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Tem sido muito desafiador ficar de fora da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada no coração da Floresta Amazônica, sem poder participar presencialmente, mas tenho acompanhado tudo pela imprensa e trago aqui um pouco do meu olhar sobre o evento.

A meio caminho da COP30 em Belém, que ocorrerá entre 10 e 21 de novembro, o evento já se consolida perante a comunidade internacional como um marco histórico de inclusão, ambição renovada e inovação prática. A conferência vem superando expectativas em vários âmbitos e demonstra que, mesmo diante de desafios logísticos, contradições e tensões geopolíticas, a chamada COP da Implementação está entregando resultados concretos.

A COP30 tem revelado o protagonismo do Brasil na mediação diplomática, na organização do encontro e na ampliação da representatividade, fortalecendo a liderança climática e a inclusão na Amazônia. A partir da cobertura jornalística nacional e internacional e das redes sociais, reuni um conjunto de pontos positivos e críticas importantes ao evento.

Destaco também a cobertura do evento em tempo real pela Franssinete Florenzano e pela Gabriella Florenzano, que estão à frente do Portal Uruá-Tapera, trazendo informações e imagens da COP30.

Esta COP não se configura apenas como um fórum diplomático global. Ela também representa um marco simbólico e prático para que o Brasil reassuma seu papel de liderança no enfrentamento da crise climática. Sob a presidência do embaixador André Corrêa do Lago, e com o presidente do Brasil como anfitrião, o evento reúne mais de 50 mil participantes de 195 países, incluindo chefes de Estado, cientistas, ativistas, lideranças comunitárias e representantes de organizações internacionais.

Superando o histórico de polarizações e avanços limitados das edições anteriores, a COP30 vem sendo caracterizada como um espaço orientado para resultados. A conferência prioriza ações concretas em seis eixos temáticos: transição energética de baixo carbono, conservação de florestas e oceanos, transformação da agricultura, resiliência urbana, desenvolvimento social e mobilização de finanças e tecnologias. Esses são os principais pontos de negociação ao longo do evento.

A imprensa mundial tem destacado dois pilares centrais da conferência: o protagonismo brasileiro, que reposiciona o país como ponte entre Norte Global e Sul Global, e a representatividade, especialmente de povos indígenas e comunidades tradicionais, que transforma Belém em um espaço de escuta ativa e participação cidadã em favor da justiça climática. Com base nas informações divulgadas, analiso de que forma esses elementos se conectam para redefinir a agenda global em um ano que marca uma década do Acordo de Paris.

O Brasil chega à COP30 com capital diplomático acumulado desde 2023, quando assumiu a presidência do G20, ampliado com seu papel no BRICS+ em 2025. Sediar o encontro na maior floresta tropical do planeta é uma declaração estratégica: o país se apresenta como guardião e inovador climático. No discurso de abertura da Cúpula do Clima, o presidente afirmou que a COP30 é a COP da verdade e convocou o mundo a encarar a realidade climática. Esse posicionamento se baseia também na matriz energética brasileira, que alcança 88 por cento de fontes renováveis, conforme o Balanço Energético Nacional 2025 da Empresa de Pesquisa Energética.

A diplomacia brasileira se traduz em iniciativas práticas, entre elas o Mapa do Caminho de Baku a Belém, elaborado em conjunto com a presidência da COP29. O documento organiza um roteiro para mobilizar 1,3 trilhão de dólares anuais em financiamento climático, com foco nos países do Sul Global. Entre os principais mecanismos está o Tropical Forests Forever Facility, fundo inicial de 25 bilhões de dólares, com possibilidade de chegar a 100 bilhões em recursos privados, voltado à preservação de florestas tropicais. O presidente do Brasil defendeu um pacto pela vida das florestas, dos oceanos e da humanidade, que inclui a Declaração Global de Manejo Integrado do Fogo.

Segundo o jornal Le Monde, essas iniciativas consolidam o Brasil como um laboratório da transição energética, destacando a combinação entre agricultura regenerativa, inovação verde e preservação amazônica. No plano socioeconômico, esse protagonismo se reflete na articulação multiescalar representada pelo Plano de Aceleração de Soluções em Governança Multinível, codirigido por Brasil e Alemanha até 2027. A obra Brazil, World Leader in Energy Transition, distribuída durante o evento, descreve políticas estruturais como o marco do hidrogênio de baixa emissão, o programa Combustível do Futuro e ações de combate à pobreza energética.

A imprensa nacional também destaca impactos econômicos relevantes. A CNN Brasil estima a geração de investimentos da ordem de 21 bilhões de reais, com novas diretrizes de infraestrutura resiliente que incluem rodovias e ferrovias sustentáveis e ações destinadas a comunidades indígenas e quilombolas.

Apesar das críticas, sobretudo políticas, o otimismo prevalece. O IBGE lançou o Mapa Mundi Invertido, com o Pará no centro, simbolizando o deslocamento do eixo geopolítico para o Sul Global. A pesquisa Genial Quaest aponta que 41 por cento dos brasileiros avaliam positivamente os resultados da COP30 e que 81 por cento dos belenenses esperam impactos econômicos significativos.

Se o protagonismo diplomático reflete a posição estratégica do Brasil, a representatividade indígena confere legitimidade ao processo. Esta é a COP com maior presença indígena da história: cerca de 3 mil representantes de 361 etnias brasileiras, além de delegações da América Latina, África e Ásia. Essa mobilização, organizada pelo Ministério dos Povos Indígenas e pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, estrutura a AldeiaCOP, uma vila temporária instalada no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Pará, que funciona como território político, arena de debates e espaço cultural.

Lideranças como Raoni Metuktire e Txai Suruí defendem a inclusão da demarcação de terras indígenas, com 107 processos pendentes. Em marcha, mulheres indígenas reforçaram a importância da presença originária para soluções climáticas. Sônia Guajajara declarou que não haverá solução climática sem a presença indígena, destacando que a defesa da floresta custa vidas.

A representatividade alcança níveis inéditos na Zona Azul, onde 400 indígenas foram credenciados. O jornal Le Figaro recorda que, em anos anteriores, povos originários eram quase invisíveis nas negociações. Protestos marcaram o evento. Em 14 de novembro, indígenas Munduruku e Suruí bloquearam a entrada principal da conferência para exigir medidas contra o garimpo e o avanço agroindustrial. O presidente da COP, André Corrêa do Lago, reconheceu as preocupações e abriu diálogo que resultou em avanços como o Plano de Ação de Saúde de Belém e o programa AdaptaSUS.

A diversidade da COP30 inclui mulheres, jovens, comunidades ribeirinhas e quilombolas. No Gender Day, foram assumidos novos compromissos financeiros para apoiar ações climáticas lideradas por mulheres. A juventude participa de debates no Youth Summit e no Pavilhão Indígena. A cobertura internacional registra a presença marcante de trajes tradicionais amazônicos e cerâmicas marajoaras.

Os territórios indígenas são reconhecidos como sumidouros de carbono e seus saberes tradicionais são integrados à ciência no Pavilhão da Ciência, que lançou o Global Carbon Budget 2025. Apesar de críticas pontuais, como as de Ediene Munduruku, que apontou exclusões residuais, o saldo é transformador. A COP30 mostra que justiça climática depende de escuta ativa e reconhecimento da diversidade.

A convergência entre protagonismo e representatividade constitui a essência amazônica da COP30. O protagonismo se legitima por meio da representatividade, e esta se fortalece quando encontra respaldo diplomático e institucional. Iniciativas como o Plano Nacional de Adaptação Climática à Saúde beneficiam populações vulneráveis, enquanto a Barqueata da Cúpula dos Povos reúne caravanas ribeirinhas e quilombolas pelos rios de Belém.

Os desafios logísticos são reais. Hospedagens caras, protestos, ausências geopolíticas e problemas estruturais testaram a organização do evento. Mesmo assim, conforme o Vatican News, a conferência representa uma nova página nas respostas globais ao clima.

O legado projetado é ambicioso. O Brasil volta a ocupar papel central na governança climática, impulsiona o financiamento climático global e propõe um modelo de desenvolvimento em que floresta, povos e inovação coexistem. O Mapa Mundi Invertido do IBGE simboliza esse reposicionamento, com a Amazônia no centro das decisões internacionais.

Até aqui, a COP30 não se limita a discursos. Ela apresenta ações mensuráveis, inclusão real e inovação prática. Pela primeira vez, uma COP na Amazônia colocou os guardiões da floresta no centro das decisões e mobilizou recursos de forma acelerada, criando mecanismos permanentes, entre eles o Instituto de Inteligência Artificial e o Círculo de Ministros de Finanças.

Existem desafios, como em toda conferência, mas o saldo é positivo. Belém mostra que implementação não é promessa abstrata. É pacto, financiamento, floresta preservada e protagonismo jovem. Se a segunda semana mantiver esse ritmo, a COP30 poderá ser lembrada como ponto de virada da década climática.

Referências 

BRASIL. Empresa de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2025. Rio de Janeiro: EPE, 2025.

BRASIL. Ministério dos Povos Indígenas. AldeiaCOP: relatório de atividades. Belém: MPI, 2025.

CNN BRASIL. Impacto econômico da COP30 estimado em R$ 21 bilhões. CNN Brasil, 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 15 nov. 2025.

EURONEWS. Tradição e modernidade na COP30: trajes indígenas entre ternos. Euronews, 2025. Disponível em: https://www.euronews.com. Acesso em: 15 nov. 2025.

GENIAL/QUAEST. Pesquisa de opinião sobre a COP30. São Paulo: Genial Investimentos, 2025.

GLOBO NEWS. Postagens sobre cerâmicas marajoaras e arte tapajônica na COP30. X (antigo Twitter), @GloboNews, 2025. Disponível em: https://x.com/GloboNews. Acesso em: 15 nov. 2025.

IBGE. Mapa-múndi invertido: Pará no centro. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.

JORNAL NACIONAL. Cobertura da COP30 em Belém. X (antigo Twitter), @JornalNacional, 2025. Disponível em: https://x.com/JornalNacional. Acesso em: 15 nov. 2025.

LE FIGARO. Indígenas quase invisíveis em edições anteriores das COPs. Le Figaro, 2025. Disponível em: https://www.lefigaro.fr. Acesso em: 15 nov. 2025.

LE MONDE. Brasil como laboratório da transição energética. Le Monde, 2025. Disponível em: https://www.lemonde.fr. Acesso em: 15 nov. 2025.

THE CANARY. Críticas à credibilidade prática do Brasil após COP29. The Canary, 2025. Disponível em: https://www.thecanary.co. Acesso em: 15 nov. 2025.

VATICAN NEWS. COP30 como nova página nas respostas globais. Vatican News, 2025. Disponível em: https://www.vaticannews.va. Acesso em: 15 nov. 2025.

WWF LAC. Lideranças indígenas na defesa da biodiversidade. WWF América Latina e Caribe, 2025. Disponível em: https://lac.panda.org. Acesso em: 15 nov. 2025.

BRAZIL, world leader in energy transition. Brazil, world leader in energy transition. Belém: [s.n.], 2025.

DECLARAÇÃO GLOBAL DE MANEJO INTEGRADO DO FOGO. Declaração Global de Manejo Integrado do Fogo. Belém: COP30, 2025.

GLOBAL CARBON PROJECT. Global Carbon Budget 2025. [S.l.]: Global Carbon Project, 2025.

MAPA DO CAMINHO DE BAKU A BELÉM. Mapa do Caminho de Baku a Belém. Belém: COP30, 2025.

TROPICAL FORESTS FOREVER FACILITY. Tropical Forests Forever Facility (TFFF): documento de criação. Belém: COP30, 2025.

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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