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Quando números viram poder: o papel das pesquisas eleitorais na formação das narrativas políticas no Pará

“Em terra de cego, quem tem olho é rei.”

A frase popular traduz com precisão o papel das pesquisas de opinião nos processos eleitorais contemporâneos. Em contextos marcados por assimetria de informação, quem domina dados, métodos e interpretação estratégica passa a deter vantagem real na disputa pelo poder.

No Pará — como em todo o Brasil — a construção das estratégias eleitorais passa, obrigatoriamente, pelas pesquisas de opinião. Elas orientam decisões sobre posicionamento político, comunicação, alianças, investimentos financeiros e definição de prioridades territoriais. Não se trata apenas de medir intenção de voto, mas de compreender comportamentos coletivos, percepções sociais, rejeições latentes e expectativas difusas do eleitorado.

Entretanto, o mercado de pesquisas eleitorais é profundamente heterogêneo. Coexistem: grandes institutos nacionais; empresas regionais estruturadas; e os chamados institutos de ocasião, que surgem em períodos eleitorais e desaparecem logo após o pleito.

Essa fragmentação compromete a credibilidade do setor e produz ruído informacional justamente quando a sociedade mais precisa de clareza.

No plano internacional, o setor de pesquisa de opinião movimenta bilhões de dólares por ano, com empresas transnacionais altamente especializadas em modelagem preditiva, ciência comportamental e engenharia de dados. O advento da internet acelerou esse processo, exigindo adaptação tecnológica contínua. Institutos que permanecem presos a métodos analógicos enfrentam, inevitavelmente, aquilo que Darwin já havia antecipado: não sobrevive o mais forte, mas o que melhor se adapta às mudanças do ambiente.

No Brasil, a atividade é regulada principalmente pela Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições), cujas resoluções são atualizadas a cada ciclo eleitoral. Embora necessárias, essas normas ainda não constituem um modelo plenamente maduro de controle técnico. Elas se concentram mais em aspectos formais de registro e divulgação do que em critérios científicos aprofundados de qualidade amostral, desenho metodológico e validação estatística — o que exige atenção permanente dos profissionais da área.

Nesse cenário, a Justiça Eleitoral — em especial o Tribunal Superior Eleitoral — atua como instância fiscalizadora da publicidade das pesquisas, enquanto o Conselho Federal de Estatística (CONFE) responde pela dimensão técnica e profissional da atividade estatística. São papéis distintos, porém complementares, que ainda carecem de maior integração institucional.

Após anos atuando exclusivamente na dimensão técnica dos planos amostrais e da análise de dados, decidi ampliar esse horizonte criando uma startup voltada ao estudo sistemático dos comportamentos coletivos — tanto no consumo quanto na política. A partir dessa experiência prática, tornou-se evidente que as pesquisas não são apenas instrumentos de medição: elas são ferramentas de poder, capazes de moldar narrativas, influenciar decisões estratégicas e redefinir campanhas inteiras.

Em 2026, o Pará viverá uma disputa intensa envolvendo o grupo político liderado pelo governador Helder Barbalho e seus aliados. Do outro lado, Daniel Santos desponta como principal antagonista, seguido do ex-senador Mário Couto e da ex-deputada Araceli Lemos.

Nesse contexto, compreender como as pesquisas são efetivamente utilizadas — e, em alguns casos, instrumentalizadas — torna-se fundamental não apenas para candidatos, mas também para empresários do setor, jornalistas, blogueiros e influenciadores, juristas e para a própria sociedade.

Por isso, propomos neste espaço abrir um debate técnico e público sobre três pontos centrais:

como os atores políticos realmente usam as pesquisas de opinião;

como essa dinâmica impacta o mercado local e nacional de estudos eleitorais;

de que forma os resultados influenciam comunicação, estratégias de campanha e percepção social.

Mais do que números, trata-se de discutir responsabilidade científica, transparência metodológica e o papel da estatística como guardiã racional do processo democrático.

Porque, no fim, pesquisa de opinião não deveria servir para fabricar realidades — mas para revelá-las.

Agradeço ao Prof. Dr. João Claudio Arroyo pela ponte institucional e à jornalista e advogada Franssinete Florenzano, responsável editorial pelo Portal Uruá-Tapera, pela abertura deste espaço qualificado de reflexão pública, permitindo que este amazônida altamirense, radicado na Região Metropolitana de Belém, possa contribuir com o debate sobre política, ciência de dados, estatística e qualidade da democracia — objeto central da Ciência Política.

A primeira pergunta que proponho enfrentar é: quem está na frente nas pesquisas no Brasil e no Pará?

A resposta honesta é que, neste momento, lidamos apenas com oscilações de pré-campanha entre os principais nomes que postulam cargos majoritários. Na cabeça dos candidatos e de suas equipes, o objetivo é sempre aparecer à frente, com percentuais confortáveis. Ocorre que o tempo político e o clima social ainda escutam um eleitorado que, de forma estocástica, não definiu seu padrão básico de comportamento.

Não entrarei agora em números — isso ficará para um próximo artigo, conforme a repercussão desta proposta. Posso apenas afirmar que a eleição está aberta, tanto no Brasil quanto no Pará. O eleitor médio ainda não se conectou plenamente ao tema. O paradoxo é que, mesmo com avaliações positivas dos governos federal e estadual, isso ainda não se traduz automaticamente em supremacia eleitoral.

Sustento essa leitura por atuar diretamente na elaboração de planos amostrais para diferentes institutos e empresas. Ao constituir a Frequência, imaginei que afastaria clientes. O efeito foi o inverso: muitos passaram a demandar nossos serviços justamente pela confiança técnica construída ao longo dos anos. Não posso detalhar resultados específicos, mas a tendência geral é clara.

De posse de uma pesquisa consistente, dois profissionais passam a exercer papel central no processo: o responsável pelo marketing político, que estrutura a comunicação da campanha, e o coordenador geral, que transforma dados em estratégia territorial. Ambos merecem respeito, pois operam na fronteira entre ciência e decisão política.

A esses profissionais — especialmente em disputas estaduais e federais — deixo uma recomendação: realizem pesquisas, no plural. Não apenas para medir intenção de voto, mas para captar o humor social, explorar perguntas incômodas e resistir à tentação de tentar determinar previamente o resultado que virá do campo.

Encerrando este primeiro texto, deixo uma provocação: quando uma pesquisa é encomendada, paga e entregue ao cliente… de quem é, afinal, a propriedade dessa informação?



Luiz Carlos Feitosa
Luiz Carlos Ferreira Feitosa é estatístico (CONRE7-9477), especialista em Estatística e Ciência de Dados e mestre em Ciência Política. Professor universitário. Atua na elaboração de planos amostrais e análises aplicadas à pesquisa de opinião para instituições e pesquisadores, foco em comportamento do consumidor e gestão pública. Servidor público da Sesma Belém. É fundador e executivo da Frequência – Inteligência em Dados, startup amazônica voltada ao desenvolvimento de metodologias analíticas e estudos sobre comportamentos coletivos, política e consumo. Contato: 9198188-4164 - frequencia360@gmail.com

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