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A expressão “QUINTOS DO INFERNO” surgiu na fase do Brasil Colônia, quando nosso País era o saco de pancadas de Portugal e os galegos mandavam e desmandavam aqui dentro.

Era também a época das grandes navegações, quando Portugal reinava nos mares e inegavelmente conquistou locais longínquos com suas indefectíveis caravelas com a cruz de malta, posteriormente transformadas em colônias, sendo igualmente exploradas economicamente, propiciando aos lusos substanciais lucros, que sustentavam as tradições e o luxo da monarquia portuguesa.
Virou expressão costumeira quando nossos patrícios viam uma embarcação chegando de muito longe, proveniente do Brasil, quase em uníssono os circunstantes presentes no cais do porto dizerem: “Lá vem mais uma nau, dos quintos do inferno”. Esse indigitado “inferno” era como os portugueses chamavam o Brasil ainda em seus primórdios, selvagem e inculto.
Que mal lhe pergunte: e os “quintos”, de onde mesmo surgiram?
Pois é… Eles faziam referência ao imposto de 20% (correspondente a um quinto) de todo o ouro que era extraído das generosas minas brasileiras, cuja arrecadação, que se podia estimar em toneladas, era simplesmente levada via marítima para o território português, para abastecer as burras da monarquia, isso quando não passava diretamente para a Inglaterra, que com seu poderia bélico naval garantia o livre trânsito dos navios lusitanos, com suas preciosas cargas de especiarias e outros gêneros extremamente valiosos.
Por isso, dizer para alguém que fosse para o quinto dos infernos, naquela época recuada significava mandar essa pessoa (muitas vezes banida) para o lugar longínquo e desconhecido que era o Brasil. A propósito, a cobrança dos tais 20% foi uma das principais causas da Inconfidência Mineira, revolta que acabou sendo reprimida em 1789 pela Coroa Portuguesa de forma draconiana, como sabemos.

Daí a ser consolidada como uma expressão de puro xingamento foi um passo, a partir principalmente de quando se descobriu a sensação de alívio ou desforra de mandar alguém chato ou impertinente, para o quinto dos infernos.
Mutatis mutandis, dá também no mesmo mandar o distinto “pro raio que o parta”, outra expressão popular usada para extravasar a raiva, indignação ou desprezo em relação a outrem, com a subjacente sugestão de que o dito cujo desapareça, “vá cantar em outra freguesia” ou “vá plantar batatas”… Viu só como o nosso português de cada dia é rico em tiradas que o povo usa sem se dar conta ou saber das motivações que lhes deram origem?
Na música popular brasileira, um cantor intitulado “Missionário”, gravou em 2024 pela USADISCO a música denominada “QUINTO DOS INFERNOS”, que se ninguém nunca ouviu, não está perdendo absolutamente nada.

Trata-se de uma espécie de xote gaúcho, que se por um lado desperta nos afoitos a vontade de dançar, mercê do ritmo marcante da sanfona, a letra revela-se grotesca, verdadeiro monumento ao mau gosto, em especial para os curtem os encantos e a magia do que temos de bom e de melhor na MPB.

Como se não bastasse, existe também uma cerveja mexicana batizada de “QUINTO DOS INFERNOS”, produzida pela cervejaria UberBrau, diz-que elaborada para a celebração da vida, utilizando cinco maltes diferentes e uma única variedade de lúpulo, com aroma floral e sabor levemente caramelizado.
Aposto que nem chega aos pés da festejada aguardente “Santo Grau”, de qualidade superior, fabricada em Minas Gerais e ideal para confraternizações ou coquetéis à base de caipirinha, para celebrar os bons momentos da vida com os amigos na amena temperatura das Alterosas, quando se revela imbatível. Há os abstêmios que não chegam nem perto, é claro, mas isso são casos à parte…



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Célio Simões
Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

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