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Desde o registro oficial do 1º caso confirmado de Covid-19, em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil superou a trágica marca de meio milhão de mortos e quase 18 milhões de infectados confirmados, na tarde de 18 de junho de 2021, conforme atestado no painel mundial da Johns Hopkins University. “Podemos chegar a 500 mil mortos na metade do ano”, previu o neurocientista Miguel Nicolelis no início de março. A previsão foi tida como “catastrófica” na época. Mas aconteceu, dez dias antes do previsto. É como se o arquipélago do Marajó tivesse sido completamente varrido da face da terra, sem um sobrevivente. É mais do que um World Trade Center por dia. Aliás, em todo o planeta, só nos EUA morreram mais pessoas do que no Brasil. E o tamanho da tragédia pode ser maior e ainda mais alarmante.

Estudos estatísticos de cientistas brasileiros constatam altos patamares de subnotificação, tanto de óbitos quanto de infectados pelo coronavírus, o que vem sendo denunciado desde o ano passado. A falta de clareza sobre o quadro real impede a implementação racional de políticas públicas e sustenta a falsa sensação de controle da doença. O número mais realista está em no mínimo 700 mil mortos, e o país pode chegar a 1 milhão de vítimas fatais da Covid até o final deste ano, afirmou à Deutsche Welle Brasil a infectologista Ana Luiza Bierrenbach, conselheira técnica sênior da Vital Strategies, que assegura: “Na verdade, chegamos a 500 mil mortos por volta de meados de abril”.

O estudo estatístico, que é dinâmico e atualizado diariamente, tem como base de dados o SIVEP-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe), do SUS. Esse banco, cujo acesso é público, registra casos e óbitos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave). “Pegamos todos esses casos de SRAS, os que eram Covid-19 e os que não tinham nenhuma etiologia, nenhum agente etiológico [causador da doença] determinado. Em 2018, 2019, os números eram bem baixinhos. Acontece um boom obviamente a partir de março de 2020, e neste boom tem muitos casos e óbitos não confirmados como Covid. Dado que não encontramos a etiologia, a única explicação possível é que seja Covid, ou então no Brasil estamos tendo uma pandemia de outro agente respiratório que desconhecemos. Só pode ser Covid”, atesta a médica.

Além do índice estarrecedor de casos letais, o imunologista Alessandro dos Santos Farias, coordenador de diagnóstico da Força-Tarefa contra a Covid-19 da Unicamp, declarou à DW Brasil o temor dos cientistas de que o Brasil produza uma variante agressiva que leve o país à estaca zero, por conta da vacinação lenta e contaminação alta. Ele calcula o número de infectados, hoje, em 50 milhões de pessoas, quase o triplo das estatísticas oficiais. A possibilidade de surgir nova variante para a qual não há cobertura vacinal é grande justamente pelo gigantesco número de infectados. Farias e os especialistas da Unicamp iniciam, neste mês, uma pesquisa inédita, por amostragem, que vai detectar as variantes em todas as 11 regiões do estado de São Paulo pelo PCR, de forma mais célere e mais barata, sem a necessidade de sequenciamento do vírus. No Brasil inteiro, o governo federal testou apenas 135 mil pessoas. E programas nacionais de testagem em massa são cruciais para manejar a abertura e fechamento de serviços e escolas, por exemplo. A Alemanha chegou a testar 500 mil pessoas em um único dia.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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