Publicado em: 9 de março de 2026
O atual conflito no Oriente Médio em que Estados Unidos e Israel buscam eliminar os líderes do Estado teocrático iraniano e destruir sua infraestrutura de mísseis, drones e o controverso programa nuclear desse país persa, vem sendo apontado por analistas como uma “Guerra de Escolha” por parte do Estado norte-americano, ou seja, haveria para este último outras alternativas, como dar continuidade às negociações que estavam ocorrendo para se evitar uma nova conflagração armada em menos de 1 ano contra o Irã, com todas as perdas humanas que uma guerra gera, notadamente para a população civil1. E suas imprevisíveis consequências econômicas, ambientais e geopolíticas.
Uma certeza está no fato da diplomacia e do direito internacional terem sido novamente ignorados e violados antes desse conflito armado, como ocorreu em relação a outra guerra ainda em curso, a da Rússia contra a Ucrânia. É como se voltasse a prevalecer no sistema internacional o roteiro tenebroso do uso da força armada contra outro Estado soberano, seu território e seu povo, sem a busca prévia de meios civilizatórios de solução de desavenças entre Estados.
Para se evitar que os horrores e a devastação causados pela Segunda Grande Guerra Mundial fossem infligidos a futuras gerações, pactuou-se após o término da “Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional”, em 1945, que se deveria, a partir dali, evitar o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer outro Estado soberano. E esse uso, não sendo em legítima defesa contra injusta agressão armada, passou a ser considerado um ato ilegal pelo Direito Internacional, por violar o Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, outra instituição que foi subjugada pelas novas guerras do século XXI. Mas o mundo do pós-Guerra Fria já é outro, bem mais complexo e onde as grandes potências buscam por novas áreas de influência e poder.
Não há dúvidas sobre a dureza e crueldade do regime teocrático iraniano. No último grande protesto no país, em dezembro de 2025, aproximadamente 43 mil pessoas que estavam descontentes com a inflação elevada, com a crise econômica prolongada e com a falta de democracia foram massacradas em meio às manifestações políticas, pelas forças de segurança iranianas. A repressão brutal ficou marcada por pilhas de corpos amontoados, tiros contra a população civil e milhares de prisões de manifestantes.
Ao perceber essa fragilidade política do regime do Irã, o governo de Israel entendeu que esse era o momento propício, segundo seus cálculos estratégicos, para atacar com vigor seu principal adversário no Oriente Médio, após ter desferido duríssimos golpes no Hamas, o Hezbollah e nos Houthis, praticamente remodelado o jogo de forças no Oriente Médio.
Netanyahu precisava, contudo, convencer Trump que havia chegado a hora de atacar novamente o Irã, passando a utilizar, com enorme destreza, de sua usual tática de massagear o ego do presidente norte-americano, convencendo-o, ao final, de que só ele conseguiria levar a paz para o Oriente Médio, mesmo sendo através da guerra.
Para tanto, seria necessário atacar novamente a infraestrutura militar do Irã, incluindo suas instalações nucleares. Após topar fazer parte da operação por ele batizada de “Fúria Épica”, Trump precisava ainda se justificar diante da população norte-americana, pois havia se comprometido a terminar as guerras, e nunca mais iniciá-las, por conta das péssimas experiências e repercussões anteriores nas guerras do Afeganistão e do Iraque. A partir então da decisão de atacar o Irã em conjunto com Israel, o governo norte-americano começou a atuar em outro front, o das narrativas.
No vídeo divulgado por Trump no dia do ataque conjunto ao Irã ele afirmou que o objetivo era “defender o povo norte-americano, eliminando as ameaças iminentes do regime iraniano”, ou seja, além de criar por conta própria a suposta ameaça, ele suscitou uma questão de segurança nacional para justificar seu ato belicista, como tem feito em relação à questão migratória e ao tráfico de drogas, uma estratégia deliberada para não ter de submeter suas políticas ao crivo do congresso daquele país.
O que não tem impedido, contudo, os integrantes do partido democrata de alertar que as operações militares no território iraniano só poderiam ter sido realizadas após a autorização do congresso dos EUA, o que não ocorreu. Eles alegam, ainda, que são confusas as justificativas do governo para a guerra. E o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, acabou por reconhecer que os EUA entraram no conflito a reboque de Israel, mas foi desautorizado por Trump em sua fala e precisou voltar atrás.
Os jogos ocultos de Trump, no entanto, não disfarçam seu profundo interesse na geopolítica energética e nos ganhos que podem advir do estratégico mercado do petróleo, que ele manifestamente idolatra. Essa motivação econômica talvez justifique a “bondade” do presidente norte-americano ao tentar pôr fim ao opressivo regime teocrático e de “salvar” a população do Irã, que, além de grande produtor, exerce função relevante no mercado global do petróleo, inclusive sobre rotas por onde ele é escoado.
Na guerra, contudo, não há seres celestiais salvíficos, muito ao contrário. E do ponto de vista humanitário e da população civil, a que mais sofre todas as agruras de uma guerra, a catástrofe está na porta, nas ruas e nas cidades atingidas. A agência da ONU para os refugiados (ACNUR) declarou nesta semana a escalada da crise no Oriente Médio como uma grande emergência humanitária, o que tem provocado grandes deslocamentos de populações do Oriente Médio, como no caso dos milhares de libaneses, depois que seu país foi arrastado para a guerra. E o novo conflito no Oriente Médio, infelizmente, está só no início.
1 No início do conflito mais de uma centena de crianças morreram no bombardeio realizado contra uma escola infantil iraniana.









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