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O atual conflito no Oriente Médio em que Estados Unidos e Israel buscam eliminar os líderes do Estado teocrático iraniano e destruir sua infraestrutura de mísseis, drones e o controverso programa nuclear desse país persa, vem sendo apontado por analistas como uma “Guerra de Escolha” por parte do Estado norte-americano, ou seja, haveria para este último outras alternativas, como dar continuidade às negociações que estavam ocorrendo para se evitar uma nova conflagração armada em menos de 1 ano contra o Irã, com todas as perdas humanas que uma guerra gera, notadamente para a população civil1. E suas imprevisíveis consequências econômicas, ambientais e geopolíticas. 

Uma certeza está no fato da diplomacia e do direito internacional terem sido novamente ignorados e violados antes desse conflito armado, como ocorreu em relação a outra guerra ainda em curso, a da Rússia contra a Ucrânia. É como se voltasse a prevalecer no sistema internacional o roteiro tenebroso do uso da força armada contra outro Estado soberano, seu território e seu povo, sem a busca prévia de meios civilizatórios de solução de desavenças entre Estados.

Para se evitar que os horrores e a devastação causados pela Segunda Grande Guerra Mundial fossem infligidos a futuras gerações, pactuou-se após o término da “Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional”, em 1945, que se deveria, a partir dali, evitar o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer outro Estado soberano. E esse uso, não sendo em legítima defesa contra injusta agressão armada, passou a ser considerado um ato ilegal pelo Direito Internacional, por violar o Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, outra instituição que foi subjugada pelas novas guerras do século XXI. Mas o mundo do pós-Guerra Fria já é outro, bem mais complexo e onde as grandes potências buscam por novas áreas de influência e poder.

 Não há dúvidas sobre a dureza e crueldade do regime teocrático iraniano. No último grande protesto no país, em dezembro de 2025, aproximadamente 43 mil pessoas que estavam descontentes com a inflação elevada, com a crise econômica prolongada e com a falta de democracia foram massacradas em meio às manifestações políticas, pelas forças de segurança iranianas. A repressão brutal ficou marcada por pilhas de corpos amontoados, tiros contra a população civil e milhares de prisões de manifestantes. 

Ao perceber essa fragilidade política do regime do Irã, o governo de Israel entendeu que esse era o momento propício, segundo seus cálculos estratégicos, para atacar com vigor seu principal adversário no Oriente Médio, após ter desferido duríssimos golpes no Hamas, o Hezbollah e nos Houthis, praticamente remodelado o jogo de forças no Oriente Médio.

Netanyahu precisava, contudo, convencer Trump que havia chegado a hora de atacar novamente o Irã, passando a utilizar, com enorme destreza, de sua usual tática de massagear o ego do presidente norte-americano, convencendo-o, ao final, de que só ele conseguiria levar a paz para o Oriente Médio, mesmo sendo através da guerra. 

Para tanto, seria necessário atacar novamente a infraestrutura militar do Irã, incluindo suas instalações nucleares. Após topar fazer parte da operação por ele batizada de “Fúria Épica”, Trump precisava ainda se justificar diante da população norte-americana, pois havia se comprometido a terminar as guerras, e nunca mais iniciá-las, por conta das péssimas experiências e repercussões anteriores nas guerras do Afeganistão e do Iraque. A partir então da decisão de atacar o Irã em conjunto com Israel, o governo norte-americano começou a atuar em outro front, o das narrativas.

No vídeo divulgado por Trump no dia do ataque conjunto ao Irã ele afirmou que o objetivo era “defender o povo norte-americano, eliminando as ameaças iminentes do regime iraniano”, ou seja, além de criar por conta própria a suposta ameaça, ele suscitou uma questão de segurança nacional para justificar seu ato belicista, como tem feito em relação à questão migratória e ao tráfico de drogas, uma estratégia deliberada para não ter de submeter suas políticas ao crivo do congresso daquele país. 

O que não tem impedido, contudo, os integrantes do partido democrata de alertar que as operações militares no território iraniano só poderiam ter sido realizadas após a autorização do congresso dos EUA, o que não ocorreu. Eles alegam, ainda, que são confusas as justificativas do governo para a guerra. E o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, acabou por reconhecer que os EUA entraram no conflito a reboque de Israel, mas foi desautorizado por Trump em sua fala e precisou voltar atrás.  

Os jogos ocultos de Trump, no entanto, não disfarçam seu profundo interesse na geopolítica energética e nos ganhos que podem advir do estratégico mercado do petróleo, que ele manifestamente idolatra. Essa motivação econômica talvez justifique a “bondade” do presidente norte-americano ao tentar pôr fim ao opressivo regime teocrático e de “salvar” a população do Irã, que, além de grande produtor, exerce função relevante no mercado global do petróleo, inclusive sobre rotas por onde ele é escoado. 

Na guerra, contudo, não há seres celestiais salvíficos, muito ao contrário. E do ponto de vista humanitário e da população civil, a que mais sofre todas as agruras de uma guerra, a catástrofe está na porta, nas ruas e nas cidades atingidas.  A agência da ONU para os refugiados (ACNUR) declarou nesta semana a escalada da crise no Oriente Médio como uma grande emergência humanitária, o que tem provocado grandes deslocamentos de populações do Oriente Médio, como no caso dos milhares de libaneses, depois que seu país foi arrastado para a guerra. E o novo conflito no Oriente Médio, infelizmente, está só no início.

No início do conflito mais de uma centena de crianças morreram no bombardeio realizado contra uma escola infantil iraniana.

João Cauby
João Cauby de Almeida Júnior é graduado em Administração e Direito pela Universidade Federal do Pará, especialista em Direito Administrativo e em Direito Tributário, mestre em Ciência Política e doutor em Relações Internacionais pela UnB. Atua como advogado, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Meio Ambiente - ICEN/UFPA e integrante do Grupo de Pesquisa OBED/NAEA/UFPA.

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