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Quem governa o mundo quando não há soberano? A pergunta parece simples, mas carrega a expectativa de que exista um sujeito identificável, um soberano oculto ou uma consciência central que detenha as rédeas da história. Essa expectativa revela o limite da própria formulação. O mundo contemporâneo funciona menos como um trono ocupado e mais como um campo estruturado por forças que operam com a persistência da gravidade, sendo elas impessoais, expansivas e sistêmicas. O século XXI deslocou o eixo da centralidade do Estado moderno hobbesiano para uma triangulação complexa entre a financeirização global, a infraestrutura digital e a incontornável urgência biofísica do planeta.

Essa mutação da governança encontra sua gênese na hegemonia do capital rentista. Como analisa Ladislau Dowbor (2017), a economia global passou a priorizar a circulação financeira e a extração de renda em lugar da produção tangível. Quando os retornos do capital superam o crescimento da economia real, tendência estrutural apontada por Thomas Piketty (2014), a lógica da acumulação desvincula-se da geração de riqueza coletiva. Nesse arranjo, gigantes como BlackRock e Vanguard não governam por decreto, mas delimitam o horizonte do possível. Elas estabelecem parâmetros de risco e prioridades fiscais que agem como camisas de força sobre a soberania dos Estados. O mercado financeiro não é um jogador no tabuleiro, é o próprio clima, invisível e onipresente, dentro do qual o jogo político ocorre.

Simultaneamente, o poder migrou para a esfera da mediação digital, onde Google, Meta, Amazon e Apple converteram a utilidade em infraestrutura. O que Yanis Varoufakis (2024) descreve como tecnofeudalismo é a transformação de plataformas em territórios privados, nos quais a indispensabilidade funcional gera uma adesão contínua e compulsória. O poder emana do controle do algoritmo e da extração de dados, deslocando a soberania da lei para o código.
Entretanto, essa fluidez algorítmica esbarra na rigidez da matéria. A disputa contemporânea pelos semicondutores revela isso de forma exemplar. Chips avançados são hoje a base material da inteligência artificial, dos sistemas militares e das finanças digitais. A dependência global da produção concentrada na TSMC, em Taiwan, tornou-se um dos pontos mais sensíveis da geopolítica atual (MILLER, 2023). Quando os Estados Unidos restringem a exportação de tecnologia para a China, estão delimitando o acesso ao futuro tecnológico. O capital globalizado reencontra o limite da soberania territorial, pois a nuvem repousa sobre fábricas concretas e sobre ilhas estrategicamente vulneráveis.

Essa mesma lógica de interdependência estrutural aparece na Amazônia. A floresta é um ativo geopolítico e climático de escala planetária. O avanço do desmatamento para a expansão de commodities conecta decisões locais a cadeias globais de financiamento. Ao mesmo tempo, a valorização de créditos de carbono tenta converter a preservação em ativo negociável. A floresta funciona como mercadoria e reguladora climática. Pela primeira vez, a expansão da lógica do capital colide com a finitude termodinâmica da biosfera. A mão invisível do mercado tenciona contra limites físicos que não respondem a incentivos financeiros.

Diante dessa gravidade sistêmica, emergem tentativas de ressoberanização. A União Europeia adota um modelo normativo ao tentar converter o algoritmo em lei através de marcos como o GDPR e o AI Act, forçando a infraestrutura digital a respeitar direitos cidadãos. A China utiliza um modelo de soberania integral, fundindo o Estado com a plataforma para impedir que o capital rentista ou o poder das empresas estrangeiras desafiem o planejamento nacional. Para o Sul Global, o risco permanece o de um novo extrativismo baseado na exportação de dados brutos em troca da importação de inteligência processada, o que aprofunda a dependência tecnológica.

O drama do nosso tempo emerge da assimetria radical de escalas. Enquanto o capital e a tecnologia operam em velocidades planetárias e instantâneas, a coordenação democrática permanece fragmentada e territorial. O cenário resultante é uma convergência dinâmica entre o rentismo financeiro, o poder geopolítico e a infraestrutura digital, todos pressionados pela urgência ambiental. A pergunta decisiva deixa de ser sobre a identidade de um suposto dono e passa a ser sobre a agência coletiva. O desafio do século XXI consiste em transformar a infraestrutura, da fibra ótica à floresta e do chip ao crédito, em um bem comum governável. Reaprender a política exige retomar as rédeas da técnica e da matéria que hoje nos governam em silêncio.

Referências

DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo: por que 1% detém o que cabe a 95%, e como virar o jogo. São Paulo: Outras Palavras: Autonomia Literária, 2017.
MILLER, Chris. A guerra dos chips: a batalha pela tecnologia que move o mundo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023.
PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Tradução de Monica Baumgarten de Bolle. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
VAROUFAKIS, Yanis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. São Paulo: Autêntica, 2024.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Redação

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