio, para propiciar movimentos mais bruscos e em peixes, crocodilos, vacas, servindo como leme, espantar moscas e demonstração de medo ou alegria. Os cientistas dizem que todo embrião humano desenvolve um rabo temporário entre a quinta e a sexta semana de gestação, que é reabsorvido pelo corpo lá pela oitava semana, restando apenas ocóccix. E que em raros casos, existe uma cauda vestigial. Ah, essa vocês não sabiam. O cóccix é o nosso rabo remanescente! Talvez seja isso que impulsiona o gingado tão malicioso de algumas sambistas, por exemplo, o qual não consegue ser imitado por algumas candidatas a Rainha de Bateria, impostas por serem influencers. Sim, muitas vezes, ao vermos mulheres calipígeas passando, podemos não afirmar, para não sermos indelicados, mas pensar “Que rabo bonito”. Pior aqueles que têm “rabo preso”. Ou quando o goleiro, em última instância consegue tocar na bola que seria gol certo, “pegou pelo rabo”. Ou imitando a arraia ou jacaré, “rabo de arraia”. Ou comendo uma “bela rabada”. Ou “vá para o rabo da fila”. Associamos sempre ao tamanho das bundas, digamos, abundantes em mídias sociais, a lembrar nossa ancestralidade africana, de onde veio a palavra, do idioma kimbundo. Ou comentário desairosos que dizem “vai atrás de qualquer rabo de saia”.
E se tivéssemos, todos um rabo? Creio que a moda se ocuparia disso. Ou os cirurgiões resolveriam os assuntos, cortando o nosso rabo? E aí me lembrei de outra gíria que é “cortar o rabo de fulano”. Espero que entendam. Um desfile de modas e o último grito para rabos. E o corte dos pelos do rabo, ensejariam ótimas idéias aos cabeleireiros, não? Os rabos mais felpudos, imaginem! E ao encontrar os amigos queridos, os rabos balançando em uma multidão. E aos poucos a nascer sem rabos, ou por infelicidade, tê-lo amputado, uma réplica, cheia de estilo, para irritar os demais rabos.
Parece que agora a chuva deu uma estiada e vou sair correndo para não pegar o rabo da fila. E que rabo!



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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