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A crescente pressão sobre a fauna amazônica provocada pela expansão urbana e pelo tráfico de animais silvestres tem ampliado a demanda por estruturas especializadas capazes de resgatar, tratar e, quando possível, devolver espécies à natureza. Em Santarém, o jardim zoológico da Universidade da Amazônia (UNAMA), conhecido como ZooUNAMA, é um espaço dedicado a esse trabalho técnico de acolhimento e reabilitação de animais da região do Tapajós.

A instituição atua principalmente com indivíduos resgatados de situações de maus-tratos, acidentes ou apreensões relacionadas à biopirataria. Para muitos desses animais, o atendimento especializado representa a única possibilidade de sobrevivência ou recuperação física. Em alguns casos, a reabilitação permite o retorno ao habitat natural; em outros, as sequelas ou o histórico de domesticação tornam inviável a vida em liberdade.

O biólogo Esrom Paixão, integrante da equipe técnica do zoológico, explica que o papel das instituições zoológicas contemporâneas precisa ser compreendido além da exibição de animais. Segundo ele, a atuação de equipes multidisciplinares, compostas por biólogos, veterinários e tratadores, permite transformar conhecimento científico em ações práticas de proteção da biodiversidade amazônica.

O processo de acolhimento começa no momento em que um animal chega ao espaço, normalmente após resgates realizados por órgãos ambientais ou apreensões decorrentes de tráfico ilegal. A primeira etapa consiste em uma avaliação detalhada para identificar lesões, sinais de domesticação ou problemas nutricionais.

“O animal permanece na área de quarentena com alimentação e reabilitação por meio de atividades estimulantes. Após a recuperação, novas avaliações determinam a soltura, nos casos de 100% de recuperação, ou a permanência, quando há alto grau de domesticação ou sequelas permanentes”, detalha o biólogo.

Quando as condições físicas ou comportamentais permitem, a soltura em ambiente natural é considerada a melhor solução. No entanto, muitos animais chegam ao zoológico com danos irreversíveis decorrentes de confinamento inadequado, alimentação incorreta ou manipulação humana prolongada.

Um exemplo citado pela equipe é o caso da onça-pintada Juma. Segundo Esrom Paixão, o animal foi criado desde filhote em um espaço reduzido e sem os nutrientes necessários para seu desenvolvimento adequado. “Trata-se de um animal criado desde filhote em um espaço reduzido e que não obteve os nutrientes essenciais, resultando em uma má formação óssea e atrofiamento. Com essas sequelas, Juma não tem capacidade de caçar”, explica.

Em situações como essa, o retorno à natureza se torna inviável, pois o animal não possui condições físicas para sobreviver de forma independente. Nesses casos, a permanência sob cuidados humanos passa a ser a alternativa necessária para garantir bem-estar e longevidade.

Além da função de acolhimento, o zoológico também desempenha papel relevante na produção de conhecimento científico. O espaço funciona como ambiente de pesquisa e aprendizado para estudantes de graduação e pós-graduação da universidade. Esse intercâmbio acadêmico contribui para ampliar o entendimento sobre comportamento, fisiologia e necessidades específicas de espécies amazônicas.

De acordo com a equipe, os estudos desenvolvidos no local auxiliam tanto na melhoria dos protocolos de manejo quanto na formulação de estratégias de conservação voltadas a animais que ainda vivem em liberdade.

O cuidado com espécies de médio e grande porte exige planejamento constante, desde o acompanhamento clínico até a organização dos recintos. No ZooUNAMA, a estrutura busca reproduzir elementos do ambiente natural com o objetivo de reduzir o estresse causado pela retirada do habitat original.

“Tudo é planejado com ambientação de vegetação natural, solo sem concreto e áreas de refúgio, oferecendo ao animal a opção de se isolar quando achar necessário”, afirma Esrom Paixão. A proposta é criar espaços que permitam comportamentos naturais e minimizem a sensação de confinamento.

Entre os principais fatores que levam animais silvestres a centros de reabilitação está o tráfico de fauna, também chamado de biopirataria. A atividade ilegal continua sendo uma das maiores ameaças à biodiversidade amazônica. A dimensão territorial da região e as dificuldades de fiscalização contribuem para a continuidade desse tipo de crime ambiental.

Segundo o biólogo, aves figuram entre os animais mais procurados no mercado ilegal, especialmente espécies como papagaios e curiós. Há também aumento recente no interesse por serpentes, como a jiboia-arco-íris e a cobra-papagaio. “O fascínio por algo intimidador e a beleza das cores vibrantes têm aumentado esse interesse”, observa.

Outro fator apontado é a persistência de práticas culturais de convivência doméstica com animais silvestres. Em diversas comunidades, a criação informal dessas espécies ainda é vista como algo comum, o que contribui para alimentar o comércio ilegal.

Diante desse cenário, o zoológico também atua como espaço de educação ambiental. Visitas guiadas e atividades pedagógicas são direcionadas principalmente a estudantes de escolas da região. A proposta é apresentar informações científicas sobre os animais e demonstrar, na prática, os impactos provocados pelo tráfico e pela destruição de habitats naturais.

O contato direto com espécies da fauna amazônica, acompanhado por explicações técnicas, permite que crianças e visitantes compreendam a importância ecológica de cada animal e desenvolvam empatia pela vida silvestre.

O crescimento das cidades sobre áreas de floresta tem intensificado encontros entre seres humanos e animais em ambientes urbanos. Esse fenômeno tornou mais frequentes os registros de serpentes, aves ou mamíferos silvestres em bairros residenciais, rodovias e redes elétricas.

Nessas situações, a orientação da equipe técnica é que a população não tente capturar ou manipular os animais por conta própria. A recomendação é acionar imediatamente os órgãos responsáveis pelo resgate, como Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMA), Polícia Ambiental, Corpo de Bombeiros ou Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

“Jamais tente capturar o animal por conta própria para evitar acidentes”, alerta o biólogo.

Para os profissionais envolvidos na proteção da fauna amazônica, o trabalho de resgate e reabilitação não pode ser dissociado da conscientização pública. A sobrevivência das espécies depende tanto da atuação técnica quanto da mudança de comportamento da sociedade.

Ao refletir sobre esse desafio, Esrom Paixão reforça a necessidade de uma relação mais responsável com o meio ambiente. “Valorizar e respeitar a natureza garantirá a existência do ser humano nos próximos anos”, conclui.

Fotos: Avner Clemente/UNAMA Santarém

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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