Publicado em: 26 de fevereiro de 2026
Fecho os olhos e, como quem atravessa um portal do tempo, caminho entre colunas de mármore e rolos de papiro na majestosa Biblioteca de Alexandria. O maior centro de conhecimento do mundo antigo pulsa diante de mim como um coração feito de palavras.
Tudo começou com Alexandre, o Grande.
Quando ele tinha por volta de treze anos, seu pai, Filipe II da Macedônia, escolheu para educá-lo ninguém menos que Aristóteles, um dos maiores pensadores da Antiguidade e discípulo de Platão. Seu mestre não lhe ensinou apenas filosofia, mas ética, política, retórica, ciência e literatura; fortalecendo não apenas um guerreiro, mas um estrategista intelectual.
Em 336 a.C., aos vinte anos, Alexandre assumiu o trono após o assassinato de seu pai. Em pouco tempo, criou um império que se estendia da Grécia à Índia. Em suas campanhas militares levava cientistas, historiadores e filósofos para registrar culturas, catalogar saberes, compreender o mundo. Sua ambição ia além da conquista territorial: desejava a fusão entre povos, a disseminação da língua e dos costumes gregos pelo Oriente, esse processo é chamado de helenização.
O grego se tornou a língua internacional do comércio e da cultura.
Entre as cidades que fundou, a mais importante é Alexandria, localizada no Egito, onde foi implantada a famosa Biblioteca.
E você me pergunta: quando Alexandre a construiu?
Pois é; ele não a ergueu, mas criou o espaço perfeito para que, anos depois, seus sucessores transformassem Alexandria em um centro do saber.
Após sua morte, em 323 a.C., seu império foi dividido. O Egito ficou sob o comando de Ptolomeu I Sóter, fundador da dinastia ptolomaica, que entre 300 e 280 a.C. instituiu a grandiosa Biblioteca. O objetivo era reunir todo o conhecimento do mundo.
Navios que aportavam tinham seus manuscritos recolhidos para cópia. Obras eram adquiridas em diversas regiões do Mediterrâneo. Textos eram traduzidos para o grego. Estima-se que o acervo tenha alcançado centenas de milhares de rolos de papiro.
A Biblioteca de Alexandria era mais que um depósito de livros: era um centro ativo de pesquisa, ensino e produção intelectual. Por seus corredores passaram nomes como Euclides, Eratóstenes e Arquimedes.
Entretanto, por volta de 145 a.C., com as crises internas da dinastia ptolomaica, o apoio político e financeiro começou a enfraquecer. Durante o governo da rainha Cleópatra, no século I a.C., o Egito já dependia economicamente de Roma. Conflitos sucessivos contribuíram para a lenta deterioração da instituição.
Um acontecimento ocorreu em 48 a.C., durante a campanha militar de Júlio César em Alexandria, quando o incêndio de navios no porto teria atingido parte do acervo.
Com a morte de Cleópatra, em 30 a.C., encerrou-se o Egito ptolomaico.
A Biblioteca, que pode ter funcionado por cerca de seis séculos, desapareceu aos poucos, tornando-se símbolo da fragilidade do conhecimento quando não é protegido.
Depois dessa visita pela antiguidade, abro os olhos bem devagar e, com um pulsante arrepio, vejo diante de mim — inclinado como se estivesse emergindo do mar — um moderno edifício em homenagem àquele sonho perdido: a Bibliotheca Alexandrina, às margens do Mediterrâneo.
Seu formato lembra um papiro aberto ao mundo. Dentro, milhões de livros, laboratórios, museus, salas de conferência e centros de pesquisa ecoam o ideal antigo.
Caminho pelos corredores com sede de apreender tudo que estiver ao meu alcance, nesse curto período de total contemplação.
Obras catalogadas de escritores consagrados são traduzidas para diversos idiomas compondo as estantes de ponta a ponta das salas.
Antigas máquinas de impressão contrastam com computadores de última geração.
Salas repletas de alunos compartilhando conhecimento sob os olhares de turistas curiosos, como eu.
Em minhas mãos, um exemplar sobre a fascinante história do faraó Tutancâmon. Difícil foi ler, mesmo sendo descendente de libaneses.
É hora de partir.
Saio com o coração pleno, consciente de que bibliotecas não são apenas prédios. São pontes entre tempos. São resistência. São memória viva.










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